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Economia

BCE deve admitir erros e rever política de juros baixos, afirmam analistas

Pacote de estímulo apresentado em Frankfurt é criticado por empresários e economistas, que alertam para risco de perda de confiança na instituição. "Se o remédio está errado, não adianta aumentar ainda mais a dose."

O Banco Central Europeu (BCE) voltou a afrouxar a política financeira da zona do euro, baixando mais uma vez, nesta quinta-feira (10/03), a taxa básica de juros, de 0,05% para zero, e elevando as compras mensais de títulos públicos de 60 bilhões para 80 bilhões de euros.

No quadro do "pacote de estímulo", os bancos também passam a ter que pagar juros negativos de 0,4% se deixam depositado no BCE seu excedente de dinheiro. Até então, a "multa" era de 0,3%.

Esses atos de desespero do presidente da instituição, Mario Draghi, provocaram sobretudo desaprovação na Alemanha. "A política do dinheiro barato destrói a confiança", critica Wolfgang Steiger, secretário-geral do conselho financeiro do partido governista alemão União Democrata Cristã (CDU).

"Estamos a quilômetros de uma deflação, não há uma espiral descendente de preços, salários e honorários. Se o remédio está errado, não adianta aumentar ainda mais a dose."

Tiros que saem pela culatra

Para Anton Börner, presidente da Confederação do Atacado, Comércio Externo e Serviços (BGA) a notícia é "boa para os especuladores da bolsa de valores e os países endividados do sul da Europa". Para a população de países como a Alemanha, contudo, ela é "catastrófica".

"Quem poupa vai ser desapropriado. É uma gigantesca redistribuição [do capital] do norte para o sul. No fim das contas, não vai resultar em nada: só se está acalentando os Estados devedores. Eles não fazem nenhuma reforma, a produtividade não cresce. Assim, aumenta a discrepância entre o norte e o sul."

Otmar Lang, economista-chefe do Targobank, afirma que "o grande pacote de medidas revela um enorme nervosismo por parte das mais altas autoridades monetárias", pois "também elas precisam admitir que, até agora, sua política financeira não teve o efeito almejado".

O balanço é decepcionante, prossegue Lang: o Banco Central não conseguiu mudar a seu gosto nem mesmo os índices que ele mais pode influenciar. Ele só é capaz de influenciar até certo ponto as expectativas inflacionárias. Já a tendência do euro é de alta e não de queda, e também o esperado aquecimento das atividades de crédito na Europa só avança muito lentamente.

Hora de admitir erros

O economista-chefe do Targobank adverte que o BCE precisa ser bem-sucedido na sua política, do contrário perderá cada vez mais credibilidade e respaldo entre a população. "Pois quanto mais os juros caírem para a faixa negativa e lá permanecerem, mais as pessoas vão sentir os efeitos negativos."

Portanto, por mais que não aparente, a equipe de Draghi tem bons motivos para estar nervosa. Antes mesmo da decisão desta quinta-feira, o atual curso já era controverso no conselho administrativo do BCE. Há um bom tempo, muitos funcionários vêm frisando que a política financeira europeia está se movendo no limiar do perigo.

Não há como ignorar o problema: há um ano o Banco Central Europeu injeta no mercado centenas de bilhões de euros sem promover nem crescimento nem inflação. "O que está errado?", indaga o economista-chefe do Commerzbank, Jörg Krämer.

O BCE aponta para os bancos, sobretudo nos países do sul da União Monetária, que sofrem com o acúmulo de créditos podres e que não concedem novos empréstimos a empresas e particulares, muitas vezes altamente endividados.

A instituição europeia com sede em Frankfurt espera que, com o passar do tempo, os bancos e seus clientes recoloquem seus balancetes em ordem, que o nó se desfaça, e que os juros baixos impulsionem a conjuntura. Contudo as esperanças de Draghi não deverão se concretizar, mesmo que ele faça rodarem ainda mais depressa as impressoras de dinheiro, teme Krämer.

"Em vez disso, está na hora de admitir os erros de concepção, de escutar a opinião dos próprios meios econômicos." Em conversas com empresários, escuta-se de todos os lados: "No longo prazo, a coisa vai dar para trás". O empresariado vê os responsáveis do Banco Central sob pressão dos políticos e teme que, em vez de resolver os problemas da União Monetária, o instituto esteja se limitando a aplicar anestesia ou comprar tempo.

Deutschland EZB Pressekonferenz Mario Draghi

Draghi não demonstra, mas tem motivos para se preocupar

Má aplicação de capital e poucas reformas

Alguns veem até mesmo uma ameaça à existência na União Monetária. "A confiança básica de muitos empresários está abalada, e isso acontece não só na Alemanha", diagnostica Krämer. Em vez de liberar o potencial de empreendedorismo, a política financeira frouxa o debilita no longo prazo.

"Em primeiro lugar, os juros negativos levam a uma má condução do capital. Perto de zero, os juros estão praticamente abolidos e não preenchem mais sua função." Há, por exemplo, o perigo de os investidores pressionarem ainda mais para cima os preços dos imóveis, na desesperada busca por rendimentos.

Dentro desse processo, o mercado imobiliário alemão se encontra atualmente numa fase do exagero. "Isso pode acabar dentro de alguns anos numa bolha de preços altos, que, quando estourar, vai causar graves danos à economia nacional."

Em segundo lugar, prossegue o economista do Commerzbank, a política financeira leniente causa um congestionamento de reformas. O primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, por exemplo, está poupando grandes somas, devido às taxas negativas do BCE, e sente "pouca pressão para melhorar as miseráveis condições básicas para as empresas".

Krämer adverte que "política financeira não funciona, se, a longo prazo, debilita as empresas". Empresários previdentes já reagem hoje à deterioração das condições básicas que se anuncia, adotando cautela.

Esse é um dos motivos por que, desde o fim da crise dos mercados financeiros, em 2009, grande parte das empresas da zona do euro só elevou minimamente seus investimentos, que ainda se encontram 13% abaixo do nível anterior à irrupção da crise.

"O BCE não deveria só acreditar em si mesmo, nos ministros das Finanças e nos mercados financeiros, mas dialogar com o empresariado", reforça Krämer. Aí a instituição compreenderia que deve abandonar o modo de crise e emitir um sinal de abertura, "com um plano concreto sobre como pretende retornar gradualmente a taxas de juros adequadas".

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