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Cultura

Bayreuth traz "Tristão e Isolda" de Wagner como ópera infantil

A complexa trama de amor infeliz e morte é talvez a ópera menos adequada ao público infantil. Mas o templo wagneriano aceitou o desafio, adaptando e reduzindo duração e orquestração a um terço. E o experimento deu certo.

Para os veteranos de Bayreuth, há muito o Palco de Ensaio IV é uma dica especial. É aqui, à sombra do grande Teatro do Festival, que se realiza o projeto Wagner para Crianças.

Bayreuth 2009: Kinderoper (Foto: Bayreuther Festspiele)

Para as crianças, história de amor e morte se transformou em festa

A partida foi dada em 2009, com uma adaptação de O Navio Fantasma, fantasiosa e bem adequada à plateia infantil. Seguiram-se Tannhäuser, O anel do Nibelungo e Os mestres-cantores de Nurembergue.

Em 2013, bicentenário de Richard Wagner, a ousada escolha recaiu sobre a obra que, em todo o repertório operístico, é possivelmente a menos apropriada para crianças: o drama de amor wagneriano Tristão e Isolda. E a aventura deu certo.

No mesmo barco

Todos estão dentro de um barco, grandes e pequenos. As ondas sussurram, os mastros rangem. A cenógrafa Judith Philipp e o diretor Michael Höppner transformaram o palco num navio tosco. É no convés que se desenrola toda a ação. No programa da ópera, um olhudo peixe azul assegura: "A história de Tristão e Isolda, que vou contar para vocês, é realmente trágica". E ele tem razão.

Isolda – que, logo se vê, é uma princesa – está extremamente mal-humorada. E não é sem razão: ela foi raptada por Tristão para casar com o rei Marco, que ela não conhece e muito menos ama. Que coisa terrível, não é? Toda a criançada concorda.

"O teu casamento vai finalmente trazer a paz entre os nossos países", a ama e amiga Brangene tenta acalmar a pobre Isolda. Mas ela está inconsolável e só quer uma coisa: morrer.

No entanto, a princesa tem uma conta em aberto com Tristão, que está pescando no deque superior. "Ladrão! Criminoso! Assassino!", insulta ela, segurando o elmo de Morold, seu noivo, morto por Tristão.

Kinderoper Tristan und Isolde Bayreuth 2013

Cúmplices do amor proibido: Jukka Rasilainen (esq.) é o escudeiro Kurvenal e Simone Schröder, a ama Brangäne

Encurtar com inteligência

"Quando recebi a versão de Daniel Weber da ópera, fiquei muito feliz que não fosse tão alterada, do jeito como os adultos pensam que possa ser bom para as crianças", revela Höppner. De forma reduzida, direta e honesta, conta-se a história de um amor infeliz, sem gracinhas e sem perder de vista a ideia central da obra.

Daniel Weber e Marko Zdralek condensaram em uma hora e meia as quatro horas e meia de libreto e música originais. E no processo, conseguiram não só manter os momentos mais importantes da ópera, como também reproduzir o ímpeto da música de Richard Wagner.

Aqui, grande parte dessa façanha se deve aos músicos da Brandenburgisches Staatsorchester, de Frankfurt no Oder, que produzem a impressão de toda uma orquestra wagneriana, com apenas um terço dos instrumentos.

Suicídio com obstáculos

A direção de cena faz de tudo para "empacotar" o complicado drama operístico de forma assimilável para o público mirim. Quando Brangene prepara poções de amor e morte, seu laboratório mágico borbulha e brilha, e as crianças ficam fascinadas. Ao fim da peça, elas poderão levar amostras para casa.

Enquanto isso, o milagre do amor já se realizou. "Não quero que mais nada esteja entre nós", diz Tristão. Isolda o encara de jeito significativo. Só a morte poderá unir ambos, já que ela está prometida ao senhor de Tristão, o rei Marco, e um futuro comum com o herói está fora de cogitação.

"Vendo a peça desse modo, desde o começo os dois só estão preocupados em escapar do mundo", constata o diretor. Mas alguma coisa dá sempre errado: uma hora as pessoas se intrometem, depois o cálice com a poção é derramado, ou o navio não afunda. "Tem quase um toque de comédia, algo de genialmente absurdo", comenta o diretor.

Kinderoper Tristan und Isolde Bayreuth 2013

Hans-Georg (dir.) Priese interpreta Trstão

Música infinita interrompida

Apesar de todas as risadas, a encenação permanece fiel ao original: também na versão infantil não há final feliz para Tristão e Isolda. Nenhum barco vindo do nada, nenhuma névoa misteriosa salva os amantes. Eles morrem de verdade: Tristão de uma ferida fatal, Isolda de coração partido.

O vento sopra, os mastros rangem. Os protagonistas estão mortos, mas, para eles, este é o momento mais feliz de toda a história. "O maior desafio foi mostrar que Tristão e Isolda se decidem voluntariamente pela morte", explica Höppner. "Isso é uma provocação bem grande da parte de Wagner. Mas é preciso aceitar assim,"

E é preciso também aceitar que a música concebida como "infinita" seja repetidamente interrompida, sem mais nem menos. Afinal de contas, a obra foi radicalmente abreviada. "O mais estranho é no segundo ato, quando a música ilustra o grande frenesi amoroso", aponta o maestro Boris Schäfer. Passados uns três minutos, em meio ao grande êxtase, acaba-se tudo. Isso não dói aos músicos?

"Agora, não mais", confessa o regente. "Primeiro tínhamos pensado em interpolar uma cadência ou um final em dó maior nesse momento. Mas deixamos a ideia de lado, porque assim é mais honesto e mais radical."

Wagner Kinderoper und Frühwerke in Bayreuth

Diante do Teatro do Festival, da esq. para a dir.: Stefan Heibach (canto), Daniel Weber (adaptação), Michael Höppner (direção), Boris Schäfer (regência)

Começo de um grande amor

"Não acho esta história tão triste assim", comenta Irene Theorin, que canta e representa Isolda. "Afinal de contas, a morte faz parte da vida." E toda criança – a peça é liberada a partir dos oito anos de idade – já se questionou sobre a morte. Será ela um nada? Será um outro mundo?

A ferida aberta, cuidadosamente aplicada pelo maquiador, é capaz de, no máximo, assustar um adulto hoje em dia, mas não uma criança em idade escolada pela televisão, videogames e companhia. E mesmo que os menores não entendam tudo, essa montagem continua sendo um grandioso primeiro encontro com a ópera, a começar pelos cantores de gabarito internacional.

"É preciso dar às crianças ao menos a possibilidade de se ocupar do gênero ópera", crê a codiretora do Festival Wagner de Bayreuth, a bisneta do compositor Katharina Wagner, de cuja iniciativa o projeto Kinderoper (Ópera Infantil) nasceu.

"Nas aulas de música, o lugar para a ópera é pequeno demais, pois há cada vez menos aulas. Mas dá para ver com que entusiasmo as crianças encontram o acesso para si", comenta Katharina Wagner.

De fato: após a récita, uma garotinha vai até a cantora Irene Theorin e lhe assegura, encantada: "Eu vou amar Isolda para sempre!".

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