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Alemanha

Bate-papo com hora marcada

Se os antigos germânicos se reuniam em torno do fogo, os alemães de hoje preferem reservar uma mesa sempre no mesmo bar ou restaurante. O dia também é fixo, a primeira sexta-feira do mês ou toda quarta-feira.

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Típico Stammtisch: grupo de Almstorf reúne-se no bar para falar dialeto e cultivar cultura local

O alemão dificilmente faria o que faz um brasileiro: encontrar um conhecido na rua e resolver de uma hora para outra ir tomar um chopinho com ele no bar da esquina. Não. Bate-papo tem que ser organizado, tem dia e hora marcada e, de preferência, se realiza regularmente.

"Eu diria que se não fosse assim, ninguém ia poder sair com os amigos. Todo mundo tem sua agenda, seus compromissos", diz minha amiga Regine, que é secretária e encontra regularmente alguns ex-colegas de escola e vizinhos do bairro onde sempre morou em St. Augustin, perto de Bonn. E isso é que fidelidade: o grupo se vê uma vez por semana há 18 anos, o que não é raridade na Alemanha.

"O meu apartamento é muito pequeno, não dá para receber meus amigos lá", diz Georg, que eu conheço da academia de ginástica, respondendo à minha pergunta. Eu quis saber por que ele se junta com seus conhecidos no bar da esquina. Encontra-se a Stammtisch - como se chama essa roda de amigos - com maior freqüência nas cervejarias e nos bares tradicionais dos bairros, que são bem diferentes dos brasileiros. A porta está sempre fechada, por causa do frio, e há mesas e cadeiras.

Vida social em outras latitudes

Em locais da moda não há vestígio dessa forma tão teutônica de sociabilidade, praticada por 10% dos alemães. Os intelectuais e a juventude em geral são mais espontâneos, acabaram apreciando a forma descontraída de relacionamento na Itália, Espanha e nas viagens de férias que fizeram mundo afora.

"Achei muito curioso essa estória do Stammtisch, quando me contaram", relata o músico chileno Henrique Diaz, que vive em Colônia há oito anos. "A primeira impressão de um estrangeiro é que os alemães são formais, rígidos, frios e tão organizados que não conseguem nem deixar seu tempo livre por conta do acaso" - comenta. "Não seria injusto classificar um povo inteiro de quadrado?" - perguntei e ele acabou admitindo que toda forma de se ver "o outro" ou "um outro povo" sempre é meio preconceituosa.

Papo furado, reclamações e preconceitos

"Outros povos, outros costumes" é um ditado alemão e, como tal, os alemães que se reúnem no Stammtisch também comentam tudo o que acham estranho nos "outros", e nem sempre de forma simpática. Os próprios alemães estão divididos quanto ao assunto. Enquanto uns acham muito agradável ou "o máximo" esses encontros, outros consideram que só sai besteira nessas rodas, em que sob a influência do álcool, acaba-se soltando comentários xenófobos ou racistas.

Como as caras conhecidas e o mesmo local no seu bairro transmitem uma sensação de aconchego, é nessa roda que as pessoas se sentem bem para dizer o que verdadeiramente pensam. E assim, no entusiasmo de umas e outras cervejas e o infaltável Korn, um aguardente geralmente de cereais, reclama-se de tudo um pouco e xinga-se à vontade principalmente os políticos, mas também se trata do cotidiano ou dos temas que agitam a sociedade.

Resquício dos bárbaros no século 21

Com isso cultivam - provavelmente sem saber - um costume que se manteve como resquício das assembléias dos antigos povos germânicos. "Stamm" na verdade significa tronco, tribo, estirpe, raça. Se no século 19 mulher não passava nem perto de um Stammtisch, hoje acabou-se o patriarcalismo e as mulheres estão integradas em rodadas mistas ou criaram suas próprias Stammtische.

Muitas vezes clubes esportivos escolhem um bar como seu Stammlokal. As associações também são outra forma bem germânica de sociabilidade - "onde tem três alemães, funda-se uma associação" - diz-se por aqui. Muitas delas mantêm um local para encontros regulares.

E assim, basta uma olhada na Internet para ver que tem Stammtisch para todos os gostos, pois os alemães não seriam alemães se não se reunissem também por algum tipo de interesse comum.

Achei Stammtische de fãs de motocicletas italianas, do Austin Healey e outras marcas exóticas ou não de carros, de interessados em cavalos e equitação, para apreciadores de vinho, de aeromodelismo ou trenzinhos em miniatura, para homossexuais, usuários de computadores Apple e até amigos dos porquinhos da Índia. E também Stammtische "exportadas " para Chicago, Dublin e Oslo, como um ponto de contato para reunir a "tribo" no exterior. Por que não? Não vivemos numa aldeia global?