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Cultura

Barbara Köhler: naturalismo e construtivismo

Tanto na poesia como na prosa, escritora impõe uma voz feminina que questiona construções sociais tidas como naturais e explora o conceito de liberdade.

A partir da década de 70, pesquisas no campo da filosofia da linguagem começaram a se fazer sentir no trabalho poético e literário de vários autores em países como Estados Unidos e França. Desde o fim dos anos 50, autores franceses em torno do OULIPO e do nouveau roman já questionavam noções arraigadas do que é ou pode ser a literatura.

Tais pesquisas filosóficas foram especialmente motivadas pelo trabalho teórico dos pós-estruturalistas franceses e da influência dos textos tardios e póstumos de Ludwig Wittgenstein, como asInvestigações filosóficas (1953). É claro que isso não se dissocia das pesquisas que vinham sendo feitas desde as primeiras vanguardas históricas.

Essa influência teórica, no entanto, chegou a tal ponto nos dias atuais que o crítico norte-americano Nicholas Dames cunhou o termo Theory Generation (Geração da Teoria) para discutir autores como Teju Cole, Jennifer Egan, Jeffrey Eugenides, Ben Lerner, Sam Lipsyte e Lorrie Moore.

A essa linha de pesquisa ainda se uniriam a pesquisa da teoria e política de gênero, de autoras como Julia Kristeva e Luce Irigaray, e sua contrapartida poética no trabalho de poetas e escritoras como Rosmarie Waldrop, Lyn Hejinian, Susan Howe ou Kathy Acker.

Seria de se esperar que, na língua de Wittgenstein, tal influência também fosse notada, já que surgiu com tamanha força em países de língua inglesa, por exemplo. Mas não foi o caso. Uma das exceções é Barbara Köhler.

Sensibilidade linguística

Nascida em 1959 na cidade de Burgstädt, na então Alemanha Oriental, Köhler cresceu em Penig e trabalhou por um tempo no teatro municipal da então Karl Marx Stadt, hoje Chemnitz.

Após estudar literatura no Instituto Johannes R. Becher, a autora começou a publicar seus primeiros textos em revistas. Foi após a queda do Muro que veio sua estreia em livro, com o volume Deustches Roulette (1991) – Roleta Alemã, em português – publicado pela editora Suhrkamp.

Composto por poemas e textos em prosa, o volume demonstra a sensibilidade linguística de Köhler. Conceitos como naturalismo e construtivismo parecem ser lançados um contra o outro. Num dos textos, ela escreve: "E talvez isso devesse ser detido: lançar palavras como homem e mulher uma contra a outra. Língua sem-terra. Roleta alemã termina com Rien ne va plus. Continue falando."

Em seguida, vieram os volumes Blue Box (1995) e Wittgensteins Nichte: Vermischte Schriften/Mixed Media (1999) – A sobrinha de Wittgenstein: Escritos Mistos, em português. Neste último, o diálogo da alemã com o pensador austríaco se torna evidente e vem à ribalta. Isso tudo com seu twist especial de gênero, já a partir do título.

Trata-se, em primeiro plano, de um jogo com o título do romance memorialista do austríaco Thomas Bernhard, Wittgensteins Neffe. Eine Freundschaft (1982) – em português, O sobrinho de Wittgenstein. Uma amizade –, em que Bernhard rememora seu amigo Paul Wittgenstein, sobrinho do pensador austríaco.

Voz feminina e liberdade

Köhler posiciona-se nessa tradição e diálogo, mas como mulher, impondo sua voz feminina, incorporada num corpo feminino, com suas próprias regras de linguagem. Ao mesmo tempo, o título pode ser lido como "os nãos de Wittgenstein", numa criação do plural para a palavra nicht. Uma rápida pesquisa etimológica para a palavra nos levaria a muitas outras leituras.

Mas o grande reconhecimento crítico viria com o que já foi chamado de tour de force da autora: o volume Niemands Frau. Gesänge (Mulher de ninguém: Cantos), em que Köhler retoma os mitos da Odisseia, de Homero, e os reconta a partir da perspectiva das mulheres na história. O jogo aqui parte de Penélope, mulher de Odisseu, aquele que dissera ao ciclope Polifemo que seu nome era "Ninguém". Köhler transforma isso numa petição de liberdade: eu sou mulher e pertenço a ninguém.

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