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Alemanha

Atentado em Paris é lenha na fogueira do Pegida

Grupo "anti-islamização" ganha adeptos a cada passeata, e ataque terrorista na França deve engrossar ainda mais suas fileiras. "Movimento é justamente impulsionado pelo medo", comenta analista.

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"A Saxônia segue alemã", lê-se em cartaz exibido em passeata do Pegida em Dresden

Luto, indignação e repulsa se manifestam por todo o mundo após o ataque terrorista ao tabloide satírico Charlie Hebdo, em Paris, nesta quarta-feira (07/01) ao que tudo indica executado por fundamentalistas islâmicos. A Chancelaria Federal em Berlim, o Kremlin em Moscou, a sede da União Europeia em Bruxelas, a Casa Branca e o Vaticano: todos condenaram severamente o atentado.

A Liga Árabe e vários países árabes, entre eles o Egito e a Arábia Saudita, também censuraram o ataque terrorista, e numerosos chefes de governo expressaram sua consternação. O primeiro-ministro britânico, David Cameron, classificou como barbárie o atentado que custou 12 vidas. Colocando-se "firmemente do lado da liberdade de expressão e da democracia", assegurou que nenhuma forma de terrorismo conseguirá afastar o povo desses valores.

Já a reação predominante nos meios anti-islâmicos é que sempre se soube do perigo e se advertiu contra ele. Os organizadores do movimento Pegida (sigla alemã para "Europeus patriotas contra a islamização do Ocidente") comentam, em sua página no Facebook: "Temos que primeiro esperar uma tragédia dessas acontecer na Alemanha???"

"Aqueles que carregam consigo o medo dos muçulmanos se sentem agora endossados pelo ataque de Paris", declara o especialista Nico Lange, da Fundação Konrad Adenauer, em Berlim. "Isso também terá efeitos sobre os protestos do Pegida. Pois o movimento é justamente impulsionado por esses medos."

Da Alemanha para a Europa?

Nesta segunda-feira, cerca de 18 mil pessoas participaram de uma passeata em Dresden contra a suposta "islamização" da Europa. Iniciadas no fim de outubro de 2014, as marchas de protesto vêm ganhando adesão. E, após o atentado em Paris, os organizadores do Pegida podem contar com um novo acréscimo na próxima segunda-feira.

"Eles trabalham com esquemas de raciocínio muito simples, transmitem que o terrorismo ocorrido em Paris é típico de todos os muçulmanos que imigram para a União Europeia", explica Lange.

O cientista político Gilbert Casasus, da Universidade de Fribourg, na Suíça, especula sobre a probabilidade de o movimento islamófobo tomar proporções europeias. Pois, até agora, o Pegida é sobretudo um fenômeno alemão, observa.

"Não é um fenômeno que nasceu da política partidária, mas de cidadãos que querem expressar seu descontentamento e ira. O Pegida não é um partido, ao contrário da Frente Nacional [França], do FPÖ [Áustria], do Ukip [Reino Unido] ou, na Suíça, do SVP."

Ele lembra que, em muitos países da Europa, as correntes islamófobas e populistas de direita estão bem organizadas em partidos, mas, na Alemanha, nem tanto.

Distância da Frente Nacional

Ainda na véspera do atentado à redação do Charlie Hebdo, a Frente Nacional (FN) declarara ser muito importante o debate lançado pelo Pegida na Alemanha. No entanto, a legenda francesa pouco parece ter a ver com a liderança, antes caótica, dos "Europeus patriotas contra a islamização do Ocidente" e sua difusa miscelânea de metas.

"Algo como o Pegida não é capaz de tomar o lugar de nenhum partido", comentou Ludovic de Danne, assessor para assuntos de política externa de Marine Le Pen, a presidente da FN, em conversa com a rádio francesa Europe1. Para ele, é impossível que venha a sair do movimento alguém como Le Pen.

"Ela é presidente do partido mais importante da França, que já se ocupa desse tema [a suposta "islamização" da Europa]. Não creio que ela devesse associar seu nome a iniciativas espontâneas desse tipo."

Deutschland PEGIDA Demonstration in Berlin

Manifestação do Pegida em Berlim

Rede frouxa

Também na França há movimentos islamofóbicos não organizados em partidos políticos, e que agora poderão ganhar mais fôlego. Um deles é a Riposte Laique (Réplica laica), conhecida por organizar banquetes com vinho e carne de porco em bairros muçulmanos, como provocação.

Contudo, o movimento se distingue do alemão Pegida por se apresentar como estritamente antirreligioso, em vez de pseudocristão, ressalva Casasus. "O fato de se cantarem no Pegida canções de Natal é expressão de uma compreensão equivocada de cristianismo. Não se vê uma coisa assim em movimentos semelhantes de outros países da Europa."

Na rede social Facebook já é possível encontrar páginas do Pegida norueguesas, austríacas, suecas, espanholas, italianas e francesas. A próxima meta anunciada é levar o movimento também à Dinamarca. Nessas páginas não acontece muita coisa, entretanto: comentários islamófobos se alternam com insultos mútuos.

"Existe uma conexão ideológica: contra o parlamentarismo, contra a democracia partidária, contra a mídia, contra a União Europeia, contra a migração", analisa Lange. "Mas não acredito que exista uma rede desses movimentos 'anti' na Europa."

O que define a Europa, em contrapartida, é "um espaço comum de valores democráticos", como declarou o ministro alemão do Interior, Thomas de Maizière, nesta quarta-feira em Berlim, em reação ao atentado em Paris.

Por isso também há uma ameaça comum. No entanto não se dispõe, no momento, de qualquer indício de planos para ataques comparáveis na Alemanha, assegurou o responsável pela segurança interna do país.

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