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Cultura

"As condições do mal-estar são hoje ainda mais catastróficas"

Em entrevista à DW-WORLD, Joel Birman fala do lugar da psicanálise por ocasião dos 150 anos de Freud, observa a questão do Outro no discurso freudiano e aponta as razões da persistência do mal-estar na atualidade.

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Psicanálise em debate, 150 anos após o nascimento de Freud

Durante as comemorações dos 150 anos de nascimento de Freud, muito se discute sobre o lugar da psicanálise na atualidade. A teoria psicanalítica só sobrevive graças ao diálogo com outros saberes, como a filosofia, a antropologia e o cinema, só para citar alguns?

Pode-se dizer que a teoria psicanalítica sobrevive tanto no seu campo estrito, isto é, a clínica, a psicoterapia, as relações com a psiquiatria e a psicologia, quanto nas relações com os outros saberes. A psicanálise é convocada hoje para pensar as questões ligadas à política e à sociedade, no qual as suas atribuições são bem acolhidas.

Em Mal-estar na atualidade , o senhor anunciava ser "inevitável que se abra essa caixa de Pandora dos infortúnios da psicanálise" e defendia que alguns de seus fundamentos deveriam ser repensados. Houve algum progresso neste sentido?

Com certeza, houve progressos em relação a isso. O avanço da psicanálise nas suas relações com os campos social, cultural e político evidencia isso fartamente. Por outro lado, as instituições e diferentes tradições teóricas da psicanálise estabelecem um diálogo mais vivo entre si, que não existia anteriormente.

O senhor afirma que "a psicanálise encontra-se mais próxima de um paradigma estético do que de um paradigma científico ou cognitivo". Pode-se dizer que Freud é hoje lembrado apenas por sua contribuição à formação deste paradigma estético?

Apesar de que a psicanálise tenha constituído um paradigma estético, com implicações éticas imediatas, isso não quer dizer que a psicanálise não tenha contribuído para o desenvolvimento de paradigmas científicos. A constituição recente da neuropsicanálise, por mais polêmico que possa ser, evidencia a colaboração da psicanálise para constituição de um paradigma científico. Poderíamos citar outros exemplos, mas esse é o mais recente.

Apesar de muitos debates que tendem a eliminar a pertinência das teorias de Freud, O Mal-Estar na Civilização continua mantendo seu lugar nos cânones acadêmicos. De que forma este mal-estar persiste?

Buchcover Joel Birman Mal-estar

Mal-estar na atualidade, de Joel Birman

O mal-estar não apenas persiste, mas as suas condições hoje são mais catastróficas. Sem dúvida, as condições do mundo pós-moderno e os imperativos da globalização retiraram instrumentos e instâncias sociais de proteção dos indivíduos, que aumentaram em muito o dito mal-estar. A quebra do estado de bem-estar social, a fragilidade dos movimentos sindicais e a rarefação da atividade política retiraram dos indivíduos canais fundamentais que pudessem protegê-los da voragem do capital financeiro globalizado.

Pode-se dizer que o senhor, como descendente de judeus romenos, manteve, assim como Freud, uma ligação com a tradição universalista judaica e ao mesmo tempo uma aversão às "ilusões da religião"?

Com certeza. Como descendente de judeus, me inscrevi na tradição psicanalítica pela sua vertente universalista, de forma que o discurso religioso não me fala absolutamente. Por isso mesmo acho curioso o retorno pós-moderno dos fundamentalismos, apesar de compreendê-los do ponto de vista sociológico e político, ligado às condições da globalização.

O senhor faz parte de um grupo psicanalítico francês que estuda os efeitos do Holocausto para a subjetividade contemporânea. Poderia falar um pouco sobre este trabalho?

Esse grupo, intitulado La psychanalyse aujourd´hui (A psicanálise hoje), pressupõe que o acontecimento histórico do Holocausto transformou radicalmente a relação do Ocidente com os valores éticos e estéticos. Nada seria mais igual como antes, algo assim como a famosa frase de Adorno, de que não seria mais possível escrever poesia após Auschwitz. De forma que este grupo estuda as transformações psíquicas na modernidade avançada, em decorrência do impacto do extermínio nazista.

Continue lendo: Freud e o Outro; a psicanálise no Brasil.

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