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Cultura

As amarras do circuito teatral alemão

Admirado em décadas passadas por seu caráter inovador, o teatro alemão entra em fase de crise. Enquanto as verbas oficiais encolhem, diretores consagrados denunciam a pasmaceira estética a que os palcos estão fadados.

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Schaubühne, em Berlim: uma das raras ilhas de inovação

Alguns dos nomes da velha guarda são os primeiros a reclamar do atual estado das coisas. O veterano e ainda ativo George Tabori, por exemplo, observa de seus 90 anos: "Sempre considerei o teatro alemão como o melhor, mas esses bons tempos já se foram há muito."

Vários diretores apontam a redução do patrocínio estatal como a principal razão da crise do meio teatral no país. Muitas casas de espetáculos encontram-se com a corda no pescoço, tendo seu potencial de criação cerceado pela pressão para conter gastos.

Encenações pouco convencionais encontram cada vez menos espaço, principalmente nas pequenas e médias cidades do país. Os festivais e teatros fora das grandes cidades acabam optando apenas por peças já conhecidas do grande público, levadas ao palco de maneira convencional. Tudo para evitar riscos e com eles mais prejuízos para os caixas locais.

Com a faca no pescoço

Welturaufführung Oper Die Unendliche Geschichte

Estréia da ópera «A História Sem Fim», no Teatro Nacional de Weimar, em abril último

No Leste do país, os cortes são ainda mais dramáticos. "A situação financeira geral ali é péssima e isso se reflete no orçamento das casas de espetáculo", observa Franz Wille, redator da revista Theater heute. Exemplos da decadência do circuito teatral nessa região do país estão, por exemplo, nas cidades de Rostock, Schwerin, Magdeburg, Weimar e Cottbus.

No Encontro de Artes Cênicas dos Países de Língua Alemã
(Theatertreffen) de 2004, mês passado em Berlim, nenhuma companhia do Leste alemão foi convidada a participar. Mesmo considerando que o evento tem fama de conservador, a ausência dos estados da região é sintomática.

Uma encenação levada ao palco do Theatertreffen deve mostrar coragem e uma certa leveza. É preciso abandonar os caminhos estéticos já trilhados à exaustão", argumenta Wille, lembrando ainda que falta aos grupos do Leste do país a calma necessária para apostar em inovações. O que é praticamente impossível "quando o tesoureiro está sempre com a faca no seu pescoço, contando o número de espectadores em cada apresentação".

Berlim-Zurique-Viena

Apesar da ladainha de reclamações em um panorama de incentivo estatal que ainda é ideal se comparado a outras regiões do planeta, a tríade das capitais dos países de língua alemã (Berlim-Zurique-Viena) ainda é digna de nota.

"Os palcos precisam tratar muito mais de temas políticos atuais", acredita o diretor austríaco Johann Kresnik, ao afirmar que o espectador anseia muito mais por isso do que os burocratas e diretores das casas de espetáculos do país supõem. O festival austríaco Wiener Festwochen, por exemplo, optou por uma espécie de "repolitização", colocando em sua última edição "violência, guerra e lembrança" como temas centrais.

Os festivais europeus, diga-se de passagem, parecem acreditar que a veia da inovação pulsa cada vez mais além das fronteiras do Velho Continente. Em busca do que o semanário Die Zeit chama de "terra incógnita cultural", os organizadores das grandes mostras saem literalmente à caça, correndo meio mundo atrás de alguma espécie de impulso estético.

"Revelações teatrais como as de um Robert
Lepage ou de um Peter Sellars no passado não são mais imagináveis. (...) Hoje, não se acredita mais em uma vanguarda estética e o sonho de um teatro original [ Ur-Theater], que repousa em algum lugar, morreu. De um modo geral, tudo se tornou mais sóbrio", observa o Die Zeit.

Do teatro sem fronteiras aos eventos de marketing

A crônica dos festivais alemães, por exemplo, segue uma cronologia passível de reconstrução. Se os anos do pós-guerra foram o início de uma abertura, com o intuito de se livrar dos fantasmas do passado, os anos 70 foram caracterizados pela visão de um teatro internacional e sem fronteiras. Nos 80 e 90, os grandes festivais foram se tornando gradualmente megaeventos de marketing, maquiados por políticos e managers de plantão.

Hoje, "quanto mais os espaços econômicos passam a fazer parte de uma só rede em todo o mundo, mais a cultura procura se relacionar de novo com o regional", comenta o semanário alemão. "O desenvolvimento de técnicas teatrais e de formas cênicas foi uma tarefa dos anos 50 e 60. Hoje é simplesmente impossível fazer algo novo. Já temos todo
tipo de efeitos de luz e som, projeções, pseudorrealidades. A técnica agora se desenvolve sozinha, não precisa mais de nossa atenção. That's not our business", diz o diretor americano Peter Sellars ao Die Zeit.

Vozes originais

Thomas Ostermeier

Diretor Thomas Ostermeier

Por essas e por outras, os organizadores de festivais buscam então novas formas cênicas longe do epicentro europeu, como o que fez recentemente o diretor Frank Castorf na direção do Ruhrfestspiele, o Festival do Vale do Ruhr, ao convidar o Teatro Oficina Uzyna Uzona para encenar Os Sertões, sob direção de José Celso Martinez Corrêa. Ou Marie Zimmermann, responsável pelo programa do Wiener Festwochen, ao incluir recentemente na programação do festival um grupo de Novosibirsk (Sibéria).

No mais, mesmo em tempos de vacas magras para os palcos alemães, o Festival de Avignon, na França – que divide com Edimburgo o título de maior festival de teatro do mundo – convidou o alemão Thomas Ostermeier, um dos diretores do Schaubühne de Berlim, para co-definir o programa da próxima edição do festival, que começa em 3 de julho.

Segundo os diretores franceses do evento, Hortense Archambault e Vincent Baudriller, Ostermeier é um dos responsáveis por delinear o território artístico de Avignon 2004, determinando os limites estéticos, de linguagem e gênero do que estará nos palcos da cidade francesa. Em um dos mais significativos festivais do mundo, Ostemeier é considerado "a voz mais original do teatro alemão

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