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documenta

Artistas brasileiros em retrospectiva na "documenta" 12

Diretor artístico e curadora da 'documenta' 12 trazem obras dos brasileiros Mira Schendel e Luis Sacilotto, dos anos 1950 e 1960, e propõem novas reflexões.

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'Droguinha' , de Mira Schendel

Alinhando-se com Catherine David, a curadora da documenta X – que se propunha uma mostra quase retrospectiva sobre a arte contemporânea –, o diretor artístico da documenta 12, Roger M. Buergel, e a curadora da exposição, Ruth Noack, escolheram trazer dois nomes dos movimentados anos 1960 no Brasil.

As obras de Mira Schendel (1919-1988) e Luis Sacilotto (1924-2003), misturadas às obras de artistas contemporâneos nos espaços de exposição, permitem a reflexão sobre uma série de questões propostas pela documenta 12. Uma delas, quase óbvia, remete ao primeiro leitmotiv divulgado pela mostra de 100 dias: "A Modernidade é nossa Antigüidade?". A primeira de três revistas desta documenta, que carrega o mesmo título e pretende abrir a discussão em torno desse universo, traz textos sobre a modernidade no contexto sociopolítico de cada uma das regiões participantes do projeto " documenta magazines".

O Brasil, que participou do projeto com mais de uma publicação, teve uma modernidade muito peculiar, pode-se dizer. Os movimentos concreto e neoconcreto não podem ser ignorados pela história da arte contemporânea. Artistas brasileiros, até hoje, se voltam para as produções daqueles que inauguraram a modernidade das artes plásticas no país.

Documenta 12, Mira Schendel

Mira Schendel, Sem Título (Transformável)

De volta às origens

Se Catherine David trouxe, para sua documenta retrospectiva, os grandes nomes do movimento neoconcreto – Lygia Clark e Helio Oiticica – Buergel e Noack optaram por Mira Schendel e Luis Sacilotto.

Mira Schendel nasceu na Suíça e em 1949 foi para o Brasil, onde começou sua carreira como artista. Geralmente ligada ao movimento neoconcreto, seus trabalhos chamam atenção pela delicadeza e a precisão. Luis Saciloto era membro do Grupo Ruptura e em 1952 foi signatário do manifesto do grupo, que se baseava na obra de Max Bill. Os dois artistas começaram sua produções na cena artística brasileira incipiente dos anos 1950 e se consagraram com seu trabalho nas décadas seguintes.

A opção de expor o "Transformável" de Schendel em um cantinho da enorme sala ocupada pela escultura-instalação de Iole de Freitas condiz com a opção da dupla Buergel e Noack de apontar relações histórico-estéticas entre as obras trazidas. A transparência nos dois trabalhos, a leveza e o desafio do equilíbrio. Em escalas e poéticas diferentes, é certo, mas não é só o local de trabalho das duas artistas que coincide.

A relação fica extremamente clara e a dupla consegue, de maneira sutil, ir criando no espectador a noção de que as produções de arte contemporânea não são invenções, mas sim a evolução de um pensamento estético a partir de referências comuns.

DNA da arte brasileira

Documenta 12, Luis Sacilotto, Escultura Negra

Luis Sacilotto, 'Escultura Negra'

No Aue Pavillon está a única escultura de Luís Sacilotto trazida por Buergel e Noack. O espaço é um palácio de cristal temporário construído especialmente para a documenta, em que as obras parecem estar expostas em um grande galpão, com inúmeras possibilidades de caminhos a serem feitos.

Sacilotto participou da "I Exposição Nacional de Arte Concreta", em 1956. Essa exposição, reconstruída no MAM-SP como mostra paralela à 27ª Bienal de São Paulo é considerada "parte do DNA da arte contemporânea brasileira", segundo os curadores na ocasião da mostra. Qualquer semelhança com os objetivos educativos e históricos da documenta não é mera coincidência.

A exposição de 1956 marcou ainda o início da polêmica que se travou na época, entre as produções paulista e carioca, geradora de intensos debates em jornais, contribuindo para o desencadeamento do neoconcretismo e da teoria do não-objeto, formulada pelo crítico e poeta Ferreira Gullar.

Arte contemporânea para todos

Nada disso está explicado na exposição do Aue Pavillon, é claro – não é o objetivo dos curadores dar uma aula de história da arte, mas sim fornecer os meios para que a arte contemporânea não seja uma "arte para iniciados". A Escultura Negra de Sacilotto, simplesmente alocada ali, no meio do galpão de estímulos, chama a atenção de quem passa tentando se entender no espaço. A sobriedade e a forma pura, definida, fazem o visitante que já passou por obras sonoras, visuais, multimidiáticas, parar por alguns minutos e ver de onde vem a arte não figurativa, a arte que não explica nem retrata o mundo.

Docuemta 12, Mira Schendel

Mira Schendel, Sem título (Letraset e lápis sobre papel)

As outras obras de Schendel, espalhadas pelo Fridericianum, Aue Pavillon e Schloss Willhelmshöhe, trazem à tona a necessidade da presença do espectador para a sua apreciação. Essas obras se furtam a reproduções fotográficas, que não conseguem traduzir a delicadeza e a sutileza dos materiais e do processo de trabalho da artista.

Com essa organização de exposição das obras de Schendel e Sacilotto, a documenta consegue, de certa forma, atingir o público no que diz respeito à educação estética e ao olhar para a modernidade da arte como antecessora da arte contemporânea produzida hoje. Além de lembrar o público da necessidade do tempo e da contemplação in loco de uma obra para que se tenha uma experiência artística em sua plenitude.

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