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Cultura

"Arte degenerada" não é assunto encerrado na Alemanha

Setenta anos após a exposição inaugurada por Goebbels em Munique para difamar as vanguardas modernas, a "arte degenerada" continua sendo objeto de polêmica e de estudo.

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Goebbels e Hitler visitam a exposição 'Arte degenerada', em 1937

Toda palavra tem uma história, mas a história de certas palavras é mais sintomática que a de outras. "Arte degenerada", por exemplo, uma expressão com que os nazistas rotularam e perseguiram as vanguardas modernas, é um caso singular. Banida do vocabulário corrente na Alemanha, a expressão voltou a cursar durante este ano – um fato curioso.

"A arte pode tudo hoje – assim como a sátira, à qual ela se iguala cada vez mais. A única coisa que não se pode é chamá-la de 'degenerada'", reclamou um jornalista alemão no diário conservador Die Welt. O artigo publicado em novembro noticia que a expressão "arte degenerada" passou a dar manchetes na Itália, referindo-se a uma matéria do diário Il Giornale (de Silvio Berlusconi) sobre um artista costa-riquenho. O surpreendente é que, pelo menos na edição online do jornal italiano, a palavra "degenerada" não consta do artigo em questão.

Liberdade de expressão, um problema?

A tese do jornalista alemão, que cita obras apelativas de certos artistas contemporâneos, é que até seria propício se aplicar a palavra "degeneração" à arte, se não fosse o tabu existente na Alemanha. E com a notícia (se não inverídica, pelo menos contraditória com a versão online das fontes citadas) de que a palavra passou a cursar na Itália, o jornalista critica o tabu que pesa contra a expressão "arte degenerada" na Alemanha e ao mesmo tempo a liberdade irrestrita de expressão artística: "A única coisa que não se pode é chamar a arte de 'degenerada' – a não ser que um artista a dissimule como obra de arte".

A história começa a ficar mais compreensível quando se sabe que o jornalista em questão é Paul Badde, ex-redator do diário conservador Frankfurter Allgemeine Zeitung e correspondende do jornal Die Welt no Vaticano. Nas entrelinhas lê-se a solidariedade com o cardeal alemão Joachim Meisner, que em setembro causou grande indignação ao se referir à degeneração da cultura, por ocasião da inauguração do vitral do artista Gerhard Richter na Catedral de Colônia.

"Degeneração do jornalismo"

A crescente tendência de manipulação de informação na mídia alemã, da qual esse artigo de Paul Badde seria um claro exemplo, foi o que levou o Nobel de Literatura Günter Grass a indignar a opinião pública em março passado, ao se referir à "degeneração" do jornalismo alemão.

"Está bem, corrijo a palavra", declarou Grass posteriormente, admitindo a conotação nazista do termo. E Meisner também foi pressionado a voltar atrás: "Reitero: lamento expressamente que este vocábulo, na forma abreviada de uma citação extraída do contexto, tenha sido motivo de mal-entendido". Embora a palavra tenha sido retirada, seu teor de exclusão cultural ainda paira sobre a reclamação do cardeal de que o vitral de Richter combinaria mais com uma mesquita do que com uma igreja católica.

Antecedentes a serem esclarecidos

Exatamente 70 anos após a inauguração da exposição "Entartete Kunst" (Arte degenerada) por Joseph Goebbels, em Munique, volta-se a aplicar aos fenômenos culturais um termo emprestado da biologia, algo introduzido pelas teorias deterministas do século 19 e propagado durante os regimes totalitários do século 20. A exposição que transitou de 1937 a 1941 e atraiu mais de três milhões de pessoas fazia um paralelo literal entre a distorção da forma nas pinturas expressionistas e abstratas e fenômenos patológicos.

Este capítulo da história alemã ainda é objeto de intensa investigação. A Universidade Livre de Berlim (FU) tem um centro de pesquisa dedicado exclusivamente à questão. Além de investigarem aspectos novos do assunto, os estudiosos envolvidos no projeto estão fazendo um inventário das obras confiscadas pelos nazistas como "arte degenerada", a ser divulgado na internet no final de 2007 ou no começo de 2008.

O assunto "arte degenerada" também não está encerrado pelo fato de ainda não se terem esclarecido todas as implicações legais do confisco de obras de arte pelo nazismo. Muitas peças de coleções particulares apreendidas pela ditadura de Hitler na época fazem parte do acervo de museus públicos hoje. O centro de pesquisa da FU investiga a proveniência de certas obras, em caso de pedido de restituição.

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