″Aprende-se sempre, com os bons e os maus″, diz maestro venezuelano Manuel López | Cultura europeia, dos clássicos da arte a novas tendências | DW | 08.12.2011
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Cultura

"Aprende-se sempre, com os bons e os maus", diz maestro venezuelano Manuel López

Nascido em Caracas, ele deve sua formação a El Sistema, do qual saíram astros como Gustavo Dudamel, de quem López é assistente. "Shooting star" de 28 anos fala à DW Brasil após concerto com Orquestra Juvenil da Bahia.

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López Gómez: "Tive a sorte de me formar no El Sistema"

Manuel López Gómez nasceu em Caracas, em 9 de setembro de 1983. Ele pertence à jovem geração de maestros de projeção internacional saídos do programa de educação musical venezuelano El Sistema – que inclui Diego Matheuz e Christian Vásquez e da qual Gustavo Dudamel é a figura de proa.

López ingressou aos 6 anos de idade no Sistema Nacional de Orquestas Juvenis e Infantis da Venezuela, onde aprendeu violino. Após atuar em posições de destaque na Sinfônica Juvenil de Caracas e na Sinfônica da Juventude Venezuelana Simón Bolívar, iniciou seus estudos de regência com o próprio fundador de El Sistema, José Antonio Abreu, alcançando grande e rápido sucesso.

Pouco a pouco a carreira do músico de 28 anos se expande internacionalmente: ele é assistente de Dudamel, e em 2011 esteve à frente e orquestras de renome como a Los Angeles Philharmonic, a sueca Göteborgs Symfoniker ou a sul-coreana Daegu Symphony. Sua trajetória está também intimamente ligada à da Orquestra Juvenil da Bahia (OJB), principal corpo do projeto Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis da Bahia (Neojibá): foi ele a reger o concerto inaugural do conjunto sinfônico, em 2007.

Polyphonia Ensemble Brasilien

Em ensaio com a Orquestra Juvenil da Bahia

Em 3 de novembro, Manuel López Gómez e a OJB voltaram a se encontrar no Teatro Castro Alves, em Salvador, Bahia, num programa que incluiu o movimento de abertura da Sinfonia Inacabada de Franz Schubert, a Dança dos Capuletos do balé Romeu e Julieta de Serguei Prokofiev, e o finale da Sinfonia nº 4, de Piotr Tchaikovsky. Além de – como bis – o Mambo de West Side Story, de Leonard Bernstein, e uma contagiante versão orquestral do Tico-tico no fubá do brasileiro Zequinha de Abreu.

A entrevista com o shooting star venezuelano foi realizada em seguida a esse concerto memorável, copatrocinado pela Deutsche Welle, e cujo programa foi partilhado com o grupo de câmara Polyphonia Ensemble Berlin.

DW Brasil: Manuel López, nos ensaios você emprega termos técnicos, claro, mas também muitas imagens extramusicais para comunicar suas ideias aos integrantes da Orquestra Juvenil da Bahia. Certa passagem é "resignada", outra soa "como um mamute muito gordo"; você compara sons "arenosos" a outros "amalgamados, como mel". Até que ponto se trata de uma técnica de regência, uma estratégia intencional?

Manuel López Gómez: Bem, não foi nada que eu tenha aprendido antes. Claro, comecei estudando em orquestra desde muito pequeno, tinha uns 6 anos quando comecei a estudar violino e logo entrei para a orquestra. Tive a sorte de me formar no El Sistema venezuelano, onde se aprende com muitos maestros que sempre vão à Venezuela, também grandes maestros nacionais.

Isso das imagens, não sei; são coisas que de repente me vêm à mente. Porque quando se trabalha com jovens, acho que às vezes eles precisam de uma imagem gráfica da música. Quanto a mim, muitas vezes tocando na orquestra, quando um regente me dava uma imagem gráfica, eu via como a orquestra mudava imediatamente de som.

Mas você mesmo vê e ouve a música em imagens?

Não... não. Mas, sim, relaciono a música com episódios da vida, também com a natureza, muitíssimo. Sim, às vezes me parece que é muito útil. E não só com orquestras jovens, mas sim com qualquer orquestra sinfônica.

Lembro-me da primeira vez que Simon Rattle foi à Venezuela. Eu estava tocando na orquestra a Segunda sinfonia de Gustav Mahler. E havia uma passagem com as trompas que não saía. E aí Rattle disse aos músicos algo sobre sua casa na infância, que quando era menino às vezes escutava uma espécie de trompa longínqua. Então: ele nos deu uma imagem da natureza, e de repente a coisa se transformou. É curioso, mas é algo de que gosto muitíssimo.

Trabalho árduo na 'Inacabada' de Franz Schubert

Trabalho árduo na 'Inacabada' de Franz Schubert

O desempenho da Orquestra Juvenil da Bahia no concerto de hoje foi notável. No entanto notava-se que a Sinfonia Inacabada de Schubert permaneceu a obra mais difícil para eles – apesar dos progressos enormes em poucos dias de ensaios. Por outro lado, o final da Sinfonia nº 4 de Tchaikovsky fluiu de forma brilhante. Essa discrepância é algo que tem a ver com a essência dessa música, ou se deve a uma diferença da intimidade da orquestra com as obras?

Diferença de experiência não há nenhuma: todo o repertório era novo para a orquestra. Acho que eles fizeram uma leitura do Schubert, muito tempo atrás, mas nunca tocaram em concerto. Schubert foi um grande músico de câmara. E as sinfonias, na sua música... é tão complicado executá-las, precisamente por isso, porque sempre têm esse espírito camerístico, de que todos os instrumentos têm que se escutar, o equilíbrio. E há também tantos aspectos de sua vida, sobretudo essa sinfonia que tem muito de nostálgico – é muito nostálgica essa Sinfonia Inacabada.

E, comparando com Tchaikovsky: Tchaikovsky é um excelente orquestrador. Então há algo de grandioso em sua música. Inclusive se uma orquestra infantil, que está iniciando, toca algo de Tchaikovsky, talvez eles não toquem bem, mas vai soar bem! Coisa que não acontece com Schubert, que também é um bom orquestrador, mas seu estilo é totalmente distinto.

Bem, o Tchaikovsky também foi trabalho forte, tanto quanto o Schubert. E é também um pouco complicado, pois são dois estilos totalmente distintos, e às vezes eu ensaiava Schubert e de repente tinha que fazer Tchaikovsky, e os garotos ficavam tocando como em Schubert, e eu dizia: "Não, este é outro período, essa é outra época!".

Mas foi muito divertido e muito gratificante, de verdade, trabalhar com eles. Lembro da primeira vez que vim, quando fizemos o primeiro concerto, em 2007, e, bem, de quatro anos para cá é realmente incrível o progresso que fizeram. Eu gosto da constante motivação que eles têm: não querem parar, querem seguir. E isso é um excelente augúrio de que a orquestra vai crescer vertiginosamente, para cima, sempre.

Você tem ídolos, figuras-modelo entre os maestros?

Satisfação após concerto no Teatro Castro Alves

Satisfação após concerto no Teatro Castro Alves

Tenho muitos! [ri] Aprendi muitíssimo, tanto com os bons quanto com os maus, também. Eu sempre digo, por exemplo, à nova geração de jovens regentes que estão principiando em Caracas – eles me pedem algum tipo de conselho e eu dou, mas eu também estou estudando: sou um estudante! –, mas sempre lhes digo que observem muitos regentes, que vão aos ensaios, mesmo que não gostem do regente, que vejam a maneira como eles ensaiam. Aí podem também formar algum discernimento sobre as coisas boas e as coisas ruins, as que não se deve fazer num ensaio, porque aí está a reação da orquestra, e tudo mais.

Mas, caramba, há tão grandes maestros! Claro, fui um grande admirador de Karajan, de Furtwängler, de Abbado, de Rattle. Caramba... Fui também um grande admirador de Solti, de Carlos Kleiber – este me encanta, foi uma maravilha de regente! É que há muitos, não é, há tantos, e todos têm algo de especial de que eu gosto.

Como é sua relação com Gustavo Dudamel?

Uma relação totalmente encantadora! Somos grandes amigos, nos conhecemos tocando juntos na orquestra. Logo ele começou a reger, e eu seguia tocando, fui seu primeiro violino na Sinfônica Juvenil de Caracas. Somos amigos muito próximos e... bem, Gustavo é o grande maestro, mundialmente reconhecido, e continua sendo a mesma pessoa com todos nós. A mim, ajudou-me muitíssimo, tenho muito a lhe agradecer. Ele me deu desafios muito difíceis, mas pelos quais, no fundo, eu agradeço muito, porque esses desafios se convertem em boas oportunidades, sempre.

Lamentavelmente não podemos nos ver muito, porque a agenda dele é totalmente complicada. Inclusive às vezes é pior vê-lo em Caracas, para mim é às vezes mais fácil vê-lo em Los Angeles, pois em Caracas ele sempre tem mil e uma coisas a fazer.

O que consta da sua agenda para os próximos meses?

Tenho alguns concertos em Liège [Bélgica], no final de fevereiro; vou a Los Angeles preparar um Don Giovanni que Gustavo vai reger, em maio. E tenho também algo na França, Paris, em abril. E, bem, pouco a pouco a agenda vai se enchendo, não é?

Entrevista: Augusto Valente
Revisão: Alexandre Schossler

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