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Ciência e Saúde

Aplicativos para celular inauguram era da cidadania digital

Reclamar de um buraco na rua, denunciar um furto ou mesmo reclamar de um carro que emite fumaça preta. Tudo isso pode ser feito por aplicativos de celular, multiplicando o alcance das denúncias.

Reclamar na prefeitura pode ser uma forma de conseguir o conserto de um buraco na rua perto de casa. Mas o registro da queixa fica restrito apenas entre quem reclamou e a autoridade, mesmo que o problema afete outras pessoas. Publicar a reclamação em uma rede social pode mobilizar outros prejudicados, mas nem sempre chega a quem pode resolver. Aplicativos de celular aparecem como intermediadores entre as alternativas, além de oferecerem a possibilidade de que queixas e denúncias sejam feitas em tempo real.

Especialistas concordam que o hábito de compartilhar situações cotidianas ganhou impulso com a popularização da internet e provocou uma mudança na relação das pessoas com a mídia. Daniel dos Santos Galindo, doutor na área de Comunicação Científica e Tecnológica e professor da Universidade Metodista de São Paulo, explica que as grandes mídias monopolizavam a opinião pública. Agora, segundo ele, com o deslocamento desse espaço de denúncia para as mídias pessoais, há uma postura mais pró-ativa.

Na avaliação de Alex Primo, professor doutor do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Informação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a internet promoveu uma equiparação de recursos. "Os meios de longo alcance eram caros e aqueles aos quais o cidadão tinha acesso, como cartas, telefone, fanzines ou rádios piratas não iam longe", compara. Além dessa facilitação do acesso, ele acredita que o uso de plataformas alternativas possa simbolizar uma descrença nas autoridades, que se reflete na desvinculação das denúncias dos espaços oficiais.

Ouvidoria em tempo real

O recado ficou claro para jovens empreendedores da área de informática e a adesão a ferramentas colaborativas de denúncia tem surpreendido até mesmo os mais otimistas. Victor Morandini Stabile é um dos criadores do Cidadera. O aplicativo baseado em mapas recebe reclamações de qualquer parte do mundo. Por enquanto, tudo está apenas em português, mas a participação de mais de mil usuários de 120 cidades em poucas semanas faz o engenheiro planejar adiante. Por hora, ainda não existem parcerias para solucionar os problemas, mas Stabile conta que algumas entidades procuraram o Cidadera a fim de encaminhar oficialmente suas queixas.

No Cidadera, problemas urbanos podem ser denunciados

No Cidadera, problemas urbanos podem ser denunciados

O Post Denúncia ainda não chegou aos celulares, mas este é o próximo passo, garante Gustavo Muniz do Carmo, um dos seus criadores. Diferente do Cidadera, o site é focado em apenas um problema: o excesso de poluição que sai do escapamento dos carros. Na plataforma do Post Fumaça Preta, o usuário pode publicar fotos denunciando emissões excessivas. Para isso, basta anotar a placa do carro. Carmo conta que a empresa está em busca de uma parceria com as autoridades de trânsito de São Paulo e espera conseguir transformar o projeto de cidadania em negócio.

No entanto, a incerteza quanto a qualquer apoio financeiro não impede que o próximo aplicativo seja planejado: será uma plataforma para denunciar pessoas que estacionam em lugares proibidos. Nos Estados Unidos, o aplicativo Parking Mobility já faz isso e quem passa na rua e vê alguém ocupando uma vaga reservada a idosos ou deficientes, já tem onde denunciar. É só fotografar o flagrante e fazer o upload da foto.

Denúncias podem evitar novas vítimas

Se as denúncias de problemas comunitários dependem da ação de autoridades para surtirem efeito, outro aplicativo soma esforços individuais para oferecer um serviço paralelo: ele quer traçar um mapa da criminalidade. Fillipe Norton não passou por nenhuma situação de perigo, mas os relatos de amigos quanto à violência urbana na cidade de Salvador, onde vive, o inspiraram o Onde Fui Roubado. Registros de assaltos a mão armada, furtos, arrombamentos e outros crimes já chegam perto dos 11 mil nos três meses que o site está no ar.

Onde Fui Roubado ajuda a criar um mapa da violência

Onde Fui Roubado ajuda a criar um mapa da violência

Filtros ajudam e evitar denúncias falsas e ajudam criar um mapa da violência urbana em todo o Brasil. Norton explica que os cidadãos dependiam da imprensa para saber se um local é ou não perigoso ou mesmo para saber dos crimes que ocorrem em cada cidade. Com o site, a visualização é simples.

As três plataformas oferecem ao usuário o recurso de compartilhar sua denúncia nas redes sociais. No Cidadera, adesões engrossam o coro dos reclamantes e dão visibilidade ao protesto publicado. Já no Onde Fui Roubado, o compartilhamento serve tanto como alerta como desabafo. No entanto, sem a parceria oficial das entidades públicas responsáveis pela fiscalização e solução dos problemas, não existe a certeza de um resultado.

Mudança cultural

"O poder de conexão é grande, mas ainda não vejo o engajamento", avalia Galindo. Para ele, as facilidades oferecidas pela tecnologia ainda precisam amadurecer. "Mais do que o aporte tecnológico é preciso criar essa consciência de coletividade de cidadania. Aí sim se pode provocar um enfrentamento junto às autoridades capazes de resolver o problema", sugere.

A justificativa para a adesão rápida a essas ferramentas pode ter uma forte relação cultural. "O brasileiro é muito reclamão", sugere Alex Primo. O que não existia, no entanto, era a chance de os resultados de qualquer queixa serem tão imediatos, como avalia o pesquisador. Ele assegura que o governo ainda precisa compreender que mesmo uma denúncia individual pode ter grande repercussão.

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