″Após o 11 de Setembro, fomos expulsos da Disneylândia″ | Notícias e análises internacionais mais importantes do dia | DW | 10.09.2016
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Mundo

"Após o 11 de Setembro, fomos expulsos da Disneylândia"

Os ataques terroristas de 2001 deixaram marcas profundas nos EUA. O sentimento de superioridade deu lugar ao medo, a islamofobia ganhou espaço na sociedade, e mudanças na política de imigração afetaram muitas famílias.

Túmulo de James McNaughton, morto em 2005 na Guerra do Iraque

Túmulo de James McNaughton, morto em 2005 na Guerra do Iraque

William e Michelle McNaughton folheiam álbuns antigos. Muitas fotos são do tempo em que o filho James, que carinhosamente chamam "Jimmy", estava vivo e ainda morava com eles. Numa das extremidades do antigo quarto dele, no subsolo, está uma vitrine cheia de medalhas e prêmios.

"Esta aqui é a mais valiosa", explica William, mostrando a Purple Heart, condecoração militar só concedida a soldados que sofreram ferimentos graves ou morreram em ação. Em 2015 Jimmy foi morto por um atirador no Iraque. O pai e a mãe nunca conseguiram superar essa perda.

Eles visitam regularmente o túmulo no cemitério militar Calverton National Cemetery, em Riverhead, a cerca de duas horas de carro de Nova York. "Quando tenho um dia ruim, também venho aqui no meio da noite", conta Michelle.

William e Michelle McNaughton: Por que nosso filho morreu?

William e Michelle McNaughton: "Por que nosso filho morreu?"

William e Michelle são policiais nova-iorquinos aposentados. Eles estavam em serviço em 11 de setembro de 2001, viram o horror e as vítimas daquele dia fatídico para os Estados Unido e, mais tarde, o trabalho de reconstrução. Americanos patriotas, conservadores, hospitaleiros, prestativos, eles têm orgulho por uma rua do bairro e um edifício na prisão de Guantánamo terem recebido o nome de seu filho. Para eles – assim como para a maioria dos americanos – Jimmy é um herói.

Ao folhear o álbum de fotos, o pai irrompe: "Para que o nosso filho morreu?" Nesse momento, ele não está colocando em questão a Guerra do Iraque: seu filho era um soldado, e soldados fazem os que os generais ordenam. O que o irrita, enfurece até, é a retirada das tropas americanas do Iraque.

"Para as pessoas do Iraque, a situação está pior do que antes", afirma. Não só foram muitos os americanos que deixaram suas vidas lá: ao se retirarem, os EUA deixaram para trás equipamentos militares no valor de milhões de dólares. "Para quê?", questiona William McNaughton mais uma vez.

Objetivo de Bin Laden: pressionar financeiramente os EUA

Na verdade quem deveria responder a essa pergunta é David Petraeus, ex-diretor da CIA e comandante das tropas dos EUA no Afeganistão e Iraque. A mídia americana o elogiou como um dos líderes militares mais talentosos das últimas décadas. Atualmente ele trabalha na holding KKR (Kohlberg, Kravis, Robert), em Nova York. A empresa negocia, entre outros, títulos de dívida soberana, movimentando bilhões de dólares.

Scott Morgan: Após o 11/09 fomos expulsos da Disneylândia

Scott Morgan: "Após o 11/09 fomos expulsos da Disneylândia"

General Petraeus entra na sala vestindo um terno azul escuro, sapatos pretos engraxados e com um copo de papel cheio de café na mão. Ele fala com a clareza de um livro, sorri com simpatia. Nada parece poder surpreendê-lo. A guerra contra o terrorismo internacional vai durar gerações, explica. Em suas complexas frases sobre a guerra, ele usa a palavra "sustentável". Ou seja dizer: guerras são trabalhosas, caras e exigem grande esforço dos americanos. Se os EUA pretendem conduzi-las por tempo longo, elas devem ser financiáveis.

O general sabe melhor do que ninguém que um dos objetivos do mentor do 11 de Setembro, Osama Bin Laden, era pressionar financeiramente os EUA. Envolver o país no maior número possível de guerras que, no fim das contas, Washington não tivesse como ganhar.

Petraeus está confiante de que o "Estado Islâmico" (EI) será derrotado num futuro bem próximo. Ele é pessimista, porém, quanto ao futuro político do Iraque. "Lá, as coisas são brutais. Bem-vindo à mais alta liga esportiva." No fim, ele não tem uma resposta direta à pergunta da família McNaughton: para que o filho deles morreu no Iraque.

O mesmo se aplica ao psicólogo Scott Morgan, da Universidade Drew Madison. Ele pesquisa há anos a "psicologia política" dos americanos. Os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 provocaram neles um trauma, eles viviam no medo de que o atentado se repetiria.

Morgan descreve o tempo entre a queda do Muro de Berlim e o 11 de Setembro como uma época feliz: os EUA eram, indiscutivelmente, a potência mundial número um. Na época, os americanos acreditavam ser "intocáveis". Com o ataque terrorista, porém, tudo mudou: "Depois do 11/09, fomos expulsos da Disneylândia, daquele paraíso encantado em que acreditávamos que ninguém poderia nos atacar. O apavorante mundo, os perigos nos alcançaram."

Insinuações de islamofobia de Trump

Estudos mostram que o ataque terrorista aumentou a desconfiança dos americanos em relação aos muçulmanos, diz Scott Morgan. Um em cada três acredita que o islã encoraja claramente mais o uso da violência do que outras religiões. Um em cada dois americanos diz que muçulmanos não se distanciam suficientemente de potenciais ataques terroristas.

Xenofobia e insinuações de islamofobia fazem parte também do programa padrão do candidato presidencial republicano, Donald Trump, em suas aparições durante a campanha eleitoral.

Ex-general americano David Petraeus

Ex-general Petraeus: "A guerra contra o terrorismo internacional vai durar gerações"

Aber Kavas, moradora do Brooklyn, é uma das que sofre com as constantes hostilidades. A jovem, de 24 anos, usa véu, mas dá preferência a cores vivas e alegres, principalmente quando precisa ir a um aeroporto. Ela não quer ser detida pela polícia ou causar medo em outros passageiros.

Ao mesmo tempo, a jovem está cansada de ter de se desculpar constantemente por sua fé muçulmana. Há quase dois anos, Kavas trabalha na Associação Árabe-Americana e ministra cursos sobre islamofobia em escolas e igrejas.

Mudança na política de imigração e ruptura familiar

O 11 de Setembro transformou a vida de Kavas. Seu pai, que estava nos EUA sem documentos válidos, teve que deixar o país.

"Cerca de quatro anos depois do 11/09, a política de imigração americana foi mudada. Meu pai ficou preso por três anos e meio. Minha família apresentou queixas para libertá-lo e, assim, ele foi enviado de volta para a Jordânia. Ele não pode mais voltar aos EUA", explica.

Desde então, ela mora com sua mãe e irmãs em Nova York. Elas visitam o pai uma vez por ano e, no resto do tempo, eles permanecem em contato por Skype e telefone. Mas manter de pé um relacionamento dessa maneira é difícil. Hoje é o 30º aniversário de casamento dos pais, e a única coisa que marido pode fazer é ligar para a esposa, diz ela, triste. "Tudo por causa do 11/09", lamenta, enxugando as lágrimas.

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