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Brasil

Após alta de juros, analistas esperam novas medidas econômicas

Especialistas dizem que governo federal deve aumentar combustíveis e cortar gastos públicos para começar a corrigir curso da economia brasileira, que enfrenta recessão técnica.

O aumento da taxa básica de juros (Selic) de 11% para 11,25% surpreendeu economistas, o mercado e desagradou a parte do setor produtivo. Mas, de acordo com especialistas, a decisão deve ser seguida de outras medidas para recuperar a credibilidade da economia brasileira e combater a inflação.

Espera-se que, entre as próximas ações, esteja o aumento da gasolina, do diesel e da energia elétrica – preços que não foram reajustados no ano eleitoral e cuja alta deve vir acima da taxa da inflação. Economistas apostam também que o governo deve cortar gastos públicos.

"O ajuste era esperado, mas não que fosse anunciado tão rapidamente", diz o economista Evaldo Alves, da FGV. "Provavelmente existem pressões inflacionárias que ainda não foram reveladas pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo [IPCA, que mede a inflação], como no âmbito dos alimentos, e devido à defasagem dos combustíveis e energia elétrica."

Para Alves, o governo está mais preocupado neste momento em controlar a inflação do que com o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Em recessão técnica, a economia brasileira deve ter expansão de 0,2% em 2014, atrás da maioria dos vizinhos sul-americanos.

"A decisão de aumentar os juros foi debatida no governo federal. O BC não goza dessa independência que muitas vezes se imagina", explica Alves. "Essa medida já deveria ter sido tomada há muito tempo, mas, por causa das eleições, ela foi postergada."

A presidente Dilma Rousseff já acenou com novas medidas econômicas a partir de novembro. Na segunda-feira, ela afirmou que será feito "um diálogo com os setores produtivos e financeiros", e que o substituto de Guido Mantega no Ministério da Fazenda será anunciado num momento adequado.

Setor industrial critica

Para o professor de administração pública da UnB José Matias-Pereira, o aumento da Selic deixa claro que o modelo econômico do governo Dilma Rousseff fracassou. De acordo com ele, o impacto das correções – como combustíveis e energia elétrica – na inflação vão ser significativos e, por isso, o aumento da Selic já tenta minimizar dificuldades futuras.

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"O governo já percebeu também que, com a queda na arrecadação, ele não vai conseguir atingir a meta do superávit primário", diz Matias-Pereira. "O governo poupou pouco e precisa obter receitas extraordinárias. O cenário para este ano é preocupante. A economia deve crescer próximo de zero e, ao lado disso, uma inflação que poderá chegar a 8% ou 8,5% após a correção dos preços."

Entidades divergiram sobre a alta da Selic. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) desaprovou a medida, dizendo que "o desafio do país é criar as condições para uma redução sustentada da taxa de juros" e que "a adoção de uma política fiscal restritiva é fundamental para a reversão das expectativas inflacionárias e para que o ciclo de alta dos juros seja o mais curto possível".

Já a Federação do Comércio do Estado de São Paulo (FecomercioSP) afirmou que a decisão foi correta e que "a autoridade econômica demonstra agir com prudência". "O governo sinaliza que já compreendeu as preocupações dos mercados, dos investidores e dos analistas e indica que vai promover mudanças na condução econômica", disse.

População deve reduzir gastos

O aumento da taxa de juros é uma tentativa de reconquistar a credibilidade da política de combate à inflação. Até setembro deste ano, ela estava em 6,75% na taxa acumulada em 12 meses – acima do teto do governo, de 6,5%. Mesmo com a meta de 4,5%, o Planalto aceita que ela varie dois pontos para cima ou para baixo.

A variação da Selic pode causar diversos efeitos. O BC a usa para controlar o consumo, inflação e estimular a economia. Se a taxa sobe, a população gasta menos e a tendência é que os preços caiam – e, dessa forma, a inflação seja controlada.

Além disso, fica mais caro para empresas contraírem empréstimos para aumentar a produção, e a população tende a reduzir seus gastos. Como consequência, a economia – já debilitada – não consegue se aquecer.

"O aumento em si não foi tão grande, mas pode indicar o indício de um ajuste dos juros que vai ajudar a trazer a inflação de volta para a meta de 4,5% ao ano em um prazo de tempo minimamente razoável", diz o economista Reginaldo Nogueira, do Ibmec/MG. "Sobre enfraquecer a economia no curto prazo, não há muita alternativa, pois já não estamos crescendo, mas ainda assim a inflação está alta."

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Para o especialista, será difícil que o governo não faça um ajuste fiscal e aumente a receita, seja cancelando desonerações anteriormente aplicadas, elevando alíquotas de tributos ou cortando gastos.

"Os ajustes foram sugeridos pela oposição durante a campanha eleitoral. Adotar esses ajustes agora implica em colocar em prática medidas que ela tanto criticou durante a campanha", critica Nogueira.

As reuniões do Copom em Brasília ocorrem a cada 45 dias. Na última, na quarta-feira (30/10) não houve unanimidade. Três membros do comitê votaram pela manutenção da taxa. Cinco, inclusive o presidente do banco, Alexandre Tombini, votaram pelo aumento, que mantém o Brasil como o país com maior juro real do mundo.

O cientista político Adriano Gianturco, do Ibmec/MG, diz que no final de agosto o BC injetou 25 bilhões em papel-moeda na economia e, agora, aumenta a taxa de juros. Para ele, o governo federal tentou aquecer a economia antes das eleições, criando um crescimento artificial (bolha), gerando efeitos positivos a curto prazo.

"Mas, depois das eleições, a conta chega, e a situação tem que ser revertida. A política gera o ciclo de boom e bust [quebra]da economia", comenta Gianturco.

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