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Ciência e Saúde

Após 25 anos, manejo florestal comunitário na Guatemala pode ser cancelado

Comunidades indígenas conseguiram reverter histórico de perseguição e criaram modelo que explora floresta de forma sustentável. Depois de 25 anos de concessão, projeto considerado exemplo pode ser cancelado.

A floresta da Reserva da Biosfera Maia, no norte da Guatemala, tem uma das maiores diversidades de espécies do planeta. Durante séculos, devido à colonização e à ditadura militar, a população que vive na área foi expulsa de suas terras e assassinada. Agora, essa comunidade se tornou especialista em manejo florestal.

A região é uma das poucas no mundo onde a população local administra serralherias e marcenarias de maneira profissional e, em muitos aspectos, moderna. Isso só é possível porque os moradores conseguiram uma concessão, ou seja, a licença para administrar a floresta.

A decisão sobre como a mata é manejada de forma sustentável fica a cargo da população. "A América Central e o México são exemplos de onde as comunidades locais tiveram mais sucesso com a administração florestal comercial e, ao mesmo tempo, sustentável", afirma Kaimowitz.

A história da virada começou com a Associação de Comunidades Florestais de Péten (Acofop). Em 1986, após o final da ditadura militar no país, havia também apoio internacional aos planos da criação de uma reserva da biosfera na antiga cidadela Maia, em El Petén. Mas a maioria das organizações não-governamentais internacionais queriam que toda a região fosse área de preservação – sem incluir a população indígena.

"Esse é um modelo que funciona talvez nos países ricos. Contudo, um país com grande pobreza e sem chances para as pessoas, precisa proteger a natureza de outra maneira, por meio da utilização sustentável dos recursos", afirma o presidente e um dos fundadores da associação, Marcedonio Cortave. Ele nunca abandonou a ideia de incluir as atividades dos moradores no plano de conservação.

De perseguidos aos administradores

Carmelita é uma das comunidades desse projeto. A cooperativa no norte de El Petén é composta por 80 famílias, ao todo 380 pessoas. Antes da criação da borracha sintética, sua população vivia da exportação do látex do sapotizeiro. Com a fabricação sintética, os preços e a produção caíram. Até hoje, a pista de pouso de Carmelita lembra o tempo de ouro da vila.

Atualmente, o sustento das famílias da região vem da floresta, principalmente da madeira tropical. Todos os anos, eles cortam de uma a três árvores por hectare. A madeira é certificada com o selo do Conselho de Manejo Florestal (FSC). Além disso, as folhas de algumas palmeiras, também certificadas, utilizadas em arranjos florais, são exportadas para o México e Estados Unidos.

"Um grande sucesso da Acofop é a possibilidade de lucro das comunidades com a floresta. Essa união mostrou que grupos muito pobres podem se desenvolver, através da utilização sustentável de recursos e, assim, melhorar suas condições de vida", comemora Cortave

Produtos diversificados

O látex do sapotizeiro continua sendo tirado e as folhas de outra palmeira são usadas tradicionalmente como telhado. Uma espécie de pimenta que cresce na floresta também conta como um dos produtos lucrativos da região, além do turismo.

Thema - Waldmanagement Guatemala

Em El Péten, a pecuária ameaça a floresta

Ao todo a cooperativa administra mais de 50 mil hectares de floresta, 20 mil deles são para a exploração madeireira. Aos poucos, o passado pobre da comunidade vai ficando para trás. Atualmente, os moradores contam com escolas, uma enfermeira e acompanhamento médico para todos os moradores.

Os jovens que querem fazer cursos profissionalizantes nas grandes cidades recebem um apoio financeiro da comunidade. Uma serralheria e marcenaria própria oferecem cursos profissionalizantes e trabalho.

Uma novidade é o turismo na região. Um passeio de cinco dias de mula, dois de ida e dois de volta, leva os turistas até Mirador, uma das ruínas maias mais famosas. Para Carmelita, a concessão da floresta é garantia de sobrevivênvia.

A floresta também lucrou com esse uso. O manejo florestal sustentável se mostrou um ótimo meio contra o desmatamento ilegal. Incêndios são raros nessas regiões. A biodiversidade também ganha com esse manejo, que é contado em ciclos não de apenas um ano, mas de até quatro décadas.

Sucesso sob ameaça

Mas o fim da concessão é a grande ameaça para a comunidade. Os moradores de Carmelita têm medo do futuro: eles ainda não sabem se a licença será renovada pelo governo, depois de 25 anos de administração local. Para Kaimowitz, o projeto de sustentabilidade legal é um desafio não só para cooperativas, mas para a preservação.

"Nós precisamos de uma visão de longo prazo para a proteção dessas florestas. As cooperativas também precisam dessa segurança, para que possam planejar e administrar de maneira correta", diz o especialista.

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