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Mundo

Ajuda com segundas intenções

Organizações internacionais como a Cruz Vermelha queixam-se da injusta distribuição da ajuda humanitária, na qual políticos, militares e a mídia têm um papel mais importante do que o sofrimento das vítimas.

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Soldados britânicos distribuem ajuda no sul do Iraque

O conflito no Iraque domina as manchetes dos meios de comunicação há meses. Centenas de jornalistas observam atentamente o que acontece no país destruído pela guerra. O governo norte-americano não teme apenas as imagens dos seus soldados mortos num pós-guerra que se esperava pacífico. Ele sabe também que reportagens sobre os sofrimentos da população não caem bem junto à opinião pública. Por isso, tenta prevenir, colocando-se em cena como o salvador na hora do aperto. Em abril, o Pentágono doou 1,7 bilhão de dólares para o Iraque.

A África esquecida

A generosa oferta não deixou de ser acompanhada de um pequeno senão: ao mesmo tempo, Washington reduziu, em um bilhão de dólares, os recursos para o Programa Mundial de Alimentação da ONU. O corte afeta 40 milhões de africanos em 22 países, como se pode ler no último relatório mundial de catástrofes da Cruz Vermelha Internacional (2003). Trata-se de uma decisão fatal para um continente assolado pela fome, por guerras civis e doenças, disse Fredrik Barkenhammar, da Cruz Vermelha Alemã à DW-WORLD. Somente de AIDS morrem na África 6.500 pessoas por dia.

Segundo Barkenhammar, cresce o risco de que os doadores desviem os recursos a conflitos que "estão na moda", a fim de polir sua imagem junto à população de seu país. Além do Iraque, isso diz respeito ao Afeganistão. Desde o Onze de Setembro a ajuda para esse país triplicou, embora a demanda tenha permanecido a mesma, afirma o relatório acima mencionado.

Regiões onde a catástrofe vem assumindo proporções graves há anos, como Angola, Somália ou o Congo, mal encontram a devida atenção da mídia."Não há a mínima disposição de doar recursos, por exemplo para uma província como a de Aceh, na Indonésia, onde nenhuma câmara documenta a penúria da população", disse à DW-WORLD Wolf-Christian Ramm, da ONG Terre des Hommes, que auxilia principalmente crianças.

Boas intenções não garantem êxito

Os dados falam uma linguagem clara: desde o início da guerra do Iraque, a Cruz Vermelha Alemã recebeu donativos de 4 milhões de euros para o Iraque. No mesmo período, só angariou 100 mil euros para a África. No Afeganistão trabalham, no momento, 350 organizações de ajuda humanitária. A grande quantidade de pessoas, contudo, não melhora necessariamente a qualidade da ajuda prestada. "A demanda provoca aumento de preços ", segundo Barkenhammar. Os estrangeiros que trabalham para as organizações podem pagar mais pelas corridas de táxi e pelos aluguéis do que a população local.

Além do mais, os poucos afegãos com uma boa formação profissional que permanecem no país, preferem trabalhar para os estrangeiros do que no serviço público que só agora começa a ser montado. Quem trabalha de motorista para uma embaixada ganha 500 dólares por mês, enquanto o salário de um médico numa clínica estatal não passa de 45 dólares.

O relatório da Cruz Vermelha também é bastante crítico quanto à cooperação entre as organizações de ajuda humanitária. O intercâmbio de informações deixa muito a desejar. Muitas vezes, os recursos doados na melhor das intenções, acabam não atingindo o objetivo. Um exemplo: embora desnecessário, foram fornecidas quantidades gigantescas de alimentos ao Afeganistão, o que acabou prejudicando a agricultura. Por outro lado, faltaram recursos indispensáveis para a reconstrução.

Organizações "embedded"

Uma tendência particularmente perigosa consiste, segundo a Cruz Vermelha, em que as próprias forças armadas assumam a divisão de bens de ajuda humanitária, a fim de aumentar sua aceitação entre a população local. Também criticável, segundo Ramm, é que os militares, já na fase de planejamento de uma guerra, atribuam um papel estratégico às organizações de ajuda humanitária.

"Além dos jornalistas, as organizações de ajuda também estão sendo embbeded. Isso ficou muito claro na guerra do Iraque", disse o porta-voz da Terre des Hommes. Dessa forma, procura-se eliminar as diferenças entre soldados e voluntários civis da ajuda humanitária. "A segurança dos nossos funcionários acaba sendo ameaçada", queixa-se Barkenhammar. As organizações internacionais somente serão respeitadas e estarão a salvo se mantiverem a sua neutralidade. "Por isso recusamos terminantemente proteção militar para nossos funcionários".

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