1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages

Mundo

Adversários de Morsi apostam em aliança arriscada com militares

Adversários do presidente egípcio pediram apoio para conseguir a queda do governo islâmico de Mohammed Morsi. Para analistas, falta clareza sobre o que o Exército ganharia ficando ao lado dos manifestantes.

Desde o último fim de semana, milhões de egípcios protestam para exigir a renúncia do presidente egípcio, Mohammed Morsi. Durante a manifestação gigantesca do último domingo (30/06), ativistas pediram ajuda ao escrever as seguintes palavras num cartaz: "Pedimos aos militares que salvem o Egito da Irmandade Muçulmana."

Não se sabe se os militares leram a placa ou não, mas a sua reação não tardou. Na segunda-feira, o Exército deu um ultimato a Morsi, que tinha 48 horas para resolver a crise política que surgiu entre a Irmandade Muçulmana – formação majoritária no parlamento e da qual o presidente é oriundo – e a oposição.

Se Morsi não conseguir negociar uma solução para a crise até esta quarta-feira (03/07), o Exército anunciou que proporá um plano de ação próprio. Na noite de terça para quarta, o presidente egípcio exigiu a anulação do ultimato e insistiu que não vai renunciar. Observadores alertam para uma possibilidade cada vez mais concreta de confronto, já que também os militares afirmaram que "dariam o próprio sangue" em nome do país.

Ägypten Proteste 30.06.2013

Protestos no Egito ganharam força no último fim de semana

Segundo os militares, o plano de ação "deverá incluir todas as correntes sociais importantes e também os jovens que iniciaram essa grande Revolução". Eles lembraram, assim, o levante que resultou na renúncia do antecessor de Morsi, o presidente militar Hosni Mubarak, em fevereiro de 2011. No âmbito do movimento de protestos populares em países árabes que ficou conhecido como "Primavera Árabe", Mubarak deixou o poder após 18 dias de protestos.

O ministro da Defesa egípcio, general Abdel-Fattah el-Sissi, fez uma declaração oficial sobre o plano de ação, mas deixou várias questões em aberto. Nesta quarta-feira, o jornal Al-Ahram publicou alguns detalhes do plano: os militares anulariam a Constituição. Poderia haver uma destituição de Morsi e a transferência de poder a um "conselho provisório" até a elaboração de uma nova lei fundamental e a organização, ainda sem data, de eleições presidenciais e legislativas.

Apesar da declaração do general ter deixado de dar maiores detalhes, el-Sissi esclareceu que, se as exigências dos manifestantes não forem atendidas, "nós [militares] seremos forçados a cumprir a nossa responsabilidade histórica para com o país e a grande nação egípcia, estabelecendo uma estratégia política juntamente com a população."

Mesmo com a aparente ambiguidade do chamado "plano de ação" dos militares, haveria muitos indícios de que os adversários de Morsi podem contar com o Exército. No domingo, helicópteros militares sobrevoaram a Praça Tahrir, no centro da capital, Cairo, e jogaram bandeiras egípcias para manifestantes que, assim como analistas, interpretaram a ação como um gesto de solidariedade com a oposição.

Segundo a cientista política Maha Azzam, da consultoria Chatham House de Londres, uma ampla parcela da sociedade egípcia parece sustentar a ideia de uma intervenção militar no país. "Mas isso não significa necessariamente que os manifestantes desejem um golpe de Estado. Eles querem o apoio dos militares para os anseios de mudança da sociedade civil, o que significaria, em primeira linha, a renúncia de Morsi", afirmou Azzam, em entrevista à DW.

Papel ambíguo dos generais

Regierungsgegner Proteste in Ägypten während Mursi Rede

Adversários do governo protestam durante discurso de Morsi na televisão

Os militares egípcios são subordinados ao chefe de Estado, mas também têm uma longa tradição laica e independente. Sob o general Gamal Abdel-Nasser, que definiu a linha política do Egito entre 1952 e 1970 (primeiro como primeiro-ministro, depois como presidente), o Exército consolidou um curso político próprio, de esquerda nacionalista. Porém, segundo a analista Maha Azzam, isso não impediu que os militares apoiassem todos os regimes do Egito desde então. "Eles apoiaram uma ditadura depois da outra".

A analista Annette Ranko, do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais (GIGA), em Hamburgo, ressalta que, ainda assim, muitos dos opositores de Morsi lembram da posição ambígua adotada pelos militares nos últimos dois anos e meio, desde a queda de Mubarak e a posse de Morsi, em junho do ano passado. Por um lado, o Exército permitiu a ação de oposição dos manifestantes durante os protestos contra Mubarak. "Mas, depois, os militares enfrentaram forte resistência da população, porque muitos temiam que os militares não fossem deixar o poder e que impediriam a transição democrática", afirmou Ranko.

Muitos egípcios também ainda não esqueceram a chamada "linha vermelha", pela qual o exército proibiu qualquer crítica pública sobre o papel que desempenhou na revolução. E ainda está viva a memória de uma jovem manifestante que teve suas roupas rasgadas e que foi brutalmente agredida por soldados em plena Praça Tahir. Mais tarde, a liderança do exército se desculpou pelo incidente.

Ägypten pro Mursi Demos 28.06.2013

Manifestação contra o presidente Morsi (30/06)

Oportunismo político

Ranko explica que a aposta de parte da oposição no apoio dos militares se deve ao sentimento de impotência diante de Morsi. Em seu último pronunciamento, o presidente admitiu que tem dialogado apenas com os líderes dos partidos tradicionais de oposição, negligenciando a juventude do país. "Não há uma plataforma para os jovens no Egito, nem do lado da Irmandade Muçulmana, nem nos partidos de esquerda e liberais. Essa impotência fez com que eles se voltassem para os militares", observou a analista.

Segundo Azzam, a maior motivação do Exército em apoiar os manifestantes seria a resistência dos generais em se dobrar à persuasão política da Irmandade Muçulmana. Os militares veem agora uma chance de mudar o equilíbrio das forças políticas no país.

A cientista política disse não acreditar que os militares queiram indicar figuras políticas específicas para liderar o país nas próximas semanas, nem que estejam interessados em travar outros nomes. "Mas eles se esforçam para controlar a situação política – um objetivo difícil de se cumprir, já que não é mais possível voltar aos tempos de Mubarak, quando o Exército era um dos pilares do regime autoritário. Os generais não podem mais ignorar as exigências da população por mais participação política", explicou Ranko.

Leia mais