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Cultura

Adeus ao mestre das belezas gélidas

Imprensa alemã lamenta a morte do fotógrafo Helmut Newton, considerado ao mesmo tempo um senhor do voyeurismo, um malabarista do fetiche, um físico do prazer visual e até mesmo "o cínico mais feliz de seu tempo".

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Helmut Newton, morto aos 83 anos em acidente

Morto na última sexta-feira (23) em um acidente de carro em Los Angeles, o fotógrafo Helmut Newton encerrou a vida como certamente teria desejado: no volante de seu automóvel de luxo, ao lado da mulher, sob o sol de Hollywood. Anunciada oficialmente um dia depois, a morte de um dos grandes nomes da fotografia deixa certamente uma lacuna no mundo da moda e das artes.

Agent provocateur, ele foi o responsável por "um amálgama promíscuo entre sexo e poder", segundo o diário Neue Zürcher Zeitung. Enquanto suas fotos se transformavam em ícones da fotografia que transita entre a arte e o comércio (leia-se moda e publicidade), Newton insistia que era apenas um "fotógrafo de objetos cotidianos".

Mulheres: sujeitos ou objetos? - Entre estes "objetos", diga-se de passagem, pairam acima de tudo as mulheres: nuas, loiras, com olhares gélidos, mais parecem sujeitos que objetos para o consumo descartável. "A forma como as mulheres esguias e com seus sapatos de salto alto são colocadas frente ao observador ou observadora foi de um radicalismo pouco visto até então. Isso irritou, pois é claro que essas mulheres eram vistas como objetos, embora, com tal postura, olhassem de volta como sujeitos", comenta o diário die tageszeitung.

Desprezando a fotografia como mera reprodução do real, Helmut Newton recorria sempre à iluminação artificial, aos contrastes em preto-e-branco, à encenação teatralizada. "Porque eu odeio sentimentalismo ou visões românticas", teria dito o fotógrafo, citado pelo diário Süddeutsche Zeitung. Teria Newton trazido essa predileção pela frieza de uma Alemanha anterior ao nazismo, do qual este filho de um fabricante judeu de botões fugira em 1938 para escapar do Holocausto?

Íntimos no anonimato - De Liz Taylor a Leni Riefenstahl, de Helmut Kohl a Le Pen (fotografado ironicamente ao lado de seus cachorros), de Margaret Thatcher a Paloma Picasso, passando por Natassja Kinski, Hanna Schygulla e Salvador Dalí, o fotógrafo das modelos e das celebridades sabia como ninguém mesclar o público com o privado, clicando seus heróis - e principalmente heroínas - com extrema intimidade, mas de preferência em locais anônimos, como quartos de hotéis ou corredores.

Após anos como fotógrafo de moda para publicações como a Vogue francesa, Jardin de Modes ou a Stern alemã, Newton ofereceu ao público a série que iria garantir seu lugar na história da fotografia: Big Nudes. Inspirado nas reproduções divulgadas pela polícia alemã nos anos 70, em busca dos terroristas da Fração do Exército Vermelho (RAF), Newton publicou seu exército privado de mulheres nuas, "que brinca cinicamente com a tradição de imagens de uma marcha militar", segundo observa o diário Süddeutsche Zeitung.

Sucessor de Dalí e Warhol - Vários anos após sua fuga durante o regime nazista e passagens por Cingapura, Austrália, Londres e EUA, Newton voltaria a Berlim em 1979 e especialmente em outubro último, quando doou à cidade mais de mil reproduções de sua autoria, para a criação de um arquivo que reunirá, a partir de meados deste ano, sua obra.

A inauguração deste museu em sua homenagem, esse "sucessor de Dalí e Warhol" - como define o diário Frankfurter Rundschau - não verá. Uma pena para aquele que, após fugir dos nazistas aos 18 anos de idade, se tornaria "um dos cínicos mais felizes de seu tempo", segundo o jornal alemão.

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