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Mundo

Acordo nuclear divide Oriente Médio

Eixo sunita, liderado por monarquias do Golfo, recebe com cautela entendimento, que é aplaudido por aliados xiitas do Irã. Israel faz duras críticas, e linha dura do regime dos aiatolás diz que Ocidente saiu ganhando.

O

entendimento histórico

alcançado com o Irã foi recebido de formas distintas no Oriente Médio nesta sexta-feira (03/04), dia seguinte ao fim das negociações em Lausanne, na Suíça. Aliados do Irã, um regime xiita, e a coalizão de países sunitas liderada pela Arábia Saudita reagiram em diferentes tons – todos, porém, sem demonstrar o mesmo nível de

otimismo externado

no Ocidente.

Entre Arábia Saudita e as outras monarquias do Golfo Pérsico, onde o temor do expansionismo iraniano é mais acentuado, houve um misto de apoio à iniciativa dos Estados Unidos – um importante aliado – e cautela.

O eixo sunita da região teme que o acordo dê legitimidade ao regime iraniano e permita que o país, mesmo com restrições, mantenha tecnologia para, no futuro, desenvolver uma bomba atômica. Suas preocupações são similares às de Israel, mas são manifestadas de forma mais privada – como fez o rei saudita Salman bin Abdulaziz al-Saud.

Riad reagiu ao acordo com um telefonema de Saud ao presidente americano, Barack Obama. Nele, segundo a imprensa oficial saudita, o monarca expressou sua esperança de que o entendimento "sirva para reforçar a estabilidade e a segurança na região".

O discurso foi bem parecido com o de Omã, outra monarquia sunita do Golfo, mas que goza de relativamente boas relações com Teerã. O país, que pode exercer importante ponte entre o regime dos aiatolás e o Ocidente, também se referiu ao acordo como uma chance de levar mais "estabilidade e segurança" ao Oriente Médio.

A notícia foi recebida de forma mais positiva entre os aliados árabes de Teerã, como Iraque, Síria, Bahrein e o grupo radical libanês Hisbolá. Para eles, um acordo representa – ao menos por enquanto – espantar o fantasma de uma intervenção militar ocidental no Irã.

"É uma vitória para o Irã, porque garante a permanência de seu programa nuclear e seu direito de enriquecer urânio com objetivos pacíficos, o que Teerã buscava desde o início", afirmou o deputado libanês Walid Sukkarieh, do braço político do Hisbolá.

Conservadores iranianos criticam

Após o fim da reunião em Lausanne, centenas de iranianos foram às ruas de Teerã celebrar. Para eles, o acordo pode representar uma retomada da economia do país, minada pelas duras sanções impostas pelo Ocidente na última década.

Lausanne Atomverhandlungen Abschlußstatement Javad Zarif

Chanceler iraniano foi recebido como herói

No desembarque em Teerã, o chanceler Mohammed Javad Zarif teve seu carro cercado e foi recebido como um herói. "Eu vejo um futuro claro e brilhante", disse, a seu lado, um membro da equipe negociadora.

O entendimento, porém, não é unanimidade no país. A linha dura considerou o resultado uma barganha para o Ocidente e um desastre para o Irã. Apoiadores das negociações, por outro lado, compararam a ala conservadora do regime ao governo israelense.

"Trocamos um cavalo pronto para o páreo por um com rédeas arrebentadas", disse Hossein Shariatmadarim, conselheiro do líder supremo do Irã, aiatolá Ali Khomenei. "Um desastre aconteceu em Fordo", afirmou à agência de notícias Fars o analista conservador Mahdi Mohammad, em referência a uma instalação de enriquecimento de urânio.

Israel: "Ameaça à sobrevivência"

De todas as críticas, as mais duras saíram de Israel. Em sua página no Facebook, o ministro israelense da Economia, Naftali Bennett, sugeriu indiretamente que o acordo é comparável ao entendimento firmado entre o premiê britânico Neville Chamberlain e Adolf Hitler antes da Segunda Guerra Mundial.

"O regime de terror islâmico mais radical do mundo recebe um selo kosher oficial para o seu programa nuclear ilegal", disse Bennett, membro do partido de direita Casa Judaica.

Obama telefonou ao primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, para explicar-lhe o acordo preliminar. O chefe de governo, porém, manteve o tom de duras críticas às negociações.

"Um acordo pode ameaçar a sobrevivência de Israel", escreveu um porta-voz no Twitter, citando Netanyahu.

Lausanne Atomverhandlungen Abschlußstatement Gruppenbild

Representantes de EUA, China, Rússia, Reino Unido, França, Alemanha e Irã em Lausanne, após o entendimento

O acordo

Segundo o acordo, o Irã reduzirá sua capacidade de enriquecimento de urânio, diminuindo o número de centrífugas de 19 mil para cerca de 6 mil. Teerã também concordou em não construir quaisquer novas instalações com o propósito de enriquecer urânio por 15 anos.

Neste mesmo período, o Irã se comprometeu a não enriquecer urânio acima de 3,67%, além de aceitar em reduzir o seu estoque atual de cerca de dez toneladas de urânio com baixo enriquecimento para 300 quilogramas.

Teerã só poderá enriquecer urânio na usina de Natanz, e apenas usando as centrífugas de primeira geração, 5060 IR-1, removendo de todas as usinas suas centrífugas mais modernas. Ou seja, todos os modelos, de IR-2 até IR-8, não poderão ser usados pelos próximos dez anos.

Também o reator de águas pesadas de Arak, com base num projeto acordado com o P5+1, será redesenhado e reconstruído para impossibilitar a produção de armas de plutônio. O núcleo original do reator será destruído ou removido do país.

O Irã também se comprometeu a submeter seu programa de enriquecimento de urânio a um amplo sistema de controle pelos próximos 20 anos. Os inspetores terão acesso às minas de urânio e à cadeia de fornecimento do programa nuclear iraniano, além de maiores informações sobre instalações declaradas e não declaradas pelo governo.

Em contrapartida, as sanções ocidentais deverão ser aos poucos levantadas, depois que inspetores terem verificado que o Irã adotou todos os compromissos. Se em algum momento o Irã não cumpri-los, as sanções voltam imediatamente.

RPR/ap/rtr/dpa

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