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Cultura

Acesso à zona interditada

Pouco mais de um ano após sua inauguração, o Museu Judaico de Berlim mostra a atualidade do debate sobre anti-semitismo na Alemanha e investe num apelo individualizado ao visitante.

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Com esta estrela os judeus eram estigmatizados no nazismo

A cerca que interdita os jardins do Museu Judaico, sob constante vigilância de policiais armados, contradiz não apenas a concepção do arquiteto Daniel Libeskind, como também a meta do museu: tornar acessível a história judaico-alemã, desde a Idade Média até as conseqüências do Holocausto. Ao demarcar o setor do tabu, a cerca vermelha concretiza o limite que o museu pretende superar, à medida em que contextualiza o Holocausto numa longa história de convivência e rupturas entre alemães judeus e não-judeus.

Desde a sua conturbada inauguração, dois dias após os atentados de 11 de setembro nos Estados Unidos, o Museu Judaico de Berlim atraiu mais de 730 mil visitantes. Tendo atingido um número surpreendente de pessoas, resta – enfim – atingi-las no ponto certo: não só levá-las a elaborar o passado, mas também a reconhecer o quanto a sociedade alemã ainda é anti-semita, apesar da intensa e produtiva reflexão coletiva desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945.

"Não sou anti-semita"

"Não existe anti-semitismo na Alemanha. Vivemos numa sociedade multicultural. Por que seríamos, portanto, inimigos dos judeus?", indaga uma carta exposta na mostra recém-inaugurada "Não sou anti-semita".

Endereçadas à revista Der Spiegel e ao jornal judaico Jüdische Allgemeine Wochenzeitung, as cartas que compõem a exposição reagem às declarações anti-semitas de políticos alemães que desencadearam uma das mais sérias polêmicas sobre anti-setimismo no país. Em meados do ano, o deputado do Partido Liberal, Jürgen Möllemann, defendeu seu colega e correligionário Jamal Karsli, que havia acusado Israel de usar "métodos nazistas", e ofendeu o vice-presidente do Conselho Central dos Judeus, Michel Friedman, culpando-o pelo fomento do anti-semitismo na Alemanha.

Enquanto o amplo debate público veiculado pela mídia passou pelo inevitável filtro do "politicamente correto", as cartas espontâneas e individuais expostas no Museu Judaico mostram o quão frágil é o aparente consenso coletivo sobre esta questão. "Se os judeus não são capazes de admitir seus próprios erros, só me resta dizer uma coisa: Caiam fora! Deixem a gente em paz! Não precisamos de vocês!" – exclama uma outra carta, confirmando que Möllemann não é um caso isolado, nem na elite, muito menos entre a população.

Quebrando o silêncio

O escândalo Möllemann mostrou a facilidade com que críticas anti-israelenses se transformam em agressão anti-semita, sem ser registrada como tal. Ao igualar o Conselho Central dos Judeus da Alemanha à "Quinta Coluna de Sharon", uma outra carta verbaliza, com retórica, uma das opiniões mais propagadas nas ruas durante as semanas de polêmica.

O ímpeto com que os alemães reagiram à controvérsia levou, ao mesmo tempo, a uma produtiva quebra do silêncio sobre questões consideradas consensuais até então. Por outro lado, outras reações defendem a manutenção do tabu, seguindo o princípio "dos males, o menor": "Estou farto do apelo de amigos e conhecidos por mais normalidade, pelo esquecimento e pelo 'direito de poder criticar os judeus'. Existe um tabu, sim. E é bom que seja assim."

Um dos méritos do Museu Judaico é, com certeza, tornar mais concretos aspectos da história judaico-alemã, eliminando a abstração indigesta à que o Holocausto foi simbolicamente reduzido. Além de reunir objetos pessoais em seu acervo e individualizar uma história genérica do "judaísmo" em histórias particulares e ilustrativas, o Museu continua mostrando em suas exposições temporárias – como "Não sou anti-semita" – o valor das manifestações individuais e do pluralismo. Afinal, o neonazismo, por exemplo, já chegou a ser considerado inofensivo por políticos conservadores, sob a alegação de que não se trata de um fenômeno coletivo, mas sim de casos "individuais".

Museu para todos

Apesar do grande esforço de didatizar da trajetória dos judeus na Alemanha (muitas vezes em detrimento da complexidade histórica), o Museu Judaico ainda não conseguiu se livrar da aura de "espaço de exceção". Sua primeira campanha publicitária, lançada recentemente em Berlim, visa justamente a quebrar esta aura e tornar o museu atrativo "para todos". 320 outdoors espalhados por três bairros da cidade mostram imagens estranhadas: uma árvore cortada, cujo caule é um salame; um coco aberto, com interior de uma laranja; um tubo de pasta de dente, com uma taturana saindo de dentro. Todos com o lema "aquilo que você não estava esperando", em alemão, inglês, hebraico, turco e russo.

A discrepância entre "conteúdo" e "continente" também poderia se aplicar à relação entre o projeto arquitetônico de Daniel Libeskind e o acervo ou à curadoria da exposição permanente. Afinal, a mostra altamente interativa e lúdica parece tentar esconder, e esconde, o espaço sacralizado de Libeskind: os três eixos (da continuidade, do exílio e do Holocausto), as galerias labirínticas e opressivas, as lacunas e ocos, os pavimentos inclinados e os espaços de silêncio, como a torre do Holocausto e o jardim do exílio.

Toda esta concepção ritualizada foi encoberta por uma exposição ostensiva, que mais diz do que mostra. Como se o museu – com seu acervo – pretendesse encobrir artificialmente lacunas da reflexão coletiva, que com certeza ainda precisam de algum tempo para serem preenchidas espontaneamente.

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