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Cultura

A volta do comandante

A juventude redescobre Chê Guevara, cuja imagem, comercializada na Alemanha e em todo o mundo, volta a aparecer nas manifestações de protesto.

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A expressão triste no retrato que mais rodou o mundo

Não deixa de ser um contrasenso. O revolucionário que tanto lutou contra o capitalismo acabou tendo sua imagem comercializada em milhares de posters, camisetas, cartões de telefone, isqueiros, maços de cigarro e até na publicidade.

Na Alemanha, artigos com a estampa do médico e comandante argentino, que deixou tudo de lado para livrar Cuba da tirania de Fulgêncio Batista, ao lado de Fidel Castro, estão em moda há anos, principalmente entre a juventude. Como os alemães vêem esse ressurgimento foi o tema de uma reportagem da revista Stern.

T-shirt von Che Guevara

Cubano usa camiseta com retrato e frases de Chê (foto de 1997). Na Alemanha e em várias partes do mundo a imagem do revolucionário volta a estar presente, talvez até mais do que nos anos 60.

"No ano 75 após o nascimento de Chê, ele ainda é presença obrigatória em todo protesto: não há manifestação da ONG Attac sem camiseta e bandeira com sua foto, não há neo-anarquista que se preze sem pelo menos uma aplicação de Chê em sua jaqueta..." escreve a revista, para depois enumerar atores, cantores e modelos que se exibem exibindo a imagem do ex-ministro de Economia de Cuba.

A luta por um mundo mais justo

A que se deve esse renascimento? - se é que o termo se aplica. Mitos não são imortais? A morte prematura de Chê Guevara em 1967, na Bolívia, ajudou a formar o mito que rodeia sua figura. Para o compositor e cantor alemão Konstantin Wecker, que já passou dos 50, a juventude de hoje sabe que "os Estados Unidos não trazem apenas democracia e liberdade ao mundo". Talvez por isso se lembrem, nos protestos contra a guerra do Iraque ou no movimento antiglobalização, do grande lutador contra a opressão e a injustiça.

"A firme vontade de lutar por um mundo mais justo, que Chê Guevara representava, deu muita força e coragem aos movimentos de protesto em 1968 e nos anos seguintes", diz Wecker. Autor de muitas canções políticas e um dos expoentes da esquerda alemã, ele se pergunta se o espírito de 68 não estaria renascendo.

Os sonhos dos "realistas"

"Revolta é mais do que levar Chê Guevara na camiseta", canta Mellow Mark, compositor de reggae de Hamburgo, em Revolution, que fez tanto sucesso a ponto de valer-lhe o prêmio Echo da indústria fonográfica alemã. Como contou à revista alemã, ele acredita que o espírito de Chê está renascendo. "Ele tira a gente deste mundo de consumo e entretenimento, levando para as ruas, para agitar contra o abuso do poder. Se trata de reviver o velho sonho de, juntos, melhorar o mundo e a vida".

Tamara Bunke

A guerrilheira Tânia, namorada de Chê Guevara. Seu verdadeiro nome era Tamara Bunke. Seus pais eram comunistas da Alemanha Oriental.

E, em matéria de sonhos, Ernesto Guevara tinha o que dizer: "Sejamos realistas, exijamos o impossível". Essa que é uma de suas frases mais citadas é a preferida de Mari (16), de Hamburgo, uma garota disposta a protestar contra a derrubada de um acampamento ilegal de jovens da cultura alternativa da cidade. Mari conhece bem Chê, pois leu duas biografias. Ele sonhava com o "homem novo", que não seria mais vítima da injustiça. O que cativa a alemã na figura do "guerrilheiro heróico" são os seus sonhos e "que ele lutou por seus ideais, mesmo quando era difícil e perigoso".

Um Robin Hood suicida e positivo

Sejamos realistas, exijamos o impossível. Não seria por confundir esses dois planos que se deu mal o comandante, para quem "é preciso endurecer, mas sem perder a ternura jamais"? A caçadora de nazistas Beate Klarsfeld vê algo de "religioso e suicida" na figura desse Robin Hood comunista, que se sacrificou em prol dos ideais. A própria Beate foi uma heroína do rebelde e inesquecível ano de 1968, por haver esbofetado o chanceler austríaco Kurt Georg Kiesinger, um ex-nazista.

O músico Max Herre da banda Freundeskreis, de Stuttgart, é um dos fãs jovens do comandante que fumava charutos. "Em situação de perigo, sou claro como Chê Guevara", dizia um rapp seu de 1997, que acertou em cheio o mainstream e tornou-o famoso de repente. "Ele seguia o seu caminho. E tinha esse radicalismo que existe no rock e no hiphop", analisa Max. Na crise geral de valores da sociedade do século 21, nada como buscar no bau da história uma figura positiva, já que a morte precoce poupou-o dos desgastes habituais das revoluções que devoram seus filhos, ou pior, que os transformam de libertadores em tiranos.

E que Guevara acerta na mosca, confirma até o diretor de marketing de uma firma de aluguel de veículos que colocou a figura de Chê em cima de um caminhão, em sua propaganda sobre mobilidade. "A imagem de Chê é construída em uma única dimensão positiva", afirma no seu publicitês.

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