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Cultura

A vida imita a arte no "Anel do Nibelungo" de Munique

Um diretor alemão com fama de anticonvencional e provocador estreou neste domingo (24) sua montagem do épico mitológico em quatro partes O anel do Nibelungo.

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Em 2001Wernicke montou "Die Frau ohne Schatten", de R. Strauss, no Metropolitan de NY

Em meio ao caos dos aplausos no final da récita, é possível distinguir duas facções: os "bravos!" vêm sobretudo da platéia, as vaias, dos balcões e galerias. Porém, no fim das contas, pode-se afirmar que o Ouro do Reno de Herbert Wernicke resistiu com bravura à noite de estréia em solo "historicamente contaminado".

Um círculo de neon perfura as colunas da fachada do Nationaltheater, como um gigantesco piercing. Este símbolo anuncia ao público, já de longe, que o encenador pretende ultrapassar os limites do palco, da saga mítica que serve de base à tetralogia wagneriana e até mesmo da genial música, para comunicar-se com o mundo externo e atual: o teatro da vida vai ao teatro.

Grandes expectativas em torno do enfant terrible

A primeira montagem de uma ópera wagneriana por Herbert Wernicke em Munique foi um dos maiores escândalos já vistos na Opernhaus da Maximillianstrasse. Antes mesmo que o maestro Wolfgang Sawallisch pudesse erguer a batuta para a abertura de O navio-fantasma, um espectador bradou: "Começa o teatro de chanchada!".

Na versão do jovem diretor alemão, o Holandês ancorava num salão de alta burguesia, ao invés de numa costa tempestuosa. No fim seu navio, acabava dentro de uma garrafa. A desaprovação do público foi veemente. O então "papa da crítica muniquense", Joachim Kaiser, atacou publicamente Sawallisch e o superintendente August Everding, por haverem "acobertado tais distorções".

Isto foi em fevereiro de 1981. Precisamente 21 anos mais tarde, o enfant terrible retornou à capital da Baviera com mais uma obra do gênio musical de Bayreuth: agora trata-se da monumental tetralogia O anel do Nibelungo. Desta vez Wernicke esteve "acobertado" pelo superintendente da Staatsoper, Peter Jonas, e pelo diretor musical Zubin Mehta.

A nata do canto wagneriano

A tetralogia representa um enorme desafio para qualquer casa de ópera, tanto do ponto de vista artístico como material e logístico. É a segunda vez que Wernicke a coloca em cena: a versão de 1991 pôde ser vista em Bruxelas e Frankfurt, angariando elogios da crítica por sua qualidade anticonvencional.

O ouro do Reno, prólogo do épico, estreou neste domingo (24). Depois virá A Valquíria, durante o festival de ópera de 2002, seguida por Siegfried e O crepúsculo dos deuses, no segundo semestre. A primeira apresentação integral do ciclo está programada para maio de 2003.

Sem sombra de dúvida, trata-se de uma visão "secularizada" da tetralogia wagneriana, irreverente e liberta de qualquer traço de culto à personalidade. Pelo contrário: tendo Nike Wagner, a bisneta rebelde do gênio de Bayreuth, no apoio teórico, Wernicke colocou sobre o palco do Nationaltheater de Munique a platéia (!) do Festival de Bayreuth, a meca dos wagnerianos.

Qualquer semelhança com fatos e pessoas reais é obviamente desejado, embora não haja uma alusão direta às personagens da novela que há anos se desenrola naquela cidadezinha bávara: a inglória luta pela sucessão da diretoria do festival, manchete de colunas sociais e na qual Nike representa o papel de iconoclasta e traidora do clã.

Nesta aldeia de intrigantes e mercado de vaidades irá desenrolar-se o drama humano-metafísico do Anel do Nibelungo, até o holocausto final, no Crepúsculo dos deuses. Como de costume, Wernicke desenhou os cenários e figurinos. O elenco de superstars a sua disposição não deve nada aos maiores momentos de Bayreuth: John Tomlinson (Wotan), Marjana Lipovsek (Fricka), Philip Langridge (Loge) e Helmut Pampuch (Mime). Enfim: a nata dos intérpretes operísticos da atualidade, que mereceu aclamação unânime na estréia, assim como o maestro israelense Zubin Mehta regendo a poderosa orquestra da Staatsoper.

Solo contaminado

Não são apenas os precedentes do diretor a dar a esta montagem seu potencial iconoclasta. A própria relação entre Richard Wagner (1813–1883), a tetralogia e Munique foi ambivalente e carregada de tensão. Afinal, as estréias de O ouro do Reno e A Valquíria naquela cidade, em 1869 e 1870, ocorreram por ordem do rei Ludwig II, mas contra os expressos desejos do compositor.

Este estipulara que O Anel do Nibelungo só deveria chegar à ribalta na íntegra e num teatro especialmente construído para este fim. Wagner ressentiu tanto a prepotência de seu real admirador e mecenas, que ignorou acintosamente ambas estréias. Para completar, o fato de o Teatro do Festival Wagner acabar sendo erguido na cidadezinha de Bayreuth, na Francônia, representou uma forte ofensa para a capital.

A tetralogia em si não é menos controvertida. Wagner dá um tratamento tão complexo quanto pessoal à temática mitológica, e não é mero acaso a obra haver encontrado em Adolf Hitler um de seus admiradores mais fanáticos. Cerca de 50 anos após a morte do compositor, ela foi incorporada pelos nazistas e empregada em nome da propaganda anti-semita e dos delírios de dominação do mundo.

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