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Alemanha

A sociedade arreligiosa do leste

Doze anos após a reunificação da Alemanha, as igrejas perderam no leste do país sua importância política e ainda não reencontraram seu lugar na sociedade.

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Apenas minoria segue uma religião na antiga Alemanha comunista

Ao fim da Segunda Guerra Mundial, 82% dos habitantes do leste da Alemanha eram protestantes luteranos e 12%, católicos. Quando o Muro de Berlim caiu, em 1989, menos de um quarto dos alemães-orientais ainda se autodefiniam como luteranos e apenas 3% continuavam sendo católicos.

Foram quatro décadas em que os cristãos não tinham vez num Estado socialista, que considerava as igrejas — nas palavras do ministro de Segurança do Estado, Erich Mielke — "a organização legal dos opositores". Nos anos 50, os cidadãos que pertenciam originariamente a um confissão foram se desligando da Igreja, as gerações seguintes — com exceção de uma minoria — cresceram sem batismo e sem catecismo.

Tendência da vida moderna?

Mesmo hoje, 12 anos após a reunificação da Alemanha, o leste registra apenas 3,7 milhões de membros da Igreja Luterana e menos de meio milhão de católicos — numa população de cerca de 17 milhões de habitantes. Não que o fenômeno da arreligiosidade seja exclusivo do leste da Alemanha: também no oeste do país, cresce nas escolas, por exemplo, o número de crianças que não foram batizadas, chegando a uma taxa de um terço nas grandes cidades.

Mas no leste, não ter uma confissão é praticamente a regra, o que leva teólogos a se ocupar cada vez mais do fenômeno. Eberhard Tiefensee, da Universidade de Erfurt, defende que a situação no leste da Alemanha refuta a tese de que o ser humano seria "incuravelmente religioso". "A vida em sociedade funciona sem religião", afirma ele. Em sua opinião, a realidade tampouco confirma a tese de que a diminuição da religiosidade esteja acoplada a uma decadência dos valores.

Perda do papel político

A vida religiosa não é um fenômeno das massas no leste do país, mas existem sinais encorajadores para as igrejas, como a reconstrução dos templos destruídos na guerra ou abandonados ao deus-dará durante décadas. A Igreja de Nossa Senhora, de Dresden, que está sendo levantada de novo, pedra por pedra, é o mais conhecido exemplo.

O jornal Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung, que se dedicou ao tema em sua edição de domingo, 22 de dezembro, vê nesses esforços a conjugação do espírito de cidadania e da crença em Deus, ambos desaparecidos na sociedade proletária da antiga República Democrática Alemã (RDA), a Alemanha comunista.

A verdade é que, muito mais do que o significado religioso, as igrejas tiveram nas quatro décadas em que reinou o partido único SED um papel político: eram o único espaço em que a democracia e a liberdade continuaram existindo. Tanto que — sobretudo a Igreja Luterana — desempenhou um papel essencial no fortalecimento do movimento de oposição ao regime que acabou conduzindo à queda do Muro.

Por outro lado, é uma questão ainda não esclarecida até que ponto a Igreja Luterana — ou pelo menos alguns de seus representantes — desempenhou um papel de apoio ao regime. Críticos cobram da Igreja, que acusam de não ter se renovado e democratizado após o fim da RDA, um mea culpa abrangente.

No cotidiano das paróquias, cuja vida renasce timidamente, debates desse tipo têm pouca repercussão. Antigos funcionários do partido voltam a se afiliar, mandam batizar os filhos, freqüentam as missas e os ofícios religiosos. Mas os que praticam a vida religiosa continuam sendo uma minoria.