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Alemanha

A saga dos desterrados

A criação de um “Centro Contra a Expulsão” transforma-se na Alemanha em um debate polêmico. O destaque dado ao sofrimento dos “deslocados alemães” após a Segunda Guerra desperta a desconfiança de países vizinhos.

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1947: Crianças em um campo berlinense de deslocados

O principal temor envolvendo a discussão é de que o planejado Centro Contra a Expulsão possa vir a se tornar uma espécie de pódio de oposição ao Memorial do Holocausto, pois trata-se de um espaço onde os "criminosos" são cidadãos não alemães. Sugerido para ser construído também em Berlim, o centro é fruto de uma idéia da parlamentar democrata-cristã Erika Steinbach, mentora de uma fundação que já existe desde setembro de 2000. O objetivo é erguer um centro voltado para a documentação histórica da migração forçada dos alemães no século 20, com exposições fixas e temporárias, um arquivo e uma mediateca.

Breslau Stadtansicht mit Markt

Wroclaw (Breslau): cidade símbolo para deslocados de diversas nacionalidades

Relativizando o sofrimento alheio - Assunto predestinado para se tornar polêmico, o debate em torno de um núcleo voltado para o "desterro alemão" já causa furor dentro e fora do país. A suspeita de que possa se equiparar a população de origem alemã - que teve que deixar determinados territórios no Leste Europeu após a Segunda Guerra - à saga dos judeus em fuga deixa especialistas de cabelo em pé. Teme-se que os mentores do centro a ser criado pretendam incluir os alemães na lista das vítimas da guerra, relativizando assim o alcance do genocídio praticado pelos nazistas.

Como reação à idéia, o parlamentar social-democrata Markus Meckel deu início a um novo movimento, que ataca o caráter "nacional" do planejado núcleo, sugerindo, no lugar do mesmo, a criação de um "Centro Europeu Contra Expulsões, Migrações Forçadas e Deportações". Segundo o projeto, o destaque seria dado aqui ao caráter "europeu" da instituição, colocando os desterrados alemães apenas como alguns entre os cerca de 60 milhões de deslocados em todo o continente durante o século 20. Ao invés de Berlim, o centro sugerido por Meckel teria a polonesa Wroclaw (ainda conhecida entre os alemães como Breslau) como sede.

"Destinos marginalizados" - Enquanto um grupo acusa o outro de "nacionalismo" no trato da questão, os membros da União dos Desterrados, liderados por Steinbach, acreditam que o centro perderia sua função primordial ao se tornar "europeu" por excelência, pois deixaria os "destinos marginalizados dos alemães desterrados de lado". Como ambos os projetos prevêem a captação de recursos públicos, até o Parlamento alemão já se viu, em julho último, envolvido no debate. O resultado foi vago: declarou-se, em princípio, apenas a legitimidade de um centro que se volte para "as diversas causas, contextos e conseqüencias das expulsões ocorridas no continente europeu".

O cerne da questão parece estar ainda mais além: historiadores de diversas nacionalidades acreditam que qualquer espécie de centro voltado para a documentação de temas ligados a migrações forçadas não comportaria toda a problemática envolvida. "A tarefa é mais ampla do que a que poderia desempenhar qualquer tipo de núcleo", afirma Karl Schlögel no semanário Die Zeit.

Plano simbólico - Os traumas individuais – ou as formas de reagir às acusações de que todo desterrado alemão pagou pelos crimes de seus "compatriotas" nazistas – precisam, segundo os especialistas, estar ancorados na "memória coletiva". Deslocar o problema para o plano simbólico, elaborando os resquícios deixados dentro das famílias, é para muitos uma solução mais adequada do que a criação de um centro oficial.

Tabu durante a Guerra Fria, o tema que envolve as migrações forçadas e os destinos dos desterrados foi banido da discussão pública a leste da Cortina de Ferro e relegado a segundo plano na Europa Ocidental. Somente a partir de 1989, com a queda do Muro de Berlim, é que o continente se abriu para tirar o esparadrapo de uma ferida deixada de lado por várias décadas.

Turismo back to the roots - Hoje, as novas gerações se vêem livres para praticar até mesmo o que é chamado de "turismo back to the roots", que possibilita ir verificar in loco as origens das famílias alemãs "deslocadas" um dia de territórios que hoje pertencem à Polônia, República Tcheca, Eslováquia, Hungria ou aos países bálticos. Até instituições de pesquisa oficiais abrem-se para o tema, bloqueado por anos de suas linhas de interesse. Isso sem contar o debate na mídia desencadeado por Passo de Caranguejo ( Krebsgang), do escritor Günter Grass, e o sem-número de documentários dedicados ao tema que vêm sendo veiculados pela TV alemã.

Deportation der Juden aus dem Warschauer Ghetto

Deportação dos judeus do Gueto de Varsóvia, em 1943

Perigo das encenações - O risco, no entanto, é iminente: como alerta o historiador Schlögel, "luto e memória são esferas individuais e íntimas e não devem ser encobertas por encenações" de qualquer espécie. Mesmo porque, como ressalta no diário Süddeutsche Zeitung Moshe Zimmermann, especialista em história alemã na Universidade Hebraica de Jerusalém, "aí também se trata de uma tentativa de relativizar, de um acerto de contas moral, de um ressarcimento material e de um contexto histórico".

A dúvida paira: estaria um centro como esse tentando empalidecer a imagem dos alemães como criminosos de guerra, incluindo-os na história também como vítimas? Ou, partindo de outra perspectiva, é legítimo opor o sofrimento de um povo ao de outro, como se a saga do cidadão comum levado de um lado a outro em função de uma guerra pudesse ser pesada na balança, para ver quem sai perdendo mais?

Europeizando traumas nacionais- Aos que apontam um anacronismo do debate em plena era de "franca expansão" da União Européia em direção ao Leste Europeu, o historiador polonês Wlodzimierz Borodziej alerta no diário Der Tagesspiegel: "Não precisamos de um centro como esse, mesmo porque ainda não atingimos o estágio de sermos capazes de europeizar os traumas nacionais". E mesmo porque, como chama a atenção Moshe Zimmermann, "a questão histórica envolvendo as causas do problema é mais decisiva ainda. Sem querer proteger ou culpar os alemães e sem querer responsabilizar o coletivo pelos atos de indivíduos ou de grupos, a posição inicial do debate continua sendo incontestável: foi a Alemanha nazista quem soltou o demônio da garrafa".

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