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Mundo

A recriação da Otan

Não é à toa que Praga sediará o encontro de cúpula da Otan nestas quinta e sexta-feiras. A reunião na capital tcheca marca um momento histórico na aliança militar, não só pela adesão em massa de países outrora inimigos.

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Sete países do Leste Europeu podem atravessar em Praga a ponte para a aliança ocidental

Capital da República Tcheca, país já incorporado à Otan em 1999 ao lado da Polônia e Hungria, Praga foi escolhida como a ponte que levará os demais candidatos do Leste Europeu a desembarcar na aliança ocidental. Sete países esperam ser integrados na organização que combatiam até 1990 por orientação de Moscou.

Se as repúblicas bálticas (Lituânia, Letônia e Estônia) vêem este passo como fundamental para afirmar sua independência frente a eventuais futuras intenções da Rússia de reincorporá-las a seu território, na Bulgária e Romênia a população ainda olha desconfiada a aproximação promovida por seus políticos com os responsáveis pelo bombardeamento da vizinha Iugoslávia. Também na ex-iugoslava Eslovênia ainda há resistências.

Mas não é de hoje que a expansão da aliança atlântica para a Europa Oriental deixou de ser o único motivo para considerar histórica a conferência em Praga. Desde que o encontro e seu objetivo foram fixados há quase três anos, a concepção geomilitar do mundo sofreu uma segunda reviravolta, depois da queda do Muro de Berlim e do fim dos regimes comunistas no Leste Europeu no início dos anos 90.

"O 11 de setembro de 2001 levou milhares de pessoas à morte num ato de violência criminosa e deixou um recado aos líderes do mundo democrático: encontrem soluções e o façam juntos", afirma George Robertson, secretário-geral da Otan.

A conseqüência dos atentados terroristas foi imediata. A Otan teve de redefinir seus objetivos, que já haviam sido revistos há apenas três anos em Washington, e aumentar a capacidade de defesa da aliança. Todas as forças devem ser unidas na luta contra o terrorismo.

"A defesa coletiva permanece sendo a tarefa principal, mas caiu para segundo plano diante da mudança da situação estratégica. A luta contra o terrorismo ganhou o primeiro plano", diz Joschka Fischer, ministro do Exterior da Alemanha.

Cobranças aos europeus – Em Praga, os membros da Otan fazem o primeiro balanço desta sua nova etapa. Sobretudo os Estados Unidos querem respostas para várias perguntas. A que ponto os parceiros da organização estão equipados para a luta contra o terrorismo? Como eles podem contribuir mais para a aliança, apoiada principalmente na capacidade militar dos EUA? Como as forças armadas dos aliados europeus podem ser modernizadas?

Os parceiros do velho continente têm consciência de seu déficit. Washington exige progressos, em particular no que diz respeito à capacidade de transporte dos europeus, pois há muito a área de atuação da Otan deixou de ser definida regionalmente. A aliança já ampliou-a para além dos limites de seus países membros, ao incluir as regiões instáveis do planeta.

"Acho que são necessários investimentos mais altos para melhorar as capacidades de comunicação e navegação, assim como dos serviços secretos. Precisamos de informações precisas sobre o adversário potencial e onde nossas próprias forças estão localizadas. Há muito o que fazer", expõe Donald Rumsfeld, secretário de Defesa dos Estados Unidos.

Tropas de reação rápida – Desde o encontro de ministros da Defesa em Varsóvia, em setembro, a Otan ocupa-se ainda de outra proposta concreta dos EUA. A aliança irá criar uma tropa móvel de intervenção, formada por soldados de elite, que possam ser transferidos em curto prazo para áreas de crise. O Conselho da Otan, a mais alta instância da organização, já aprovou o projeto. Falta agora os chefes de Estado e governo da aliança selarem oficialmente em Praga sua criação.

Certamente ainda há arestas a aparar entre a política da Otan e a de segurança e defesa da União Européia, que também caminha para a formação de uma tropa de intervenção rápida. Embora a Otan e a UE não sejam formadas exatamente pelos mesmos membros, muitos vêem uma duplicidade de tropas desnecessária.

Em todo o caso, para a Organização do Tratado do Atlântico Norte, a criação de seu contingente de intervenção em áreas de crise é uma tentativa de dar novo significado à aliança, dando a ela instrumentos adequados à situação contemporânea. Por isto, o encontro de cúpula de Praga é visto, por Robertson, como muito mais do que o da expansão para o Leste. Para o secretário-geral da Otan, a conferência é o reinício da Otan.

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