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Esporte

A polêmica em torno da chuteira de Messi

Em entrevista a um programa de televisão, jogador argentino doou um par de chuteiras para ser leiloado com fins beneficentes. O que ele não sabia é que sapatos são um insulto para a cultura árabe.

Com uma expressão aflita no rosto, Mona el-Sharkawy, apresentadora do programa de televisão Yes, I am famous, do canal saudita MBC Masr, não pareceu muito confortável ao receber um presente de seu entrevistado especial, Lionel Messi, grande ídolo do futebol mundial.

O jogador argentino doou ao programa um par de chuteiras exclusivo, modelo Pibe de Barr10, que será leiloado e sua receita doada para instituições de caridade. Sharkawy, por sua vez, se esforçou para sorrir enquanto mostrava para a câmara o presente, meio desajeitada – talvez prevendo a polêmica que chegaria como uma avalanche.

Em quase qualquer outra parte do mundo, a chuteira criada pela Adidas exclusivamente para Lionel Messi seria um objeto requisitado. No mundo árabe, no entanto, ela se tornou uma afronta. O presente é agora símbolo de um suposto insulto por parte de Messi – e tem dividido a opinião pública no norte da África, onde a entrevista foi exibida.

"Sapatadas" famosas

Messi – que é um esportista e não um político – entregou o presente cheio de boas intenções. O que o jogador evidentemente não sabia é que, na cultura árabe, sapatos são considerados sujos, de pouco valor, e representam o que há de mais desprezível nos seres humanos. De fato, não é uma grande ofensa mostrar a sola dos sapatos a um inimigo.

Há apenas uma ofensa maior do que essa: jogar sapatos em alguém. Em dezembro de 2008, o jornalista iraquiano Muntazer al-Zaidi lançou seus calçados contra o então presidente dos Estados Unidos, George Bush, em Bagdá. "Isso é pelas viúvas e órfãos, e todos aqueles mortos no Iraque", gritou o agressor.

Mais recentemente, em 2013, no Egito, o então presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, também sofreu um "atentado" semelhante, perpetrado por seus adversários políticos.

Nas sociedades que professam o islamismo, o poder do sapato como arma é maior que no resto do mundo. Também é considerado rude e descortês cruzar as pernas e deixar à mostra o calçado e sua sola. Não é em vão que os muçulmanos tiram o sapato para orar, e entram descalços nas mesquitas.

O afegão Murtaza Ahmadi, de 5 anos, mexeu com o coração de Messi e acabou ganhando uma bola e duas camisetas oficiais autografadas

O afegão Murtaza Ahmadi, de 5 anos, mexeu com o coração de Messi e acabou ganhando duas camisas autografadas

A ignorância do bom coração

O Parlamento do Egito e a Federação Egípcia de Futebol classificaram o gesto de Messi como ultrajante. O apresentador Said Hasasin, por sua vez, tirou seu sapato em frente às câmeras e o ofereceu à Argentina, "onde também há pobres".

No Twitter, a polêmica alcançou grandes proporções e se tornou o assunto do dia. Vários internautas expressaram seu desconforto com grande furor.

"Messi leiloa suas chuteiras para os pobres do Egito. Realmente o Egito atravessa tempos especiais. Temos agora que viver dos sapatos do Messi", escreveu uma jovem no Twitter. "O problema é essa gente sem nível que se alegra em receber uns sapatos usados", disse outro internauta.

Ainda assim, há pessoas que defendem as boas intenções de Messi. "A coisa mais preciosa que um escritor tem é sua caneta, e a coisa mais preciosa que um jogador tem são suas chuteiras", escreveu no o ex-jogador de futebol egípcio Mido.

Mona El-Sharkawy, a jornalista que entrevistou o argentino, declarou que Messi "nunca disse que suas chuteiras eram para caridade no Egito".

A estrela do Barcelona, ao desconhecer o alcance de sua doação, acabou sendo vítima de um ato de boa vontade – algo que não é incomum vindo dele.

Há poucos dias, ao ver a foto de Murtaza Ahmadi – um afegão de 5 anos que usava uma reprodução da camiseta da Argentina, feita com um saco plástico, trazendo o nome do argentino –, Messi enviou ao menino em Cabul, por meio da Unicef, uma bola e duas camisetas autografadas.

O jogador tem recebido reconhecimento internacional por sua relação com trabalhos beneficentes – pessoalmente ou através de sua fundação, com a qual apoia projetos no Nepal, norte da África e América Latina.

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