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Cultura

A literatura que vai para o frio

Antártida: frio, gelo eterno, pingüins, pesquisadores. E uma biblioteca com estantes de madeira, sofá de couro e mil livros doados por personalidades. Um projeto do artista plástico alemão Lutz Fritsch.

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Estação Neumayer abrigará a primeira biblioteca antártica

Gelo e neve, até aonde os olhos alcançam, é a vista da estação alemã de pesquisa Neumayer, no norte do Mar de Weddell. Isso, quando é possível ver alguma coisa, já que durante metade do ano reina escuridão absoluta.

Numa das regiões mais inóspitas do planeta, os seres humanos estudam o clima mundial. O gelo de milhares de anos guarda informações preciosas sobre as condições climáticas de eras passadas. Por isso, para climatologistas e geólogos, a Antártica é o arquivo da Terra. Seus laboratórios são templos da ciência funcional: entre lâmpadas fluorescentes e aparelhos de medição parece não haver lugar para literatura e arte.

Livros em meio ao gelo eterno

Pois é justamente na Neumayer que o artista plástico Lutz Fritsch, de Colônia, pretende inaugurar sua Biblioteca no Gelo, convidando a uma expedição literária. Para tal, está reunindo mil livros doados por cientistas e artistas de destaque. Entre eles, os escritores Günter Grass e Christa Wolf e o diretor de cinema Tom Tykwer ( Corra, Lola, Corra). O navio quebra-gelo Polarstern já levou até o Pólo Sul o contêiner especial para a biblioteca e os livros seguirão no próximo ano.

O escultor quer formar um contraste à sobriedade do ambiente dentro da estação de pesquisas: "Somente lá, longe da civilização, tomamos consciência do que é excessivo aqui", explica. Fritsch já passou duas longas temporadas na região e gostaria de criar, com sua biblioteca, um "local no gelo para meditar sobre nosso mundo veloz, frenético".

Estantes de cerejeira e sofá de couro

O contêiner termicamente isolado encontra-se desde o início de dezembro ao lado da estação Neumayer. Com suas paredes externas verdes e teto cor-de-rosa, ele brilha como um brinquedo de montar, contrastando fortemente com a monotonia circundante. O interior convida a relaxar e refletir: estantes de cerejeira e um sofá de couro marrom irradiam calor e aconchego. Uma janela mínima sobre a mesinha de leitura revela ao olhar o infinito deserto de gelo e o horizonte vazio.

Fritsch pediu aos doadores literários que escolhessem uma obra especialmente apropriada à situação fora do comum dos habitantes da estação. Nos longos e escuros meses do inverno polar, eles só se comunicam com o mundo externo através de rádio e satélite. Günter Grass propôs seu próprio Anos de Cão, enquanto a seleção de Tykwer foi o complexo romance O Plano para Banir a Escuridão, do dinamarquês Peter Hoeg ( Senhorita Smilla e o Sentido da Neve).

O original projeto artístico-literário tem apoio do Instituto Alfred Wegener de Pesquisa Marinha e Polar (AWI), sediado em Bremerhaven, que providenciou o contêiner especial e seu transporte. O escultor Fritsch vai financiar a decoração da biblioteca com a venda de bibliocantos de alumínio exclusivos. Por mil euros, o comprador recebe um exemplar com a gravação "Biblioteca no Gelo". A contraparte, com o nome do patrocinador gravado, ficará na biblioteca polar.

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