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Brasil

A história de Berlim contada pelas plantas

Artista brasileira expõe na galeria Büro Friedrich uma arqueologia da flora de Berlim e resgata do solo o que os novos projetos arquitetônicos estão encobrindo.

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Terreno do futuro Memorial do Holocausto, com Potsdamer Platz ao fundo. Foto: Maria Thereza Alves

O que a exposição revela é apenas uma fina camada de um amplo experimento: vasos com plantas não nomeadas, em frente a uma fileira de fotos — com motivos paisagísticos e históricos — sem qualquer legenda que indique sua origem. O catálogo de Wake, a obra mais recente da artista plástica paulistana Maria Thereza Alves, residente em Berlim há quase três anos, promete esclarecer ao observador o que a exposição esconde.

A artista coletou amostras de terra de diversas áreas em construção de Berlim e deixou germinar as sementes encerradas no solo há décadas (ou séculos). Paralelamente, ela pesquisou a história dos 15 sítios escolhidos, estabelecendo uma ponte entre os indícios de uma flora incipiente, trazidos agora à luz, e os movimentos urbanos e históricos dessas áreas, a fim de rastrear a trajetória das sementes, em parte alienígenas em Berlim. O aparato científico por trás do projeto é apenas a moldura de uma obra que mostra o caráter casual e ficcional de todo experimento empírico.

Método e acaso — A correspondência com a especialista em botânica Heli Jutila delineia o processo de tentativa e erro que culminou com a germinação de parte das sementes. Apenas as plantas que floresceram adquirem o status de "informação", sendo submetidas a métodos classificatórios que permitem a formulação de hipóteses sobre sua possível origem. O que não floresceu, perdeu-se no limbo. O levantamento de informações históricas encerradas nos arquivos de Berlim também não está imune à intervenção do acaso. A historiografia serve apenas como base para a seleção de "estórias" fragmentárias, que destacam o valor contingente e o caráter construído de qualquer informação.

Contexto e ficção — A investigação no Gendarmenmarkt, por exemplo, leva Maria Thereza Alves a coletar pistas dos jardineiros huguenotes imigrados no início do século 18 e listar as plantas provavelmente trazidas de diversas partes do mundo — via Alsácia-Lorena — para Berlim. A seqüência de textos registra os rastros de moradores da área, como o escritor E.T.A. Hoffmann, ou de freqüentadores do tradicional local de vinhos Lutter & Wegner, como o poeta Heinrich Heine e o anarquista russo Mikhail Bakunin.

A relação entre texto e imagem se estabelece por livre associação dos motivos. Descontextualizados de uma historiografia sistemática, os registros facilmente podem se tornar ficção: será que o escritor Adalbert von Chamisso, refugiado francês que participou de uma expedição ao Pólo Norte, retornando a Berlim com 2500 amostras botânicas, chegou a mostrá-las a amigos curiosos no Lutter & Wegner? Assim como as sementes trazidas a Berlim como illegal alliens se destacam da flora local como "acidentes" botânicos, os fragmentos da história do cotidiano compilados pela artista, em palavra e imagem, tornam-se curiosidades ficcionais, ao serem extraídos de seu contexto historiográfico.

Subsolo e memória — As sementes coletadas em Wake foram expostas à luz durante os trabalhos de construção da nova capital alemã. Em certas áreas, elas brotaram, constituindo uma flora efêmera, a ser recoberta pelos novos edifícios. Um dos sítios pesquisados por Maria Thereza Alves é o terreno onde o Memorial do Holocausto começou a ser construído há cerca de uma semana. As lápides do memorial do arquiteto norte-americano Peter Eisenman encobrirão em breve não apenas o local onde ficava o bunker de Adolf Hitler, mas também uma flora que contém indícios significativos da história das correntes migratórias na cidade. Um memorial apagando involuntariamente parte da memória da cidade, para resgatá-la de uma forma mais institucionalizada.

Maria Thereza, paulistana de uma família indígena brasileira emigrada para os EUA, projetou Wake em reação ao caos urbanístico de Berlim, cujas imensas construções apagaram ruas e pistas da própria história, causando uma sensação de desorientação a quem andava pela cidade nos últimos anos. O projeto traça uma cartografia especulativa de Berlim, em que texto e imagem se relacionam de uma forma bem pouco unívoca. Assim como o pedestre à procura de uma rua registrada no mapa, cabe ao observador achar seu caminho no labirinto de textos e imagens de Wake.