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A guerra de nervos entre Berlim e Atenas

Bernd Grässler (md)17 de junho de 2015

Muitos alemães estão perdendo a paciência com a Grécia. Merkel, entretanto, se dispõe a pagar caro para manter o país na zona do euro: uma ruptura definitiva poderia respingar em sua reputação.

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Symbolbild Griechenland Schuldenkrise
Foto: Reuters/Y. Behrakis

A palavra "grexit", cunhada para denominar a saída da Grécia da zona do euro, tem sido cada vez mais usada em Berlim. Políticos da coalizão que sustenta o governo alemão consideram o fracasso das negociações entre Atenas e seus credores não só possível – alguns veem a possibilidade como algo até mesmo desejável.

A paciência da população do país quanto ao tema também vai se esgotando. Apenas 41% dos alemães são a favor da manutenção dos gregos na zona do euro, segundo recente pesquisa de opinião encomendada pela emissora pública de televisão ZDF. Um tópico bastante explorado atualmente pelos programas de debate da TV alemã são as aposentadorias gregas, que Atenas se recusa terminantemente a cortar novamente. O sistema previdenciário grego é um dos mais caros na UE, a idade média de aposentadoria é menor do que na Alemanha.

Além disso, cresce a suspeita de que os bilhões emprestados pela Alemanha no decorrer da crise grega não voltarão mais, independentemente da saída de Atenas do euro. Cada vez mais alemães acreditam ser melhor que esse sofrimento acabe logo, seja de que maneira for.

No meio político berlinense, o tom em relação ao governo Alexis Tsipras é cada vez mais áspero. O vice-chanceler e líder social-democrata, Sigmar Gabriel, chegou acusar Atenas de fazer chantagem, em um comentário escrito para o tabloide Bild. Ele alertou que as promessas de campanha "exageradas" de "um governo parcialmente comunista" da Grécia não devem "ser pagas pelos trabalhadores alemães e suas famílias".

E se a Grécia sair da zona do euro?

O partido de oposição A Esquerda, o único em Berlim que defende o governo Tsipras com unhas e dentes, acusa Gabriel de estar querendo fazer alarde. Analistas suspeitam que o social-democrata quer, com seu ataque contra Atenas, fazer, mais uma vez, uma demonstração de personalidade em relação à chanceler alemã. Mas mesmo os oposicionistas do Partido Verde acreditam que a posição dura de Tsipras é algo difícil de compreender.

Quem fala sobre a Grécia nesses dias com a chanceler Angela Merkel ou com seu porta-voz, Steffen Seibert, recebe apenas uma informação: "Faremos tudo para manter a Grécia no euro." Além disso, ressaltam que o lugar onde as negociações estão ocorrendo é Bruxelas e que as decisões estão nas mãos do Eurogrupo. Berlim quer evitar acabar como vilão, caso as negociações falhem.

Plano B

Toda pergunta ao governo alemão sobre se há um "plano B" permanece sem resposta. Há dias que o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, não comenta publicamente sobre a Grécia. Rumores de que há divergências entre ele e Merkel são negadas oficialmente. Mas fato é que a questão virou uma prioridade governamental.

Segundo a revista Der Spiegel, Merkel está disposta a pagar um preço elevado para a permanência da Grécia no euro, coisa que Schäuble não está disposto. Alguns parlamentares do partido de Merkel também não estão. E o Parlamento alemão também tem que dar seu aval, caso seja acertada nos próximos dias uma mudança no atual programa de resgate durante as negociações entre Atenas e seus credores. Então, ele teria que se reunir rapidamente. Neste caso, os correligionários do governo Merkel dificilmente se recusarão a apoiar, mesmo havendo outras concessões à Grécia.

E, ironicamente, o governo grego deposita todas as esperanças na chanceler alemã, que já foi ofendida por manifestantes em Atenas com cartazes com caricaturas nazistas. O ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, pede até mesmo que ela faça um speech of hope a seu povo, como fez o então secretário de Estado dos EUA, James F. Byrnes, à Alemanha, após a Segunda Guerra Mundial.

Byrnes prometeu na época apoio econômico aos alemães. Varoufakis acredita que, depois de um discurso semelhante de Merkel, o povo grego "daria vivas" à chanceler, que poderia, então, "assumir a liderança – não só em relação à Grécia, a toda a Europa".

Brüssel Celac Gipfel Merkel Tsirpas
Merkel e Tsipras: guerra de nervos à moda europeiaFoto: picture-alliance/epa/O. Hoslet

Início do fim

"Se o euro fracassar, a Europa toda fracassa", afirmou Merkel há cinco anos no Bundestag. Seu porta-voz enfatizou que isso ainda continua valendo. A saída da Grécia pode ser o início do fim da zona euro. Isso seria também o fim da liderança europeia de Merkel e um fiasco pelo qual ela seria vista como a principal culpada.

Economistas como o Prêmio Nobel Joseph Stiglitz avisam que a saída da Grécia pode custar tão caro como o colapso do Lehman Brothers, que deu desencadeou a crise financeira global em 2008. Outros veem a coisa de forma menos dramática, mas ninguém sabe ao certo como seria. O governo grego parece estar apostando em um acordo de último minuto na cúpula da UE na quinta e sexta-feiras da próxima semana, poucos dias antes de o atual programa de resgate expirar.

Na mais recente reunião do diretório de seu partido, a CDU, em Berlim, Merkel teria dito que acredita que o governo de Tsipras quer ver quem tem os nervos mais fortes. "Bem, então, veremos", concluiu.