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Mundo

A "grande nation" dos que não têm nada a perder

A metáfora do "barril de pólvora" ganhou nos subúrbios de Paris um significado literal. Jovens filhos de imigrantes deixam mais de 1300 veículos incendiados e dezenas de estabelecimentos danificados.

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Jovens nas ruas e governo inerte

O que os jornais europeus chamam de guerrilha se assemelha ao que os brasileiros conhecem quando os excluídos do morro resolvem descer até o asfalto, para reivindicar, através da linguagem da violência, os direitos que lhes são negados no dia-a-dia.

O problema é que quando os jovens na periferia de Paris deixam carros em chamas nos bairros onde moram, são seus vizinhos, pobres da mesma forma, que arcam, quase sempre, com as conseqüências. Os veículos em chamas que se vê pela TV são, em sua maioria, "do excluído que mora ao lado". Mesmo que neste domingo (06/11) a violência tenha se aproximado lentamente da sala de visitas burguesa dos bairros mais ricos da cidade.

Distantes do charme de 68

Studentenrevolte in Paris 1968

Estudantes nas ruas de Paris, em 1968

Desde janeiro deste ano, as autoridades francesas registraram no país 70 mil casos de vandalismo, incêndios provocados e violência de gangues. Nada menos que 28 mil carros foram danificados desde o início do ano. Mas ao contrário das imagens lendárias de 1968, não são intelectuais de plantão nem filhos da classe média branca e rica que vão às ruas em nome de um mundo melhor.

Desta vez são as próprias vítimas, falando em nome de ninguém a não ser delas próprias. Falando, porém, para as paredes. Pois tudo o que o presidente francês, Jacques Chirac, fez até agora, foi um único pronunciamento pedindo calma. Depois disso, silêncio tumular.

Enquanto isso, analisa o semanário alemão Der Spiegel, o primeiro-ministro Dominique de Villepin e o ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, continuam "brincando de bonzinho e malvado". O primeiro recebe representantes dos jovens revoltosos e prefeitos da periferia em seu gabinete, em meio a promessas de um "grande plano de ação" para o futuro, enquanto o segundo só conhece a linguagem da força prometendo restituir "a ordem no país".

Danos políticos

Dominique de Villepin und Nicolas Sarkozy Pressekonferenz

Nicolas Sarkozy e Dominique de Villepin

Quando a situação voltar "à normalidade" – seja ela qual for – uma coisa é certa: o atual governo francês deverá pagar pela falta de perspicácia e agilidade para lidar com o problema. "Os danos políticos vão ser maiores ainda, pois no país a insegurança se instala. Os franceses começam a se perguntar se esta ainda é a sua França", comenta o Der Spiegel.

No momento, há um sem número de sociólogos e cientistas políticos explicando as causas dos conflitos. Os jovens se sentem ignorados por um sistema social que fecha os olhos para seus problemas, etc, etc, etc. O que a Europa talvez esqueça quando fala das "hordas de imigrantes", dos 10% de holandeses que nasceram fora do país, dos jovens confinados a guetos nas grandes cidades, é que a imigração não deixa de ser o troco de uma conta mal paga. A conta de um longo passado colonial, hoje esquecido e ignorado.

Os netos do colonialismo

Tanto na França quanto no Reino Unido são os netos ou bisnetos do colonialismo que vêm "às metrópoles" em busca de melhores chances. "A zona de combate se amplia, exatamente como formula o pálido escritor Michel Houellebecq em seu bestseller. E bem parece que os imigrantes desenraizados poderão modificar dramaticamente a vida na Europa. Os subúrbios de Paris dão apenas uma idéia de como isso será", profetiza em tom de pavor o Der Spiegel.

Freies Bildformat, Neuer Höhepunkt der Gewalt in Frankreich

Saldo dos conflitos: ônibus e carros danificados

Agências de turismo, quem diria, já começam a aconselhar os viajantes a "evitar Paris". Embaixadas estrangeiras na França recomendam em seus sites distância de qualquer bairro de periferia da capital.

E enquanto as massas insatisfeitas gritam "agora basta", o premiê Dominique de Villepin continua insistindo na existência de planos maquiavélicos e "na estratégia dos bandos". Acreditando mesmo que se trata de bandos anônimos, violentos e sem rosto, como nos livros de Houellebecq?

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