″A Europa não tem direitos autorais sobre o Esclarecimento″ | Cultura europeia, dos clássicos da arte a novas tendências | DW | 14.12.2008
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Cultura

"A Europa não tem direitos autorais sobre o Esclarecimento"

O escritor Hans-Magnus Enzensberger ressalta em entrevista a relevância do intercâmbio entre as culturas e lembra a civilização muçulmano-judaico-cristã na Andaluzia do passado como exemplo de convivência pacífica.

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Hans-Magnus Enzensberger

Presente em um encontro intitulado "Diálogo Cultural Teuto-Árabe", em Dubai, o escritor Hans-Magnus Enzensberger alfineta a Europa pela arrogância ao reclamar para si "os direitos autorais sobre o Esclarecimento" e adverte que uma cultura "pode morrer de sede ao se isolar". Leia abaixo a íntegra da entrevista com o escritor:

DW-WORLD.DE: O senhor afirmou que a postura dos europeus de reclamarem para si a autoria do Esclarecimento seria uma meia-verdade. O que o senhor quis dizer exatamente com isso?

Enzensberger: Como se pode verificar a partir de uma leitura das diversas designações do Esclarecimento, estamos diante de um fenômeno muito complexo, com diferentes nuances e parâmetros, dependendo do país e do idioma. O Esclarecimento é uma obra da humanindade, que carrega consigo todas as contradições e todos os paradoxos inerentes a ela.

No meu discurso, quis despertar a consciência das pessoas em relação ao fato de que os europeus não possuem o copyright sobre o Esclarecimento, mesmo que muita gente no Ocidente remeta ao exemplo da Grécia antiga como modelo. As diversas tentativas de muitos europeus de reclamarem para si a autoria do Esclarecimento levam, na melhor das hipóteses, a meias-verdades.

Minha intenção é lembrar que o chamado Ocidente tende a esquecer o fato de que, por muitos séculos, antes que David Hume, John Locke, Diderot e Immanuel Kant escrevessem suas obras antológicas, a civilização islâmica vivia seus tempos áureos na Andaluzia árabe.

Heilige Bücher der Religionen, Bibel, Koran, Tora

Bíblia, Alcorão e Torá: tradições das três grandes religiões monoteístas conviviam pacificamente na Andaluzia do passado

A Andaluzia árabe foi, por dois séculos, um inesquecível centro de pesquisa em Filosofia e Ciências Naturais. Ali, muçulmanos, judeus e cristãos levaram a cabo debates críticos a respeito de todas as questões possíveis. E não receavam controvérsias religiosas. Sem isso, a tradição aristotélica teria muito provavelmente se extinguido.

Dante e Nicolau de Cusa, Giordano Bruno e Espinosa criaram suas obras graças a seus mestres islâmicos, da mesma forma que a astronomia moderna, a lógica, a ótica, a matemática, a medicina e também a poesia se desenvolveram graças à herança destes mestres. Como todos nós sabemos, esse período áureo não durou muito.

Não se pode evitar a pergunta: diante da imagem triste que a cultura islâmica passa hoje, há necessidade de um novo Esclarecimento no sentido europeu do termo?

No que diz respeito ao atraso nas regiões islâmico-árabes, estamos diante de verdades amargas, principalmente no âmbito da educação. O número de traduções para o árabe ilustra esse estado: desde os dias do califa Al-Mamun, ou seja, no decorrer de 1.200 anos, tivemos, até há pouco tempo, muito poucos livros traduzidos para o árabe. Tão poucos quanto são publicados num único ano na Espanha hoje.

Diante desta miséria evidente, perguntar se o mundo árabe ou até o mundo islâmico precisam de um novo Esclarecimento é, sem dúvida, de extrema importância. Esta pergunta, porém, não pode ser respondida por alguém de fora. São os pensadores, poetas e artistas árabes que devem decidir a respeito. Na minha opinião, cada cultura deveria seguir seu próprio caminho em direção à Modernidade. A diversidade dos caminhos rumo à Modernidade iria enriquecer a humanidade de forma geral.

Adolf Muschg eröffnet das Schillerjahr in der Akademie der Künste

Adolf Muschg

O escritor suíço Adolf Muschg acentuou, numa conferência pelo diálogo teuto-árabe em Dubai, o papel da cultura, no contexto das relações internacionais, acima de tudo como instrumento de aproximação e compreensão entre os povos. Pois a cultura, segundo ele, detém um "potencial revolucionário". O senhor concorda com esse ponto de vista?

O fato de que aqui se encontram escritores e formadores de opinião de renome, alemães e árabes, num "diálogo cultural teuto-árabe" – a fim de conversar uns com os outros sobre o que têm em comum, mas também defender, com uma abertura rara, posições distintas – mostra que os mentores da cultura podem mover alguma coisa para além dos âmbitos da política e da economia.

Podemos, nestes encontros, aprender muito uns com os outros, desmascarando dualismos simplistas e caricaturas. Autores alemães conhecem aqui autores árabes significativos e ficam sabendo, por exemplo, através do autor marroquino Mohammed Abed Al-Jabri, como é difícil, na maioria dos países árabes, tratar publicamente de temas críticos de maneira controversa, porque a tradição e a razão do Estado proíbem [tais discussões].

O que o senhor acha do intercâmbio cultural como forma de promover a paz, no sentido da visão de uma sociedade ancorada num saber global?

Esta pergunta é de extrema importância nos dias atuais. Vou me resguardar de tirar qualquer conclusão aqui a esse respeito. Uma coisa pode-se dizer, porém, com certeza: encontros deste tipo podem promover a compreensão mútua e, com isso, incentivar uma convivência pacífica. No que diz respeito ao intercâmbio cultural, tomo a liberdade de apontar um fato: qualquer cultura morre de sede, com o tempo, quando se isola e rejeita o livre intercâmbio de pensamento.

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