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Mundo

"A dupla face da política ocidental tem que ter um fim"

O teólogo Hans Küng vê uma co-responsabilidade do Ocidente na discussão em torno das caricaturas do Profeta Maomé. Em entrevista à DW-WORLD, ele apela por uma tomada de reflexão do mundo ocidental.

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Hans Küng, teólogo e crítico da Igreja

DW-WORLD: Os protestos violentos contra as caricaturas de Maomé perduram em muitos países árabes. Neste contexto, a tese da "guerra das culturas" de Samuel Huntingtons sai fortalecida. Neste caso, há uma confirmação desta tese?

Hans Küng: Não, a tese é e continua errada. Culturas por si não fazem guerras. Uma política errônea, entretanto, pode fazer com que ela se torne realidade, tornando-a uma profecia que se realiza por si mesma. Se o Ocidente continuar seguindo uma política que estimula os ressentimentos muçulmanos, o resultado será uma perigosa escalada.

O senhor quer dar a entender que o Ocidente é co-responsável pela escalada da violência?

Primeiramente, eu quero deixar claro que condeno esta erupção de violência e que considero inaceitáveis as declarações abusivas do presidente iraniano Ahmadinejad. Mas agora seria absolutamente necessário levar o Ocidente a uma auto-reflexão e aceitar que muitos erros foram cometidos.

O que foi feito de errado?

Em vez de acreditar em ações policiais, leva-se a cabo uma guerra evitável no Afeganistão. No Iraque, nos deparamos com uma guerra moralmente insustentável e contrária ao Direito Internacional. Na Chechênia, apóia-se um regime opressor e há decadas que a fundação de um Estado palestino, coeso e duradouro, é postergarda. Ao se ver tudo isto, não é de se espantar que hoje o mundo muçulmano esteja armazenado de frustração, ira e raiva que a qualquer momento pode explodir.

O estopim dos atuais arroubos de violência foram as diversas caricaturas do Profeta Maomé. Os chargistas foram longe demais?

Eu não quero aqui criticar a mídia de uma forma genérica. Existem sobre o tema bons comentários, muitos dos quais até mesmo autocríticos. Mas tenho que salientar que a liberdade de imprensa também envolve uma responsabilidade da imprensa. Para o InterAction Council dos antigos chefes de Estado e de governo, sob a presidência do ex-chanceler federal Helmut Schmidt, eu organizei uma declaração de responsabilidade para a imprensa.

E lá está escrito no parágrafo 14: "A liberdade de mídia traz consigo a responsabilidade de um relato preciso e verdadeiro. Reportagens sensacionalistas que aviltem a pessoa ou a dignidade humana devem sempre ser evitadas". Naquela época, várias organizações de imprensa protestaram contra esta declaração. Evidencia-se hoje a necessidade urgente de que, com a liberdade de imprensa, a responsabilidade da imprensa também seja salientada.

Os chargistas não observaram a responsabilidade da imprensa?

Eles quebraram diversos tabus de uma vez só. O Islã é contra a representação religiosa da figura humana e não quer ver o Profeta sendo retratado, evitando assim qualquer tipo de idolatria. Quando então se traz este Profeta em forma de caricaturas, acompanhadas de símbolos terroristas e armas modernas, então se foi longe demais.

Se caluniar indivíduos e organizações, como por exemplo no caso da negação do Holocausto, é passível de processo penal, então não é o caso de se poder abusar arbitrariamente de símbolos religiosos. Isto não vale somente para o Profeta Maomé, como também para Jesus Cristo. Eu já me irritei várias vezes com a forma leviana e insolente com que Jesus de Nazaré é tratado. Isto vai longe demais, e uma reflexão seria urgentemente necessária.

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