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Alemanha

A cotação do rim

Congresso em Munique discute a possibilidade de legalizar “doações recompensadas” de órgãos humanos. Apesar da proibição oficial, o mercado negro floresce, principalmente às custas de doadores do Leste Europeu.

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Transplante liberta paciente da hemodiálise

Parlamentares alemães de todos os matizes mantêm-se estritamente contra a legalização de um comércio de órgãos humanos no país, defendendo a perpetuação da lei elaborada durante 20 anos e aprovada em 1997, que proíbe qualquer espécie de "recompensa financeira" em troca de um rim ou fígado, por exemplo. Apesar disso, o cirurgião Christoph Broelsch, da Universidade de Essen, deflagrou um escândalo em junho último, ao tornar pública uma discussão que já vinha se arrastando entre os especialistas da área.

Para Broelsch, citado então pelo semanário Die Zeit, seria necessário oferecer "algum tipo de proveito" ao doador vivo, precisando-se discutir "se o indivíduo e a sociedade, de forma ordenada, não poderiam aceitar outras motivações" para uma doação além do parentesco e da proximidade, única possibilidade reconhecida pelas autoridades alemãs.

Dez mil euros – O cirurgião sugeriu publicamente que as seguradoras de saúde passassem a oferecer dez mil euros a pessoas que se dispusessem a doar um rim, parte do fígado ou pulmão. Esses custos, segundo ele, seriam "amortizados" no montante que não seria gasto com a hemodiálise do paciente, por exemplo. Para a especialista em questões de saúde do Partido Verde alemão, Christa Nickels, os argumentos usados por Broelsch só vêm a reafirmar situações em que o homem "continua a ser explorado a serviço de outros".

Esta é também a posição oficial do Conselho Federal dos Médicos Alemães. "A doação de órgãos é uma expressão de amor entre as pessoas e não deve ser associada a estímulos materiais. Quem defende um pagamento por isso, abre as portas para o comércio de órgãos e enterra a disponibilidade da população em doar", publicou o então presidente do Conselho, Jörg-Dietrich Hoppe.

A mesma postura é também defendida pela Associação Alemã de Pacientes de Hemodiálise, que alerta contra quaisquer tentativas de compra de órgãos. "Quem deve determinar o valor em dinheiro de um rim?", questionam os representantes da Associação.

Primo pobre – A controvérsia trouxe o tema à tona, principalmente depois que se tornou conhecido o caso de um paciente israelense que veio especialmente à Alemanha receber, pelas mãos de Broelsch, o rim de um cidadão moldávio, apresentado como seu primo. Após terem sido examinados por uma Comissão de Ética do Instituto de Psicossomática da Universidade de Essen, doador e receptor tiveram o pedido de transplante negado.

Ärzte bei der Arbeit im Operationssaal

Especialistas levantaram a suspeita de que o parentesco entre os dois envolvidos teria sido forjado e de que o doador havia sido pago para estar ali. O cirurgião Broelsch, imbatível, enviou seu paciente à cidade de Jena, no leste alemão, onde não havia ainda uma tradição no controle rigoroso de transplantes, como em Essen. Ali, o israelense recebeu tranqüilamente, a 6 de dezembro de 2001, o rim do modávio, em uma operação conduzida a quatro mãos: pelo cirurgião da Universidade de Jena e por ninguém menos que Broelsch.

Congresso para a defesa? – Enquanto a Academia Alemã de Medicina de Transplantes abre nesta terça-feira (10) um congresso internacional sobre o tema, encabeçado, entre outros, pelo próprio Broelsch, a Promotoria Pública alemã investiga o caso. Segundo informa o Die Zeit, mais de 20 pacientes israelenses apresentaram-se recentemente em Essen para terem rins transplantados. Muitos deles trouxeram doadores moldávios.

O tema do comércio de órgãos humanos, no entanto, saiu há muito dos domínios dos especialistas para chegar às páginas dos jornais. O problema básico é a demanda excessiva de órgãos para transplante, se comparada à oferta de doadores (cadáveres ou vivos). Segundo dados divulgados pela Fundação Alemã de Transplante de Órgãos, somente no ano de 2001 havia 9,5 mil pacientes na lista de espera por um rim, ao lado de apenas 2346 transplantes renais realizados.

Indústria da doação – Enquanto isso, o mercado negro internacional de órgãos humanos floresce, tornando-se uma atividade rentável para poucos "corretores", responsáveis por uma rede de exploração de doadores pobres e mal informados. Um dos principais países "fornecedores" de órgãos é a Moldávia, uma das nações européias mais pobres, onde a média salarial mensal fica em torno de 25 euros. Ali, agricultores miseráveis e desesperados são freqüentemente convencidos a vender um rim por cerca de cinco mil dólares. No mercado negro internacional, o órgão é "cotado" entre três e cem mil dólares.

Turismo medicinal – Ao mesmo tempo, pacientes ricos de hemodiálise, mundo afora, desistem das listas oficiais de espera e rodam o planeta em busca de um rim. Segundo o Die Zeit, "ingleses e alemães voam até a Índia, japoneses aos EUA e americanos vão ao Peru ou ao Brasil. O comércio é organizado profissionalmente e declarado com freqüência como turismo medicinal".

A ONG norte-americana Organs Watch, que investiga o tráfico de órgãos em todo o mundo, levantou há pouco a suspeita de que os casos de 18 crianças do interior de Pernambuco, supostamente adotadas por casais estrangeiros, poderiam estar ligados ao comércio internacional de órgãos.

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