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Cultura

"A arte trilha o caminho para a globalização"

Em entrevista à DW-WORLD, Gerd Meyer, professor do Instituto de Ciências Políticas da Universidade de Tübingen, fala sobre a herança do socialismo no Leste Europeu e sugere uma nova definição do conceito de identidade.

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Obra do artista eslovaco Roman Ondak, na exposição 'Cruzando Fronteiras'

Mais estáveis que instituições e edificações são as mentalidades, acredita o professor Gerd Meyer, do Instituto de Ciências Políticas da Universidade de Tübingen, ao analisar modelos de comportamento no Leste Europeu e as dificuldades acarretadas pelas mudanças após o fim da Cortina de Ferro.

A partir de uma exposição de artistas plásticos da região no Fórum de Arte Galerias do Leste Alemão (Kunstforum Ostdeutsche Galerien), que acontece em Regensburg, no sul da Alemanha, Meyer analisa o papel da arte na era da globalização.

DW-WORLD: Como cientista político, o senhor estudou o processo de transformação nos países do Leste Europeu, especialmente a busca subjetiva e coletiva de identidade nesta região. O senhor fala da paciência que é necessária para remodelar uma cultura política essencialmente autoritária e criar uma cultura política democrática. Por que esse processo é tão difícil e demanda tanta paciência?

Gerd Meyer: As mentalidades herdadas e, bem ou mal, ancoradas – ou seja, os valores e as visões de mundo, os modelos de pensar e de comportamento – de uma geração que cresceu no sistema socialista não são cambiáveis a curto prazo. Esses modelos persistem de forma muito mais obstinada do que instituições, elites ou mecanismos econômicos, pois foram introjetados como uma obviedade, mesmo que não necessariamente de forma consciente.

Old habits die hard, como se diz na Inglaterra, ou seja, os velhos hábitos custam a morrer. Entre esses hábitos antigos nas sociedades do Leste Europeu está, entre outros, uma expectativa exacerbada em relação a um Estado protetor, que cuida de tudo, e falsas expectativas em relação à democracia, ao pluralismo e à tolerância frente a outras culturas.

No Fórum de Arte Galerias do Leste Alemão (Kunstforum Ostdeutsche Galerien), em Regensburg, estão no momento expostos trabalhos de artistas contemporâneos do Leste Europeu numa mostra intitulada 'Cruzando Fronteiras'. O que está ali pode ser considerado arte política?

Roza El Hassan

Performance da artista húngara Róza El-Hassan

A resposta depende, a princípio, do que se entende sob o conceito de "político". Sem querer me estender muito: poucas são as obras relacionadas a temas públicos ou a assuntos que poderiam ser discutidos e decididos na esfera política. No entanto, essas obras mostram como mudanças sociopolíticas surtem efeitos na postura de indivíduos, em seus sentimentos e visões de futuro.

Além disso, essas obras são também provocações nos países de origem destes artistas, onde as pessoas não estão acostumadas com certo tipo de comportamento. Ou seja, desta forma, a arte contribui para uma maior tolerância e abertura.

Ao comentar estas obras, o senhor fala de uma herança positiva e de uma negativa do socialismo. O que seria positivo e o que o Ocidente poderia aprender com estes artistas?

Quando falei em momentos positivos da herança socialista, não pensei exatamente nas obras aqui expostas, mas pensei na herança de uma forma mais abrangente. Referi-me aos potenciais humanos nestas sociedades, às experiências positivas com a comunicação entre as pessoas, à solidariedade no dia-a-dia, à proximidade e à igualdade, à coragem e auto-afirmação no cotidiano. E principalmente em relação às revoluções pacíficas de 1989/90, à experiência do poder dos até então impotentes e da impotência dos poderosos.

Há nessas experiências por que passaram as sociedades do Leste Europeu um grande potencial humano e cultural, do qual as antigas democracias liberais do Ocidente não dispõem. São experiências com um sistema passado e fracassado, mas que permitem às pessoas enxergar as oportunidades da nova ordem e as dificuldades da transformação com uma força, serenidade, paciência e sobriedade muito específicas.

Missirkov Bogdanov

Obra do fotógrafo búlgaro Missirkov Bogdanov

Na exposição, o indivíduo que cruza fronteiras é colocado como uma forma de existência necessária à sobrevivência no mundo globalizado. Isso significa que nossos conceitos de identidade vão ser modificados num futuro próximo? Os artistas são os pioneiros da globalização?

Nossa concepção de uma formação de identidade "que deu certo" precisa ser modificada frente às condições de vida nas sociedades desenvolvidas "pós-modernas", com seus sistemas econômicos liberal-capitalistas interligados globalmente. Por um lado, continua havendo a necessidade, talvez até subjetiva, de se identificar com algo considerado um valor na sociedade em que se vive. Esta busca por um porto seguro e de proteção é legítima.

Por outro lado, é discutível se hoje, no contexto do pós-moderno, ainda podemos encontrar identidades estáveis, que ofereçam princípios construtores fundamentais para indivíduos, grupos, sociedades ou nações. E mais radical ainda é a pergunta: ainda precisamos destas identidades?

Será que elas não são até mesmo perigosas, em termos de determinações e exclusões, e podem até contribuir para o surgimento de novas formas de arrogância e discriminação? As identidades não são essencialmente e acima de tudo aquilo que é vivido, produzido e comunicado, aqui e agora?

Neste sentido, a identidade poderia ser definida como aquilo que está sendo realizado, como o que está sendo feito agora, com a presença do acaso. Assim, a formação da identidade seria um processo aberto e nunca encerrado, uma afirmação e um questionamento contínuos do que está por vir e do desejo. Neste processo, os artistas são realmente pioneiros da globalização, principalmente em sociedades que não são consideradas pós-modernas.

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