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Cultura

A arte sem fronteiras de Roger Mello

Em evento de livros infantis dedicado ao Brasil em Colônia, na Alemanha, vencedor do prêmio Jabuti de literatura infanto-juvenil destacou a diversidade cultural brasileira em entrevista à DW Brasil.

Termina neste domingo (23/06) as Semanas Internacionais de Livros Infanto-Juvenis em Colônia, oeste da Alemanha, que tiveram o Brasil como país convidado. O ilustrador e autor Roger Mello foi um dos destaques do evento e deu entrevista exclusiva à DW Brasil sobre interculturalidade, arte e a diversidade do Brasil.

Mello foi objeto de uma exposição, "O fantástico reino de cores do ilustrador brasileiro Roger Mello". A mostra, no Altes Pfandhaus de Colônia, mostra a ampla produção do artista, que vai de ilustrações em traços finos até quadros panorâmicos de paisagens, passando por livros de cores fortes ou com destaque para tons acinzentados marcados por elementos individuais de cores vivas.

O que pode ser ressaltado na obra de Mello é a influência da cultura popular brasileira e o interesse do autor pela natureza. Mello também gosta de trabalhar temas atuais em suas obras, como o trabalho infantil numa metrópole, por exemplo.

DW Brasil: Você recebeu o prêmio Jabuti nas categorias literatura infanto-juvenil e ilustração com o seu livro "Meninos do Mangue", livro que também recebeu o prêmio internacional de melhor livro do ano 2002 na Suíça. Você é considerado hors-concours da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil e foi indicado como ilustrador para a edição de 2010 do prêmio Hans Christian Andersen, que é considerado o Nobel da literatura infanto-juvenil. Como começou a sua carreira?

Illustrationen Roger Mello EINSCHRÄNKUNG

Uma das ilustrações de Roger Mello

Roger Mello: Na verdade, eu não decidi ser ilustrador. Acho que foi a profissão que me escolheu. Desde criança desenho e desde criança gosto de desenhar coisas que são ligadas à narrativa, à história. Foram imagens sempre narrativas. Depois eu fui saber que isso tinha o nome de ilustração. O objeto que eu mais gostava e ainda gosta é o livro.

O Brasil é um país com muita diversidade. A sua obra mostra isso muito bem. As temas centrais são a tradição, a cultura e a vida brasileira. É importante para você de mostrar o Brasil e a diversidade do país?

Eu não penso nisso. Eu acho que se eu pensasse nisso, talvez isso inibisse ou amarrasse o meu trabalho. Eu sou e a gente é essa mistura. O Brasil é um país miscigenado em todos os sentidos, inclusive o sentido cultural.

Eu sou de Brasília, que fica no centro do país, é uma das cidades mais novas do Brasil e ela é feita de todas essas influências. Ali chegaram pessoas de lugares diferentes do mundo e de lugares diferentes do país. Então misturam o conceito humano com a tradição popular também. E ela é uma cidade pensada por artistas, urbanistas como o Lúcio Costa e um arquiteto como Oscar Niemeyer. Então Brasília mistura também esse conceito, que é um conceito que vem do movimento moderno.

Falando em sua cidade natal: É importante para a sua obra e a sua arte que você nasceu em Brasília? Nessa cidade construida artificial, uma cidade moderna onde convivem pessoas de várias culturas. A sua vida e obra seria diferente se você teria nascido num ourto lugar?

O lugar em que a gente nasceu sempre é formador. Eu acho que sim, porque quando Brasília foi construída, ela foi muito criticada. Mas por outro lado, como ela fica no centro do país, ela permitiu uma integração maior, um deslocamento do ponto de interesse, do Brasil somente no litoral.

Antes de Colônia, a sua exposição estive em Munique. Como é de mostrar a sua obra na Alemanha, um país que não tem muito a ver com a cultura brasileira que está tão presente na sua obra?

Internationale Buchwochen Köln Workshop Roger Mello

Crianças participam de workshop de Roger Mello em Colônia

Quando a Biblioteca Internacional da Juventude em Munique me convidou para fazer a exposição, eu nunca tive uma exposição individual, nem mesmo no Brasil. Então para mim foi a possibilidade de repensar o meu trabalho como uma trajetória. E fora do país eu acho que é engraçado, porque o país parece mais presente ainda. E isso mudou a minha maneira de pensar e de me ver mesmo.

Os temas da literatura infantil do Brasil e da Alemanha são muito diferentes. Como são as reações das crianças alemães à sua literatura e seus imagens?

Fiz, aqui em Colônia uma atividade – uma leitura e um workshop – junto com a autora Regina Drummond e muitas crianças. O que a gente viu foi que não existe barreira. Quando se trata de arte não existem fronteiras. As fronteiras são as fronteiras da mente. A gente trabalhou com as crianças a um conceito de um rio, as histórias se misturaram e quando a gente viu, as crianças estavam produzindo.

Você disse uma vez, que o termo "exótico" e "ser exótico" é difícil no Brasil. Na Alemanha, a sua obra é muito exótica e por isso ao mesmo tempo especial – não só para crianças, também para adultos. O que você acha disso?

Perfeito. Porque são culturas diferentes e na verdade o problema para mim é quando o próprio brasileiro vê a sua arte ou a cultura própria do seu país como uma coisa exótica.

Muitas pessoas se aproveitam dessa ideia da arte popular e exploram isso um pouco. Mas o problema é se você enfoca nisso sem se aprofundar, sem estudar. O problema é quando o exótico é estereotipado. E quando a pessoa se aproveita disso só porque está na moda. E está na moda.

Não está na moda só. O governo brasileiro tem estado a estipular, por exemplo, que se produzam livros, se comprem livros de referência tipo raízes africanas e indígenas. É bom que o governo tem tentado incluir o que antes estava excluído. Mas as pessoas começam a fazer coisas só porque vão vender livros.

Isso é uma coisa bem específica do Brasil. Mas eu acho que acontece em todos os lugares.

Você ilustrou mais de 100 títulos, 19 deles com textos de sua autoria. A gênese do livro "Cavoeirinhos" foi explicado por você com uma viagem da infância. É desse período que vem a sua inspiração?

Eu cresci em Brasília, que é uma cidade em que, no final do ano, durante as férias, as pessoas viajavam, saindo de Brasília para outros lugares. E, no caminho, indo ás vezes por o Rio ou para a Bahia, a gente passava pelo caminho e via essa arquitetura estranha dos fornos feitos de barro e que saía uma fumaça de dentro, porque eles estavam queimando as árvores para fazer lenha, para fazer o carvão que é importante numa das maiores indústrias do Brasil, que é a indústria do aço. Era muito impressionante para mim ver aquelas casas que pegavam fogo e saber que pessoas trabalhavam ali num lugar extremamente insalubre.

E crianças também trabalhavam nessa cadeia. O trabalho infantil é um tema que acabou sendo recorrente na minha obra, porque tinha feito também um livro sobre os meninos que viviam de catar caranguejo nos mangues.

Através da observação dessa paisagem, desse tipo de casa, me perguntei: O que é esse lugar? Esse lugar conta uma história. Era uma leitura visual dessas imagens que levou à narrativa no livro dessas mesmas imagens.

No seu workshop aqui em Colônia, as crianças estavam interessadas e agitadas. Esses workshops podem ser uma forma de atrair as crianças aos livros?

É bonito mostrar que o livro é um objeto que faz parte da vida das pessoas, é um objeto de cotidiano e que ele não é feito da noite por dia, ele tem várias etapas e as etapas estão presentes na exposição. No tempo todo, as crianças mostraram interesse.

O que é incrível também: Quando a Regina Drummond conta a história, ela a conta com o livro na mão. Então, a história não está vindo só, ela passa pelo livro. Esse fascínio fica presente. Depois a gente faz atividade e as crianças foram ilustrar a própria versão deles da história. É incrível: Não tem tecnologia que substitua papel e lápis! As crianças se deixavam e estavam absolutamente concentradas.

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