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Alemanha

A última gota de sangue para Schröder

O debate intelectual sobre a crise econômica na Alemanha ameaça se transformar numa espiral de alarmismo: uns evocam o caos da República de Weimar, outros evocam o perigo de se evocar o caos da República de Weimar.

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Debate sobre a crise inflama imprensa alemã

Milhares de alemães se propuseram a sacrificar voluntariamente sua última camisa pelo chanceler federal Gerhardt Schröder. Diante dos cofres vazios da União e do imenso rombo no orçamento público, eles querem contribuir com a política de contenção de despesas do chefe de governo alemão. O iniciador desta ação popular, que caiu em solo fértil entre os alemães, é Christian Stein, especialista em marketing de internet, que prevê que a chancelaria federal chegue a receber 60 mil camisas usadas até o Natal. O gesto parte da expressão idiomática "levar até a última camisa", que significa mais ou menos "sugar até a última gota de sangue".

A retórica da crise

O fantasma da crise está assustando gregos e troianos na Alemanha, transformando-se aos poucos num discurso apocalíptico. Na noite da apuração das eleições parlamentares, em setembro passado, os eleitores dos social-democratas e verdes passaram horas tremendo de apreensão em frente às TVs, diante do perigo de uma vitória do conservador social-cristão Edmund Stoiber. Poucas semanas após a reeleição de Schröder, no entanto, seus próprios eleitores foram os primeiros a levantar a primeira pedra: a política de 'mãos leves' do chanceler federal ainda há de arruinar a Alemanha, soavam as primeiras reclamações.

Intelectuais que apoiaram Schröder publicamente, muitos dos quais convidados assíduos dos "saraus" na chancelaria federal, começaram a manifestar sua ira em relação à reforma fiscal, à falta de uma concepção econômica viável e a ausência de transparência do governo. Uns chamam Schröder & Co. de "saqueadores das gerações mais jovens"; outros preferem comparar a "bênção" da atuação da Schröder a um "ataque aéreo"; outros ainda se mostram horrorizados com o fato de o país ter caído nas mãos de "um bando de loucos". A exacerbação das críticas nos suplementos culturais do país passaram a remeter ao alarmismo da imprensa marrom.

Democracia em crise de legitimação?

No entanto, o aparente consenso anti-Schröder entre os intelectuais se transformou num inflamado debate público, após a oposição conservadora ter acusado o governo de fraude eleitoral e ameaçado abrir uma CPI para apurar por que a coalizão esperou passar o pleito para divulgar o índice oficial de déficit público. Neste contexto, o alarmismo em torno de um "país desgovernado" passou a colocar em questão a legitimidade do governo. A propagação do medo apocalíptico, por um lado, e as advertências contra uma "retórica do estado de emergência" e contra o questionamento das instituições democráticas dividiram a imprensa alemã em duas frentes de combate.

Após os jornais conservadores apelarem para a comparação com a situação político-econômica da República de Weimar, o debate escalou com um discurso anti-apocalíptico, que soa tão exacerbado quando o seu reverso. A associação com a política de contenção de despesas da República de Weimar, que desencadeou o desemprego em massa e abriu caminho para a retórica populista de Hitler, partiu do político Oscar Lafontaine e foi retomada pelo cientista político Arnulf Baring. Imediatamente levantaram-se vozes de todos os cantos, para acusar os alarmistas de fomentar o populismo de direita.

O historiador Hans Mommsen interferiu na discussão para explicar por que a comparação com a República de Weimar é um nonsense histórico, apelando também por mais moderação: "Aqueles que evocam a crise do fim da República de Weimar deveriam se esforçar para eliminar do debate público o tom de polêmica." Afinal, em meio à espiral de advertências e contra-advertências sobre o que é permitido ou não dizer, em meio ao fogo cruzado dos órgãos de mídia, Schröder já está deixando de ser alvo das agressões, podendo até – quem sabe – passar um Natal tranqüilo, em meio às suas 60 mil camisas.