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Alemanha

200 mil crianças dependem de doações de comida na Alemanha

Ministras da Família e da Justiça cobram mudanças na política familiar, a fim de garantir bem-estar infantil, mesmo que para isso seja necessário cercear direitos paternos. Especialistas alertam para pobreza infantil.

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Muitas crianças vão à escola sem nada para comer

Diante de recentes casos de negligência familiar e abandono infantil, o governo alemão avalia a possibilidade de cercear os direitos dos pais, a fim de garantir maior proteção para crianças.

Deutschland Terror Gesetz Justizministerin Brigitte Zypries

Ministra da Justiça, Brigitte Zypries (SPD)

Em entrevista ao jornal Bild, a ministra da Família, Ursula von der Leyen, pleiteou que a Justiça deveria estar habilitada a tirar a guarda das crianças, caso fique provado que os pais não estão em condições de garantir o bem-estar dos filhos. "O direito dos pais não pode permitir que as crianças sofram ou até morram", disse.

Também a ministra da Justiça, Brigitte Zypries (SPD), se declarou a favor de conceder maiores poderes a tribunais familiares. "Não quero que a Justiça comece a agir só na hora de tirar a guarda da criança", disse ao jornal Tagesspiegel.

Juízes deveriam poder intimar pais para uma conversa preventiva ou obrigá-los a participar de um treinamento antiviolência. Se necessário, poderiam até determinar que a criança passe a freqüentar o jardim-de infância em período integral. Um projeto de lei já estaria inclusive em discussão no Parlamento. "Espero que a lei possa ser aprovada sem demora em 2008", apelou Zypries.

Especialistas criticam

Ursula von der Leyen

Ministra da Família, Ursula von der Leyen (CDU)

Mais de 2,5 milhões de crianças dependem hoje de ajuda social na Alemanha, o dobro do total registrado em 2005, quando o governo do social-democrata Gerhard Schröder efetuou cortes no sistema de bem-estar social. Segundo o politógo Christoph Butterwegge, da Universidade de Colônia, o aumento da pobreza infantil no país é conseqüência direta desses cortes.

"Instituições humanitárias e pesquisadores como eu advertiram que a reforma do mercado de trabalho significaria o aumento da pobreza e que as crianças seriam as principais afetadas", critica Butterwegge.

Seus argumentos são defendidos também pela instituição de caridade Die Tafel, que oferece refeições e distribui alimentos para a população necessitada em toda a Alemanha. De acordo com seu presidente, Gerd Häuser, das 800 mil pessoas que receberam doações neste ano, cerca de 200 mil eram crianças. Além disso, o total de pessoas que a instituição ajuda está crescendo signficativamente, tendo sido de 600 mil há apenas dois anos.

Professores alertam

Segundo Häuser, de 5 a 10% das crianças em idade escolar são forçadas a ir à escola sem merenda. "Professores reclamam que muitas crianças não têm energia, pois não comeram nada o dia todo", conta.

Para Butterwegge, a ajuda introduzida este ano pela ministra da Família Ursula von der Leyen implica em menos dinheiro para famílias mais pobres. Com o novo sistema, todos os pais, indiferente de quanto ganhem, recebem um auxílio mensal de 300 euros no primeiro ano após o nascimento. Antes, famílias de menor renda tinham a possiblidade de receber 300 euros por mês por até dois anos.

O politólogo critica que a política familiar do atual governo permite que famílias não necessitadas recebam ainda mais dinheiro, enquanto a verba é desviada daqueles que pouco possuem. Ele cobra um aumento da ajuda social.

Sistema educacional reforça pobreza

De acordo com um relatório apresentado pela organização não-governamental Deutsches Kinderhilfswerk, uma em cada seis crianças depende de ajuda social na Alemanha. Desde 1990, ano da reunificação do país, a pobreza infantil aumentou consideravelmente em comparação a outros países industrializados, indica um estudo da Unicef de 2005.

Para Butterwegge, seria essencial que a Alemanha alterasse também seu sistema de ensino. "A pobreza é reforçada por um sistema educacional seletivo", criticou, referindo-se ao fato de que determina-se relativamente cedo quem terá ou não a chance de mais tarde estudar numa universidade. (rr)

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