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Mundo

"É possível recuperar jovens extremistas"

A maioria de agressores em Paris tinha cidadania belga ou francesa. Isso torna urgente a questão de como evitar o radicalismo doméstico. Para o pedagogo Thomas Mücke, é preciso fazer trabalho de prevenção nas escolas.

O pedagogo e cientista político Thomas Mücke é cofundador e diretor da Violence Prevention Network. Essa rede de prevenção de violência presta aconselhamento contra a radicalização de jovens em toda a Alemanha e também trabalha junto a criminosos violentos com motivações extremistas.

Em entrevista à Deutsche Welle, Mücke explica a necessidade de evitar que a cena extremista tenha acesso aos jovens e de que esse trabalho de prevenção seja realizado nas escolas.

DW: Depois dos atentados em Paris, fala-se muito sobre o reforço do policiamento, do serviço de inteligência e dos ataques militares contra o "Estado Islâmico" (EI). Mas, na esfera pública, permanece a pergunta: como se pode evitar que os jovens resvalem para o islamismo radical e, finalmente, para o terrorismo? Que possibilidades de intervenção estão à disposição da sociedade?

Thomas Mücke: Podemos trabalhar para que a cena extremista tenha menos possibilidades de recrutar jovens. Para o meu campo profissional, é importante que se parta para a prevenção – quer dizer: para as escolas. Ali é importante informar sobre essa cena. Temos que transmitir aos alunos: como agem os extremistas, os salafistas? Como eles tentam trazer os jovens para seu lado?

Durante as aulas também se devem discutir os vídeos [dos fundamentalistas islâmicos] que eles veem na internet e através dos quais podem se radicalizar, se não se conversar com eles a respeito. Deixamos claro como os extremistas tentam mobilizar os jovens a viajar para a Síria. Tudo isso se pode discutir de antemão com os jovens e é algo importante no trabalho de prevenção.

Uma coisa, aliás, chama atenção: todos os jovens com que trabalhamos e que fizeram parte desse meio ou que estiveram na Síria, eram analfabetos religiosos antes de entrar na cena islamista. Eles podem ter raízes religiosas, mas poucos conhecimentos sobre sua religião. Por isso, também é importante o esclarecimento preventivo sobre o islã nas escolas: que a fé muçulmana não tem nada a ver com o ideário extremista.

Quais são suas experiências com jovens que já se radicalizaram?

Thomas Mücke, Mitbegründer und Geschäftsführer des Violation Prevention Networks

Thomas Mücke: "É importante que se parta para a prevenção"

Em toda a Alemanha, trabalhamos com mais de 100 jovens. O interessante é que de fato se pode chegar até eles. A princípio é preciso fazer algum esforço, mas então se estabelece o contato.

Observamos que é possível fazer com que esses jovens sejam abertos a outras opiniões, de modo que comecem a duvidar e a fazer perguntas. Então entramos num processo bom e podemos retirá-los desse meio extremista.

Isso também vale para os que retornaram da Síria: no caso de muitos repatriados, notamos que esses jovens vivenciaram um choque de realidade e passaram a colocar questionamentos, então se entra num debate. Ou seja: eles também são acessíveis. Mas isso certamente não se aplica àqueles que já viajaram para a Síria tomados pelo ódio, e que não tinham mais nada em mente a não ser praticar sua violência e cólera. Esses são os mais difíceis de se alcançar.

A partir de sua experiência, que motivos levam esses jovens a cair nos braços dos extremistas?

As etapas de radicalização nem sempre são idênticas. De fato, existem muitas características semelhantes: por exemplo, muitas vezes eles são filhos de pai ou mãe solteira. Ou não são bem-sucedidos em sua carreira escolar. Ou não se sentem aceitos e acolhidos nesta sociedade.

Mas há também jovens que vêm de famílias completamente intactas. Eles podem ser o filho de um professor, de uma professora, de um policial. Ou seja, pode acontecer com qualquer um, não somente com descendentes de imigrantes, mas também com gente que não têm qualquer histórico de migração.

Isso vem a calhar, pois a cena extremista conhece muito bem as necessidades emocionais dos jovens à procura de uma identidade e que talvez estejam passando por uma fase crítica de vida. O meio proporciona sobretudo a sensação de segurança, de apoio e de comunidade: essas são as necessidades emocionais que eles preenchem.

Então lentamente começa um processo que se pode descrever como lavagem cerebral. Os jovens param de se confrontar com os que pensam diferente deles. Muitas vezes, tentam fazer catequizar a família e o círculo de amizades. Mas quando isso não funciona, então deixam de lado esses contatos sociais. E passam a ter uma visão de mundo única.

Isso muitas vezes é associado a imagens como: os muçulmanos são perseguidos por toda parte. Então são mostradas fotos de mulheres estupradas, de crianças assassinadas. Trabalha-se muito com emoções. Finalmente vem a última etapa, onde se pergunta: como você ainda pode estar aqui na Alemanha, dormindo debaixo de um cobertor quente, enquanto seus irmãos e irmãs estão sendo mortos e estuprados?

É exercida uma forte pressão moral, que pode realmente levar o jovem chegar à conclusão: eu vou partir. Nem todos pensam em lutar, mas sim ajudar de uma forma ou de outra. Quando ele chega ao acampamento, a primeira pergunta que vem é: "Ataque suicida ou vai lutar no front?" Para muitos, é um choque de realidade. E em alguns casos é possível recuperar esses jovens que já se deixaram instrumentalizar.

Existem sinais que podem despertar a atenção dos pais e a que eles devem estar atentos?

Quando os pais notam que de repente o filho corta os contatos sociais; quando há uma mudança na aparência – esses são indícios bem claros –; quando eles não reconhecem mais os próprios filhos; quando estes passam a se expressar de forma diferente, em que tudo é preto ou branco. E principalmente quando notam que, de alguma forma, os filhos tentam convencê-los sobre o islã.

Se percebem tais sinais, os pais devem procurar imediatamente um serviço de aconselhamento. Mas os extremistas já começaram a reagir: em alguns casos, não se nota nenhuma alteração de comportamento, porque os recrutas são preparados para não chamar a atenção. Aí fica difícil.

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