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Ciência e Saúde

É possível esquecer a própria língua?

Benefícios de dominar outro idioma são incontáveis. Mas é comum entre imigrantes a sensação de que, aos poucos, palavras na língua materna começam a faltar. Fenômeno é chamado de atrito – e está ligado a vários fatores.

Ninguém duvida das vantagens de se falar várias línguas no mundo globalizado, mas uma babel intercultural, às vezes, pode causar uma espécie de curto-circuito. E até esquecimento. Há dez anos, Luciana Rangel trocou o Rio de Janeiro por Berlim. Foi na capital alemã que a carioca, de 41 anos, se casou e teve dois filhos. Mas, mesmo sendo uma leitora voraz de revistas, livros e jornais brasileiros, às vezes, detalhes do idioma pátrio lhe escapam.

No trabalho, como produtora da TV russa Ruptly, ela fala inglês e alemão. Termos técnicos de TV vêm à cabeça somente nessas línguas – nada em português. Em casa, com o marido e os filhos, Arthur, de 4 anos, e Victor, de 8, tudo se mistura. Afinal, a experiência da maternidade aconteceu na Alemanha.

"Coisas ligadas a bebês ou à escola vêm em alemão. Tem dias que não falo nada de português. Não é que você esqueça, mas com certeza perde a fluência. A gente perde o vocabulário, e as novas experiências são registradas com o vocabulário do idioma local. Quando encontro alguém desconhecido e quero empregar um bom português, às vezes, fica difícil. Como estou acostumada a falar com brasileiros que dominam o alemão, acabo colocando muitas palavras em alemão no meio da conversa", diz Luciana.

A confusão é real. Mas pesquisas indicam que é muito difícil, praticamente impossível, sobretudo na vida adulta, esquecer o idioma nativo, mesmo após anos fora do país. Segundo Marcus Maia, pesquisador de Linguística da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o que ocorre, geralmente, é uma perda de determinadas estruturas da língua materna, como a pronúncia, quando há outros novos idiomas incidindo sobre o original, em atrito.

"Esta é uma área bastante controversa, como tudo o que envolve o cérebro, e não há conclusões completamente estabelecidas entre linguistas e neurocientistas. Desde a década de 1940, trabalha-se com a hipótese de regressão. Ou seja, aquilo que você aprende primeiro, é a última coisa que vai perder. Claro que há alguns casos entre os migrantes. Por exemplo, se um idoso emigra e se afasta por longo período de sua comunidade de origem, pode ter dificuldade de usar o idioma nativo", afirma o especialista.

Após a puberdade, parte do cérebro se fecha

Na linguística, o atrito é definido como a perda não patológica de uma parte ou da totalidade de uma língua por um falante bilíngue. E parece ocorrer no nível neurológico. Um dos fatores a serem levados em conta para aferir a possibilidade de um esquecimento é a idade na qual o indivíduo aprende outra língua.

Normalmente, antes da puberdade, existe o que os cientistas chamam de "período crítico", quando um novo idioma é mais facilmente processado pelo órgão, sobretudo, durante o primeiro ano de vida, quando o cérebro é muito atencioso, captando e armazenando muitas informações.

"Passado este período, algo acontece no cérebro, e é como uma parte se fechasse. Aprender uma língua vai ser um pouco mais complicado, a pessoa vai ter um pouco mais de dificuldade com estruturas, vai ter sotaque. O idioma materno fica numa parte do cérebro, e os outros, em outra região. Mas isso não significa que eles sejam independentes. As línguas compartilham recursos e não ficam isoladas", explica Maia.

"Qualquer erosão da língua nativa também depende de aspectos motivacionais que levem ao desuso. Às vezes, você tem um imigrante que não deseja mais usar seu idioma materno quando emigra, se afasta. A erosão também depende de quanto o indivíduo tem preconceito quanto à própria língua, de aspectos motivacionais", completa o especialista.

Como a língua estrangeira afeta o cérebro

Não perder o contato com o idioma natal é o segredo do professor de alemão Reinhard Schachingel, de 47 anos, para manter a língua afiada. Nascido na Áustria, ele emigrou para o Rio de Janeiro há 11 anos e se naturalizou brasileiro. Mas, mesmo dando aulas e lendo os jornais em alemão frequentemente, ele confessa que, às vezes, derrapa no próprio idioma.

"Vez ou outra esqueço uma palavra, mas esquecer o alemão não vou nunca. Acho exagerado pensar que uma pessoa pode esquecer a própria língua. Esqueço palavras que talvez não lembrasse mesmo se estivesse na Áustria. Quem nunca esquece uma palavra? Leio e dou aulas. O que percebo é uma dificuldade com palavras novas, que não existiam há dez anos. São palavras que conheço passivamente, lendo na imprensa. Vou deduzindo, fico adivinhando o que elas significam já que perdi a vivência. Acho até que vou começar a anotá-las", diz o professor, em português fluente e cheio de sotaque carioca.

De qualquer maneira, aprender novos idiomas é um excelente exercício, apontam especialistas. Pesquisas mostram que, além de poder conversar com uma gama maior de pessoas mundo afora, ser bilíngue traz outros benefícios. E pode deixar o indivíduo até mais inteligente. O cérebro fica com melhores capacidades cognitivas não relacionadas à linguagem e ainda ganha uma espécie de blindagem contra a demência na velhice.

Segundo estudo publicado neste mês na revista Nature Communications, a exposição precoce a uma língua influencia para sempre a maneira como o cérebro trata, mais tarde, os sons de outro idioma. Conduzido pela psicóloga Lara Pierce, da Universidade McGill, em Montreal, no Canadá, o experimento usou 43 crianças entre 10 e 17 anos que falam francês. Algumas delas foram expostas, muito cedo, ao chinês. Nessas, foi observado, através de exames de ressonância magnética, que os cérebros dos pacientes tinham uma região ativa que não era vista nas outras crianças, expostas somente ao francês.

"Existe o que chamamos de transferência. Diz-se que não há como chegar a um idioma sem passar pelo próprio. Por isso, aprender uma língua na infância pode mudar a maneira de aprender outra, mais tarde. Não sabemos se fica mais fácil ou mais difícil, mas esse aprendizado é muito importante, porque se contrapõe às perdas de neurônios a longo prazo", explica o professor Marcus Maia.

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