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Mundo

Áustria oferece disque-denúncia para família de extremistas

Diante de estatísticas preocupantes, governo aposta não só em medidas coibitivas, mas também numa linha direta antiextremismo e em campanhas nas escolas. Porém integração é via de mão dupla, lembra imã.

Nos primeiros três meses desde que foi criada, mais de 200 pessoas já utilizaram a linha telefônica antiextremismo do Ministério da Família na Áustria. Segundo a diretora do programa, Verena Fabris, com a exceção de duas, todas as ligações tinham a ver com fanatismo religioso.

Muitas vezes quem liga é um pai preocupado com o comportamento estranho do filho ou da filha, ao abandonar a escola, ter se convertido ao islamismo ou ao se rebelar contra um suposto tratamento injusto que recebe.

O disque-denúncia é apenas uma das diversas estratégias do governo austríaco junto à comunidade muçulmana para deter o avanço do radicalismo. Elas também incluem atividades de conscientização em prisões e o ensino de religião e workshops em escolas.

Na segunda-feira (02/03), a ONG Mulheres Sem Fronteiras iniciou uma "escola para mães", em que pais de jovens que deixaram a Áustria para lutar no Iraque ou na Síria ensinam a outras mães como reconhecer os sinais precoces de radicalização e como agir contra ela.

Mais radicalização ou investigação eficiente?

O país tem apresentado casos notórios de adolescentes que foram para a Síria casar-se com jihadistas, unindo-se assim aos 3 mil combatentes estrangeiros que deixaram a Europa para lutar na Síria. Quase toda semana há notícias sobre pessoas presas tentando viajar para lá.

Segundo registros, em novembro, 130 pessoas deixaram a Áustria para aderir a movimentos de terrorismo islâmico no Oriente Médio. Em janeiro, esse número subiu para 190.

O porta-voz do Ministério da Família, Karl-Heinz Grundböck, adverte que tais cifras devem ser vistas menos como uma tendência crescente do que como indicação de que o governo está mais eficiente em suas investigações. Cinco pessoas colocadas na lista de suspeitos em janeiro, por exemplo, deixaram de fato o país em setembro.

Os 190 combatentes emigrados representam menos do que 1% da população muçulmana da Áustria, porém quase 70 retornaram ao país, muitos para fins de recrutamento.

Embora não se trate de números especialmente elevados, uma pessoa perdida para o extremismo já é demais, observa o imã vienense Ramazan Demir. Ele e seus companheiros da comunidade religiosa vêm colaborando com o governo para integrar outros muçulmanos à sociedade austríaca e evitar uma maior radicalização.

Ramazan Demi

Imã Ramazan Demir, turco-alemão, enfrenta discriminação na Áustria

Identidade penosa

O sacerdote de 29 anos é também um dos diretores da Comunidade Religiosa Islâmica da Áustria (IGGÖ, na sigla original) e secretário-geral do Grupo Muçulmano de Cuidado Pastoral nas Prisões. Ele acaba de obter o título de mestre em Estudos Islâmicos pela Universidade de Viena. Junto com a esposa, que cursa o mestrado em Psicologia, vive há oito anos na capital austríaca.

Em sua principal atividade profissional, como professor de religião num ginásio local, Demir conversa muito com seus alunos sobre identidade cultural. "A integração é uma via de mão dupla. Ambos os lados têm que se empenhar. Um precisa abrir a porta, o outro precisa entrar por ela", resume.

O imã bem sabe como é difícil atravessar essa porta, na qualidade de alemão de terceira geração, cujo avô veio da Turquia trabalhar numa empresa química. Sua mãe trabalha como faxineira numa escola local. "Na Turquia eu sou alemão, na Alemanha sou turco, na Áustria sou turco-alemão."

Demir reconhece: "Temos um problema de identidade." A maioria dos 190 jihadistas emigrados da Áustria tem menos de 25 anos de idade. Mais da metade veio da Chechênia, como requerente de asilo, e o segundo maior grupo é formado por pessoas de etnia bósnia.

"Tanto na Chechênia quanto na Bósnia houve guerras. Essas são pessoas traumatizadas, e eu acredito que estejam se debatendo com a própria identidade. 'Com quem, ou com o que, eu posso me identificar?' E, se olharmos bem: essas pessoas tiveram sucesso na Áustria? A resposta é 'não'."

Sem qualquer ideia sobre religião

A maior parte dos jihadistas emigrados da Áustria não tem trabalho, num país em que os descendentes de imigrantes apresentam a maior taxa de desemprego. Muitos abandonaram a escola, têm problemas na família, um círculo de amizades negativo e parca educação religiosa, enumera Demir. "Isso é muito importante: eles não têm a menor ideia sobre religião."

Por isso, paralelamente ao disque-denúncia, o imã aposta na importância de trabalhar com os grupos afetados e de ensinar religião nas escolas. Entretanto, um grupo importante geralmente negligenciado é o dos condenados à prisão.

Cerca de um quarto dos internos da maior penitenciária da Áustria é muçulmano. Contudo, enquanto os sacerdotes católicos e protestantes costumam exercer trabalho pastoral diário nas prisões, os imãs, atuando como voluntários, comparecem sobretudo para as preces da sexta-feira.

Na opinião de Ramazan Demir, isso não basta para evitar que os detentos sejam "contaminados" pelo ódio de seus companheiros de cela, que têm acesso constante a jovens vulneráveis. Muitos que cumprem pena por um pequeno delito saem totalmente radicalizados, após uns poucos meses.

Radikalisierung der jungen Muslime in Österreich

Muitos jovens que se definem como radicais islâmicos não têm a menor ideia de religião

Discriminação social e provocação adolescente

A discriminação é também um fator que contribui para a radicalização de jovens muçulmanos. Como experiência, a diretora do disque-denúncia, Verena Fabris, passou um dia inteiro com o véu islâmico.

Em duas ocasiões, ela sofreu discriminação. Numa delas, ao se encaminhar para um assento no metrô, foi empurrada por outra mulher, que tomou o lugar, dizendo que, se Fabris não pertencia à Áustria, também não devia se sentar. Segundo jovens muçulmanas, esse tipo de reação é comum, assim como serem cuspidas em plena rua.

Desse modo, não espanta à diretora a forma como muitos muçulmanos estão agora reagindo. Ela conta também que algumas das ligações para a linha direta têm a ver com rebelião juvenil e o desejo de provocar pais e professores.

Para uma adolescente muçulmana, sair de burca ou véu pode ter o mesmo significado que tingir o cabelo, usar piercings ou tatuagem para os não muçulmanos. A reação que recebem é "confirmação do preconceito", na definição de Fabri.

Desculpando-se pelo EI

Tais preconceitos se manifestam de forma especialmente intensa após cada divulgação das atrocidades dos terroristas do "Estado Islâmico" (EI). Demir conta que, enquanto representante da comunidade, é extenuante ter que continuamente justificar a própria religião.

"Para a maioria dos austríacos, isso não é óbvio. Eles sempre querem escutar dos próprios muçulmanos: 'Você é contra ou favor de nós?' E isso é por causa da mídia: entra dia, sai dia, só se ouve falar em EI, EI, EI, mulher de véu na cabeça, homem de barba longa. E, claro, você escuta: 'Ele será um deles? E ela?' Sempre", desabafa.

O imã simpático e corpulento, trajando jeans, faz uma pausa. E então acrescenta: "Eu não faço parte dos extremistas, mas tenho que me defender constantemente e à minha religião. É cansativo. Agora, imagine que você é desempregado e tem 23 anos de idade."

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