1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages

Cultura

Árias da vã resistência indígena

Ópera resgata opressão dos índios como precedente histórico de todas as formas de imperialismo e genocídio. Nazistas e imperialistas norte-americanos são comparados em montagem de 'Chief Joseph'.

default

Meik Schwalm, no papel de Chief Joseph

"Com o coração sangrando, meu povo, me dirijo a vocês. Imploro para que vocês começem uma guerra. Imploro para vocês ficarem tranqüilos. Tivemos que aturar muito sofrimento, mas a guerra nos traria um sofrimento ainda maior. Nossos pais e irmãos foram mortos pelos brancos. Nossas mulheres e filhas foram desonradas, embora nunca tenhamos causado sofrimento a nenhuma senhora branca. Jamais teremos seu sangue em nossas mãos. Não quero ver meu povo sendo morto! Não quero que ninguém seja morto. Somos fracos demais para combater os Estados Unidos!"

Trovão que rola sobre a montanha

Hans Zender

Hans Zender

Isso é o que canta o líder indígena americano Chief Joseph na ópera do compositor alemão Hans Zender, que estreou nesta quinta-feira (23/06), na Staatsoper de Berlim. Chief Joseph, encenada por Peter Mussbach, enfoca a trajetória do chefe da tribo Nez Percés (em francês, "narizes furados", por causa dos anéis que os índios desta tribo usavam como ornamento no nariz), comparando o massacre da população indígena das Américas ao genocídio nazista, à bomba de Hiroshima e à atual manifestação da hegemonia norte-americana.

Chief Joseph (Hin-mah-too-yah-lat-kekht, o trovão que rola sobre a montanha, 1849-1904) foi chefe da tribo dos Nez Percés, cujo território original ocupava partes dos posteriores Estados de Washington, Oregon e Idaho. Seu nome simboliza a resistência dos índios contra o desterro e contra a discriminação pelos brancos americanos, mas uma resistência pacífica.

Em 1879, ele fez um célebre discurso para o Congresso em Washington: "Permita que eu seja um homem livre – livre para viajar, livre para me estabelecer onde quiser, livre para trabalhar, livre para fazer comércio onde bem entender, livre na escolha de meus mestres, livre para seguir a religião de meus pais, livre para pensar, falar e agir por mim mesmo – e eu seguirei qualquer lei ou arcarei com a punição".

Uraufführung Chief Joseph an Berliner Staatsoper

Wolfgang Newerla, como Old Joseph, e Georg Drexel, como Young Joseph

De Oregon a Hiroshima

O compositor, regente e professor Hans Zender (Wiesbaden, 1936), que escreveu não apenas a música, mas também o libreto, criou dois níveis de ação em Chief Joseph. Dois turistas se encontram no túmulo do líder indígena e participam de momentos verídicos e fictivos da história dos Nez Percés, desde a tradição dos antigos chefes, que queriam manter os brancos à distância, até a geração de Chief Joseph, mais exposta ao contato com a outra cultura e mais sujeita à dominação. Diante da inevitável dominação dos brancos, ele se vê obrigado a se render, mas ensina às gerações futuras o caminho ritualístico para a liberdade.

A encenação de Peter Mussbach e o figurino de Bernd Skodzig contribuem para uma caracterização caricatural de índios e brancos. Os índios são retratados como nos desenhos animados. O general norte-americano, que apenas grita, veste o casaco típico dos oficiais nazistas. Em um diálogo de walkie-talkie entre o general e a base militar, Zender utiliza como fonte uma entrevista do ano 2000 com Paul Tibbets, o soldado que lançou a bomba de Hiroshima.

Tema intercultural, música impermeável

O cenário do artista norte-americano Jimmy Durham, de origem indígena, cria um espaço improvisado com lonas e andaimes de metal, limitando-o com grandes painéis de propaganda, de Marlboro a Becks. A crítica ao capitalismo se explicita no momento em que o coro canta fragmentos dos Cantos sobre a usura do poeta norte-americano Ezra Pound (1855-1972).

Uraufführung Chief Joseph an Berliner Staatsoper

Wolfgang Newerla, como Old Joseph

Hans Zender, compositor de outras óperas, como Stephan Climax (Frankfurt, 1986) e Don Quijote de la Mancha (Stuttgart, 1993) cria uma conversa paralela entre índios e brancos, onde são raros os momentos verdadeiramente dialógicos. "Na minha peça, a oposição selvagem/civilizado não contrapõe o primitivo ao altamente desenvolvido, nem 'o bom selvagem' de Rousseau ao corrompido homem aculturado. O que eu mostro é o aprisionamento de cada um dos lados em uma visão de mundo unilateral", afirma o compositor. A mistura de tantas fontes e repertórios, como cantigas indígenas, salmos bíblicos, citações de Ezra Pound, J. W. Goethe e Fernando Pessoa se reduz ao material textual. Mas não se reflete na música, que pode ser ouvida como uma repetição de outras peças do compositor em torno de um novo foco temático.

Leia mais

Links externos