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Moçambique

Opiniões divergem sobre cessar-fogo em Moçambique

Parece não haver acordo ou apelo que trave a tensão político-militar em Moçambique. RENAMO diz que o cessar-fogo não será para já. Sociedade civil afirma que negociações não fazem sentido enquanto soarem armas no país.

Políticos, académicos e sociedade civil sentaram-se à mesma mesa, nesta quarta-feira (12.03), para analisar a atual situação político-militar em Moçambique. As partes divergem sobre o atual cenário: a sociedade civil diz que não faz sentido a RENAMO e o Governo continuarem na mesa de negociações enquanto continuam a soar armas nas matas da Gorongosa, província central de Sofala. Dizem não entender porque é que as duas partes continuam a lutar, uma vez que o pacote eleitoral - que era o grande bico d´obra - já foi ultrapassado.

A RENAMO, o maior partido da oposição, diz que o cessar-fogo não será para já. O porta voz do presidente da RENAMO, António Muchanga, considera que é preciso encontrar uma força neutra para mediar o cessar-fogo e o resto as duas partes vão resolver. Muchanga afirma que "não é de qualquer maneira que um cessar-fogo é alcançado. Mesmo quando duas pessoas lutam, uma com um pau e outra com um machado, não há quem entregue a sua arma ao outro. É preciso perceber isso". "Nós, agora, vamos avançar para o cessar-fogo. Quem é que o vai supervisionar? Quem é que tem de entregar as armas a quem?", questiona.

RENAMO questiona sociedade civil

António Muchanga

António Muchanga, porta-voz do presidente da RENAMO

Neste momento, as duas partes estão a discutir a questão da desmilitarização da RENAMO. António Muchanga disse não perceber "porque tem de haver um cessar-fogo para depois parar o conflito”. "O que eu percebo é que as partes conseguiram definir duas coisas fundamentais. Tínhamos que avançar para as questões da legislação eleitoral, o que já foi conseguido, e avançar para as questões de defesa e segurança. Concluídas essas questões, passaríamos para os termos seguintes. O Governo chegou lá com a questão prévia de que só estaria disponível para discutir as questões militares com um cessar-fogo. E está-se agora a discutir as modalidades do cessar-fogo".

A RENAMO acusou também a sociedade civil de não saber posicionar-se. Alguns membros da sociedade civil questionam agora a demora no cessar-fogo, mas, antes, concordavam com o recurso às armas, diz o partido. "Lamentavelmente, quando as 24 rondas estavam a durar, a sociedade civil não dizia nada", afirma Muchanga, lembrando que "alguns elementos que hoje questionam a demora do cessar-fogo, eram aqueles que consideravam que o conflito tinha que arrancar". "Porque é que mudaram de juízo?", questiona.

Gestão do conflito passa por cessar-fogo, diz analista

O académico Rui Janeiro, por sua vez, diz não fazerem sentido as negociações entre o Governo e a RENAMO, quando no terreno estão a morrer pessoas. "Há zonas onde estão a ser pilhadas riquezas. Há zonas que a população local está a abandonar. Há empobrecimento rural, menos investimento, menos políticas sociais para desenvolver aquelas zonas".

Rui Janeiro, que é igualmente especialista em gestão de conflitos, critica Muchanga quando este fala em primeiro alcançar o acordo e só depois chegar ao cessar-fogo, afirmando: "Primeiro temos que passar pela gestão do conflito, que é o cessar-fogo. É este o primeiro passo, o fim das hostilidades. Só depois se vai para o segundo passo, a resolução do conflito, as negociações, a assinatura de acordos. Como é que se vai chegar a um acordo quando ainda há zonas onde ocorrem mortes?".

Dialog zwischen RENAMO und Regierung in Mosambik

Uma das rondas de negociações entre RENAMO e Governo

António Dilengue, membro da sociedade civil, desvaloriza as críticas de Muchanga. Em nome da paz, concorda que o cessar-fogo pode ser alcançado com a intervenção de organizações internacionais, mas afirma que se "coloca aqui uma dúvida: quem são e o que representam as instituições internacionais. Não podemos esquecer que há interesses que regem estas organizações que podem beneficiar uma das partes".

Chissano assume erro, RENAMO discorda

Entretanto, a entrevista do ex-presidente moçambicano Joaquim Chissano ao canal moçambicano STV, esta semana, ainda repercute dentro e fora de Moçambique. Chissano disse que o não-desarmamento da RENAMO foi, conforme suas palavras, o maior erro da sua governação.

“Foi excesso de confiança termos permitido que a RENAMO ficasse com armas. Quando começámos a agir, a RENAMO já tinha criado uma filosofia para se manter com armas. Nós não sabíamos quantos homens, quantas armas escondidas a RENAMO tinha. Preferimos jogar com o tempo, com a persuasão, com aproximação, e isso durou esses anos todos”, disse ao jornal O País.

Joaquim Chissano Ex-Präsident von Mosambik

Joaquim Chissano, ex-presidente de Moçambique

O porta-voz da RENAMO discorda do presidente Chissano. António Muchanga lembra que a FRELIMO capturou as forças de segurança e a inteligência do Estado agindo contra a RENAMO. "Criou uma força paralela à polícia de choque, a famosa Força de Intervenção Rápida (FIR), que, até à assinatura do acordo de paz, não existia. Esta falta de reforma da polícia e dos Serviços de Informação e Segurança do Estado (SISE) criou condições para que a polícia e o SISE fossem usados como braço armado do partido do presidente Joaquim Chissano, a FRELIMO", afirma, acrescentando que "estes grupos sempre atacaram a RENAMO.

"O SISE é responsável pelo aliciamento de muitos quadros da RENAMO para se rebelarem contra o seu presidente. Chissano tinha um plano de criar uma RENAMO renovada, à semelhança daquilo que aconteceu com a UNITA".

"Mea culpa" não influencia conversações atuais

O analista político Ericino de Salema afirma que a alegada "mea culpa" do ex-presidente não interfere nas atuais negociações. Ericino de Salema considera que Chissano "disse uma coisa que todos aqueles que estão atentos à realidade moçambicana já iriam prever". "O que o presidente Chissano não fez foi dizer como é que ele deveria ter desarmado a RENAMO", afirma, frisando que "esse é que é o problema".

Para o analista, as declarações desafiam a postura do Presidente Armando Guebuza nas negociações, uma vez que Chissano "diz alto e a bom som que se reuniu pelo menos duas vezes com o presidente da RENAMO, fora da capital do país e em nenhum momento ele se sentiu diminuído por causa disso. Acho que esse é um elemento importante, tendo em conta que, neste momento, o Presidente Guebuza diz que só se pode reunir com Dhlakama em Maputo".

Ouvir o áudio 07:25

Opiniões divergem sobre cessar-fogo em Moçambique

O porta-voz da RENAMO mostra-se otimista quanto ao rumo das negociações e diz que o partido espera o cessar-fogo para iniciar o congresso e definir quem será o candidato às presidenciais. "A RENAMO terá que realizar um congresso dentro dos próximos dias", afirma, explicando que "ainda não há data, mas está nos estatutos que o candidato às presidenciais é confirmado pelo congresso".

"Primeiro, temos de chegar ao cessar-fogo. Depois vamos escolher a cidade onde vamos poder realizar outras coisas". Por parte da FRELIMO, diz Muchanga, "há respostas muito positivas, este ano, porque tivemos 24 rondas sem sucesso mas a FRELIMO mudou de ideias. Dizia que a revisão eleitoral era inconstitucional e amanhã vai ser publicada em Diário da República. Muitas coisas andavam mal no pensamento deles e chegaram à conclusão que estavam errados.

Edison Macuacua, porta-voz do presidente Armando Guebuza, não quis abordar estes assuntos. O porta-voz da FRELIMO, Damião José, esteve até ao encerramento desta matéria com os telefones desligados.

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