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O perigo do extremismo no Burkina Faso

António Cascais
30 de outubro de 2017

O Burkina Faso foi, durante muito tempo, um modelo de coexistência pacífica de diferentes religiões. Mas o país é cada vez mais alvo de atentados islamistas. E, segundo um estudo, o perigo não não vem apenas de fora.

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Foto: picture-alliance/dpa/W. Elsen

Pelo menos 20 pessoas morreram em agosto num atentado junto ao café Istambul na capital do Burkina Faso, Ouagadougou. Em janeiro de 2016, 30 pessoas morreram num ataque similar no "Splendid Hotel" levado a cabo por extremistas da Al-Qaida no Magrebe Islâmico. Os meios de comunicação internacionais noticiaram estes dois ataques, mas muitos outros ficaram por reportar. "Há muito tempo que o Burkina Faso é alvo do terrorismo islâmico", afirma Cynthia Ohayon, analista do International Crisis Group.

Num estudo da organização publicado recentemente conclui-se que, em paralelo com mudanças internacionais e regionais, houve também fatores sociais que levaram ao aumento da violência: "Durante muito tempo dizia-se que a ameaça terrorista vinha essencialmente do estrangeiro, nomeadamente do Mali. Mas um olhar mais atento sobre os ataques no norte do país revela que há fatores internos", explica Ohayon.

Aumento do extremismo no norte

Cerca de 40% da população do Burkina Faso vive abaixo do limite da pobreza. E a comunidade internacional envia menos ajuda ao país do que a outras nações da região, ricas em recursos naturais. No norte do Burkina Faso, a situação é particularmente difícil, pois a maior parte da população, maioritariamente muçulmana, vive da agricultura, numa região cada vez mais ameaçada pela seca. O Governo apoia muito pouco os habitantes, que se sentem abandonados pelo Estado.

Burkina Faso Kühe bei Ouahigouya
Seca no norte do Burkina Faso dificulta a vida no campoFoto: Getty Images/AFP/I. Sanogo

Segundo Cynthia Ohayon, nos últimos anos, o imã Ibrahim Malam Dicko e o seu grupo "Ansar ul-Islam" ("Defensores do Islão") foram angariando cada vez mais seguidores nesta região. O grupo – e não extremistas estrangeiros - é acusado frequentemente de execuções sumárias, raptos, pilhagens e ataques contra a polícia ou o exército.

"Olhando para as raízes do islamismo no Burkina Faso, chegamos à conclusão que elas se baseiam nos problemas sociais existentes no norte do país", diz Ohayon. "Penso que não terá sido só a retórica religiosa que contribuiu para o aumento da violência, mas sim o facto desse líder religioso ter desafiado o sistema caduco que prevalece no país há decénios e que causa muita frustração, sobretudo entre os desfavorecidos e os jovens."

O perigo do extremismo no Burkina Faso

Mudanças políticas aumentam perigo

O problema do extremismo no Burkina Faso terá aumentado depois da saída do ex-Presidente Blaise Compaoré. "Até 2015, enquanto Compaoré esteve no poder, praticamente não houve ataques. Mas a mudança de Governo trouxe consigo muitas outras mudanças políticas, que pioraram a situação de segurança." Em 2012, Compaoré terá tentado mediar no conflito maliano, apresentando-se como homem do diálogo, negociando concessões para os extremistas - por isso, o Burkina Faso teria sido poupado até 2014.

Depois, Compaoré foi forçado a abandonar o poder, ao atingir o limite de mandatos previsto na lei. E o seu sucessor, Roch Marc Kaboré, terá provocado a ira de alguns muçulmanos, não só a nível internacional, como também no próprio Burkina Faso, ao autorizar que a missão antiterrorismo da França, denominada "Opération Barkhane" instalasse uma base no país.

Cynthia Ohayon lembra que enquanto as condições de vida das populações não melhorarem, sobretudo no norte do Burkina Faso, será difícil travar o extremismo.