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Internacional

"O Brasil é racista" diz escritor Paulo Lins

A 65ª Feira Internacional do Livro decorre em Frankfurt, com o Brasil em destaque. O escritor brasileiro Paulo Lins falou à DW sobre a falta de afro-brasileiros entre os convidados, o racismo e o seu novo livro.

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"O Brasil é racista" diz escritor Paulo Lins

O Brasil é o país convidado da 65ª Feira Internacional do Livro que decorre desde quarta-feira (9.10), em Frankfurt, na Alemanha. Trata-se da segunda vez para este país, depois de 1994, e o lema escolhido é “Brasil: um país cheio de vozes”. Mas a lista de 70 autores convidados suscitou, desde logo, críticas. A imprensa alemã apontou a falta de vozes que representem minorias como os afro-brasileiros.

Apesar de concordar com as críticas, o autor Paulo Lins ressalva que "não é a feira que é racista. O Brasil é racista". "A questão é que há poucos negros em posições de destaque no Brasil". Paulo Lins não esconde a sua irritação. O autor sabe do que fala. Ele próprio é a excepção que confirma a regra, o que ficou a dever-se ao enorme sucesso da sua primeira obra a nível nacional e internacional, sobretudo depois do êxito estrondoso do filme baseado nesse livro de nome “Cidade de Deus”.

Buchmesse Frankfurt

Pavilhão do Brasil, na Feira Internacional do Livro

Negros ainda vivem em "situação ruim"

Agora, Paulo Lins veio para a Europa para apresentar o seu segundo livro “Desde que o Samba é Samba”, já traduzido para vários idiomas, entre os quais o alemão. À primeira vista, esta ficção histórica que relata o nascer da música emblemática no Brasil no início do século XX, parece ser uma reorientação de conteúdos na sua obra literária. Mas as preocupações do autor estão lá. "Até hoje o negro vive numa situação ruim no Brasil", afirma, explicando que, ainda assim, "o livro é para cima, é sobre um ritmo, uma música criada por netos e bisnetos de escravos que conseguiram, através da cultura, integrar-se socialmente".

Buchmesse Frankfurt

Edição alemã de "Desde que o Samba é Samba", de Paulo Lins

Aliás, esta nova obra pode mesmo ser vista como aquela que deveria anteceder a Cidade de Deus, o retrato do mundo pobre, marginalizado e violento da favela. Paulo Lins explica que "fazia pouco tempo que tinha acabado a escravidão e o negro ficou marginalizado, porque os portugueses não davam emprego aos negros, dando emprego aos portugueses e europeus que estavam chegando no Brasil". Por isso, afirma o autor "o negro continuou a ser marginalizado e acabou caindo na criminalidade".

Buchmesse Frankfurt

Pavilhão do Brasil na Feira Internacional do Livro

As origens do samba e a homofobia

Para escrever Desde que o Samba é Samba, um livro que pretende mostrar a contribuição crucial da cultura afro-brasileira para o país, o autor passou muitos anos a pesquisar toda a literatura académica existente sobre a criação desta música. Nesse contexto, descobriu que o pai do samba, Ismail Silva, era homossexual. Divulgar o facto mereceu-lhe muitas críticas negativas no país. A virulência desta reacção deixou-o estupefacto. "Achei que ia ter apoio, mas o pessoal não gostou. São mais homofóbicos do que eu imaginava", diz. É um dado adquirido que a discriminação de minorias, seja na base de raça, credo, género ou orientação sexual, é prejudicial para qualquer sociedade. Mas porquê então o racismo como tema não assume no cânone literário brasileiro a relevância que tem no dia-a-dia?

Buchmesse Frankfurt

Camas de rede no pavilhão do Brasil

"Acho que a maioria dos escritores são brancos", começa por responder Paulo Lins, entre risos. "Não estou muito preocupado com isso. Eu, que sofri isso na pele, que sei o que é o racismo, toco no assunto porque me incomoda muito. Quem sofre mesmo tem de falar, porque uma outra parte não sofre. Uma outra parte é racista".

"Literatura pode salvar o mundo"

Mas nem tudo é negativo. Nos últimos anos, começou um debate público mais sério sobre os problemas da sociedade brasileira, mantém Paulo Lins. Ele próprio continuará a contribuir para esse debate e a crescente consciencialização dos afro-brasileiros. E, embora admita ser utópico, pensa que a literatura pode salvar o mundo, "ela não deixa de ser necessária".

"A literatura ajuda a desenvolver a sociedade. Para quem lê, há um desenvolvimento espiritual muito grande: é o conhecimento, é exercitar o que a gente tem de melhor e que nos diferencia dos outros animais, que é usar o cérebro, a razão, a inteligência".

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