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NOTÍCIAS

Mia Couto: Moçambicanos estão a pagar preço "desumano" por conflito

O que é preciso fazer para pôr fim ao conflito entre a RENAMO e o Governo da FRELIMO? O escritor moçambicano Mia Couto considera que as duas partes têm de fazer cedências para chegar a um entendimento, em nome do povo.

"O ambiente em Moçambique padece de uma certa doença esquizofrénica", afirma o autor em entrevista à DW África. "A RENAMO está representada no Parlamento, tem colocado questões às vezes muito pertinentes em relação à construção de soluções ou alternativas para a gestão do país. Agora, não se pode aceitar em nenhum lado do mundo que um partido discuta coisas no Parlamento e depois fora dele usa armas para combater o Governo", defende.

Tal como todos os moçambicanos, Mia Couto não deseja viver os horrores de uma nova guerra civil em Moçambique. Por isso, recomenda que o Governo e a Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO) façam cedências para chegar a um acordo, de modo a pôr fim às hostilidades.

Na opinião do escritor, se o principal partido da oposição, "sem condicionar as negociações a troco de nada", aceitasse fazer "um outro pleito eleitoral", ou se iniciasse "um processo de descentralização de maneira a que essa sua presença fosse legitimada por essas eleições", aí o cenário seria outro.

No entanto, reforça, "a RENAMO não pode, por um lado, aceitar as eleições passadas para justificar a sua presença no Parlamento e, por outro lado, exigir uma outra coisa, dizendo que essas eleições não foram justas".

"Ninguém quer a guerra"

"Chegou-se a uma situação em que é preciso que ambas as partes tenham a capacidade de abdicar de alguma coisa, de alguma pretensão, em nome daquilo que é a vontade popular", sublinha Mia Couto, sustentando ainda que nenhum mediador externo poderá ajudar a resolver o conflito em Moçambique se as partes dialogantes não se entenderem.

"Ninguém quer a guerra", lembra o autor de "Terra Sonâmbula", entre muitos outros títulos, que viveu 16 anos de guerra civil. Por isso, afirma que está exausto e não tem mais forças para enfrentar outro conflito militar. "O que se está a pedir às pessoas, o preço que se está a pedir por essa mudança é completamente desumano", considera.

Bürgerkrieg in Mosambik 1987 (picture-alliance/Paul O'Driscoll/Impact Photos)

Conflito armado deixou marcas profundas em Moçambique

"Não me parece que seja racional matar os outros e a operação que foi criada em Moçambique é para, dos dois lados, legitimar que o outro não é humano", critica. Devido à escalada de violência há milhares de crianças que não podem ir à escola, denuncia ainda o escritor. "Não matem pessoas inocentes, não assaltem hospitais nem escolas".

Sobre a legitimidade de tais atos de violência, protagonizados pelas duas partes, Mia Couto responde que quem governa Moçambique herdou a máquina do aparelho do Estado, que tem um exército e a polícia. "Essa política, esse Estado, exerce violência, é óbvio. É assim a natureza do Estado em todo o mundo, mas não me parece que se possa dizer: 'bom, se um é violento o outro também tem direito a ser'. Acho que a pergunta não está bem formulada. A pergunta é: quem é que tem que governar Moçambique?", argumenta, lembrando que em nenhum outro lugar do mundo há duas polícias e dois exércitos.

O problema, diz o escritor, não é legitimar ou democratizar o uso da violência. A questão é travá-la sem impor condições."E não pode ser uma força de uma guerrilha que foi instalada de maneira ilegal que diz ao Governo o que é que tem que fazer, onde é que tem de pôr as suas tropas".

Soluções por consenso

Mia Couto, que sublinha não ter nenhuma filiação partidária, rejeita a ideia de ódio entre as partes em conflito, depois de 20 anos de paz. Mas critica os poderes constituídos pelos movimentos de libertação que se acomodaram depois das independências.

Ouvir o áudio 03:34

Mia Couto: Moçambicanos estão a pagar preço "desumano" por conflito

"Todos os movimentos de libertação têm um pouco esse exercício de pensarem que o poder é eterno e o poder está conferido para sempre. É óbvio que isso tem de ser questionado dentro de todos os movimentos de libertação", seja o Congresso Nacional Africano (ANC), a FRELIMO, ou o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). "E já está a acontecer naturalmente".

Numa altura em que está em causa a paz no país, o escritor questiona com estranheza que o debate político esteja a ser feito à margem do Movimento Democrático de Moçambique (MDM), partido da oposição também presente no Parlamento.

E com tantos desvios de fundos e dívidas ocultas, terá o antigo Presidente Armando Guebuza contribuído para alienar a RENAMO da via pacífica? "Por muito que tenha sido feita essa política de alienação daquilo que era a riqueza nacional, o erário público, eu não sei se isso justifica que a RENAMO opte por uma via militar", responde Mia Couto.

Mia Couto falou à DW África aquando do lançamento em Portugal, na semana passada, do seu livro "A Espada e a Azagaia", da trilogia "As Areias do Imperador”, que retrata os derradeiros dias do chamado Estado de Gaza, o segundo maior império em África dirigido por um africano. O livro é a continuação de um primeiro volume de três obras sobre o passado plural da História de Moçambique, contada em várias vozes. Segundo o autor, o terceiro livro da trilogia estará concluído em 2017.

"O que este passado nos ensina é que a solução de imposição de uma via, conquistada pelas armas, tem, como teve aquele Império, pouca dura. É preciso que essas soluções sejam encontradas por consenso, não por outra via", defende Mia Couto.

 

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