Livro com testemunhos da Guerra Colonial em Angola lançado em Lisboa | Angola | DW | 07.10.2017
  1. Inhalt
  2. Navigation
  3. Weitere Inhalte
  4. Metanavigation
  5. Suche
  6. Choose from 30 Languages

Angola

Livro com testemunhos da Guerra Colonial em Angola lançado em Lisboa

"O Padre de Savimbi" traz memórias de António Oliveira, missionário claretiano português que desempenhou o papel de negociador entre a UNITA e as autoridades militares portuguesas durante a Guerra Colonial em Angola.

Portugal Lissabon Podium mit Buchautor António de Araújo Oliveira (DW/João Carlos)

Lançamento do livro "O Padre de Savimbi", em Lisboa

"O Padre de Savimbi", de autoria do padre português  António de Araújo Oliveira, foi apresentado este sábado (07.10) no Colégio Universitário Pio XII, em Lisboa. A obra traz histórias consideradas pela editora Aletheia como memória coletiva dos povos de Angola e de Portugal.

Logo após ter sido ordenado sacerdote na Sé de Lisboa, em 1970, o padre António Vieira partiu, em outubro desse mesmo ano, para Angola - com 27 anos de idade, como missionário, integrando a Diocese do Luso que os claretianos portugueses haviam fundado no leste do país.

Ali era o epicentro do conflito que a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), de Jonas Malheiro Savimbi, vinha mantendo contra o exército colonial português.

Portugal Lissabon Buchautor António de Araújo Oliveira (DW/João Carlos)

António de Araújo Oliveira

Pelas circunstâncias da Guerra Civil Angolana, foi forçado a voltar para Portugal, em 1975 – ano da independência de Angola –, depois de cinco anos de permanência no país africano. E passados 42 anos, decidiu lançar este livro, escrito porque era importante contextualizar a história, "isto é, dar a minha versão dos acontecimentos na época", explicou em entrevista à DW.

António Oliveira lembrou o contexto em que se vivia a guerra, em Angola. "No olho do furação, na zona da UNITA, Jonas Savimbi tinha o quartel a sul do caminho de ferro implantado", informou, de onde lutava contra os portugueses.

Relação com a UNITA

Naquela situação, conta que não teve outra possibilidade, se não tentar contactar a UNITA, dizendo que não era inimigo de ninguém e nem era soldado. "Queria estabelecer um modus vivendi com a UNITA, se fosse possível", adiantou, sublinhando que "era um homem de paz, um homem sem armas". Foi a partir daí que se desenvolveram os contactos.

António Oliveira diz que circulava perfeitamente no seio dos homens de Savimbi. O que, na verdade, queria era visitar as cristandades que estavam do lado da UNITA e que não podiam receber um missionário. "Então, era uma emoção muito grande quando comecei a visitá-los do outro lado. Tenho imagens e filmes disso", deu a conhecer. Assumiu, deste modo, a responsabilidade diplomática de mediador.

Jonas Savimbi Rebellenführer Angola SW (AP)

Jonas Savimbi

"Foi nessa altura, quando tive o primeiro contacto com a UNITA que Sabino Sandeli, comandante da zona, escreveu uma carta dizendo se eu podia ser intermediário entre eles e o Governo português", revelou mais adiante. O padre confirma estar na posse de cartas de Savimbi, impressas no livro, onde expõe todas as suas memórias. "Os contactos continuaram até eu ir a Jamba, quartel da UNITA, em 1989", precisou.

Dos registos, destaca uma das cartas, o documento 21, de várias páginas, escrita a 21 de Janeiro de 1974 - um ano antes do 25 de Abril. "Savimbi era sagaz", diz ele. Ouvia-se pela rádio que, politicamente, a situação estava a se extremar em Lisboa.

De acordo com o autor do livro, Savimbi tinha um autêntico programa do governo para uma Angola independente. Dizia ao Governo português: "Não tenham medo de mim que eu vou conservar a cultura portuguesa, vou ser um homem democrata". Para António Oliveira, o então líder do Galo Negro estava, assim, a posicionar-se para estar na primeira fila - quando o Governo português chamasse os interlocutores angolanos. "Era muito inteligente", reconheceu em alusão ao malogrado líder da UNITA.

 À pergunta da DW, sobre o que seria Angola hoje se Savimbi estivesse vivo, António Oliveira foi expedito. "Olha, não sei. Eu sou muito crítico a respeito de Savimbi", afirmou. "A determinado momento, ele começou – talvez devido ao isolamento na mata –, a ser um senhor absoluto na Jamba", acrescentou.

Portugiesische Soldaten in Angola (AP)

Militares portugueses em Angola, em 1961

"Aquilo era uma base militar", precisou. "Então, ele começou por, simplesmente, não respeitar ninguém. Tanto é que matou o embaixador Wilson Santos e os filhos, como matou depois várias pessoas. O Nzau Puna e Costa Fernandes tiveram que fugir senão os liquidaria", contou. "Também começou a matar generais, quando as derrotas se acumularam", acrescentou, concluindo que foi a partir daí que tudo se desmoronou à sua volta.

Psicologicamente, pela maneira como Savimbi atuava no terreno, Angola não ganharia nada com ele, opina o autor. Por isso, o livro traz um capítulo denominado "O Anti-herói".

A morte de Savimbi

Entre os factos, o padre António Oliveira inclui no livro os acontecimentos que rodearam a morte de Savimbi, homem sagaz e combativo, que resistiu com um grupo de militares, progressivamente, mais reduzido.

"Cansado, doente e faminto, o seu pequeno grupo de fiéis é surpreendido junto de um rio, quando se preparava para passar a noite e o corpo deste velho combatente, corajoso e brutal é crivado de balas por um pelotão comandado por dois generais que tinham escapado da UNITA para fugir à morte", lê-se no livro.

Portugal Lissabon Bücher Der Priester von Savimbi (DW/João Carlos)

Exemplares do livro "O Padre de Savimbi"

"Naquele dia 22 de Fevereiro de 2002, o homem que Fred Brigland considerava ‘uma chave para a África’, numa biografia que tinha prejetado a sua imagem de carismático político e militar, cai a combater, sem honra nem glória", escreve o autor mais adiante.

A obra, com 329 páginas, é um retrato "muito realista" e "fiel", segundo as palavras de António Monteiro, para quem o autor escreve a história com convicção - juntando a isso a sinceridade com que narra os factos, ultrapassando o seu papel de missionário em Angola na época colonial.

"Não é um livro sobre a descolonização", precisou o embaixador português, que acabou por citar vários momentos marcantes, a exemplo do que contou Zita Seabra a respeito da carta de Savimbi a pedir um livro a António Spínola, antigo Presidente da República Portuguesa falecido a 13 de Agosto de 1996, aos 86 anos de idade. 

O momento ficou marcado com a presença de vários convidados, destacando-se o Embaixador de Angola em Portugal, José Marcos Barrica, e o general Pedro de Pezarat Correia, uma das personalidades do Regime Colonial Português descritas pelo autor, que na altura era major na zona militar leste.

Aproveitando a presença do diplomata angolano na sala, Zita Seabra, que dirige a Aletheia Editores, manifestou também o desejo de, um dia, vir a publicar outro livro, mas com as memórias de José Eduardo dos Santos, Presidente cessante e líder do MPLA, que permaneceu 38 anos no poder em Angola.

Leia mais