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Angola

Kalaf Epalanga: "Não estava à espera de grandes milagres após eleições em Angola"

Por ocasião do lançamento do romance "Também os Brancos Sabem Dançar", o escritor e músico angolano Kalaf Epalanga afirma-se cautelosamente otimista quanto ao futuro do seu país sob nova presidência.

Kalaf Epalanga Ângelo regista com satisfação as mudanças levadas a cabo em Angola e afirma-se otimista quanto ao respeito do novo Governo pela liberdade de expressão, criação e manifestação. No dia em que lança, em Lisboa, o seu novo romance "Também os Brancos Sabem Dançar", o escritor afirma que os sinais de mudança que se estão a registar em Angola deixam qualquer angolano otimista. No contexto, o autor e músico destaca as primeiras medidas tomadas pelo Presidente João Lourenço de saneamento do aparelho do Estado e contra a corrupção,

"Não sou a exceção. Estou bastante curioso e atento. Desejo que o Presidente João Lourenço tenha a coragem de terminar aquilo que iniciou. As mudanças são sempre boas e necessárias. Um país tão grande como Angola e com tantos recursos precisa de outros pensadores e de outros atores. Pessoas com energia e vontade de levar aquela nação em frente".

Em entrevista à DW, Kalaf Epalanga diz que os angolanos têm agora a oportunidade de fazer uma auto-análise e contribuírem de forma valiosa para a transformação de Angola num país verdadeiramente democrático. Há também que pensar em progredir e no legado a deixar às próximas gerações, disse à DW África.

"Terminar o que iniciou"

Der angolanische Musiker Kalaf Epalanga

Kalaf Epalanga exorta os angolanos a participarem ativamente na democratização

Kalaf Epalanga disse que "não estava à espera de grandes milagres" imediatos, depois das eleições presidenciais angolanas de 23 de agosto deste ano, que deram vitória ao partido no poder (MPLA). E afirma que "João Lourenço surpreendeu o país pela positiva", mas espera "ver se os resultados realmente se materializarão".

O escritor considera que este período deve incentivar todos os angolanos a participar no processo de transformação de Angola: "Uma oportunidade para todos nós revermos a forma como lidamos e a forma como nos posicionamos em relação ao país".

E essa participação, acrescenta o artista, pode ser feita de diversas maneiras - sem que seja necessário filiar-se num partido político. "Não precisamos todos pensar da mesma forma. Somos todos do mesmo país, fazemos parte da mesma sociedade e temos uma voz. Temos até algo de importante para contribuir também para o futuro".

E, além disso, diz Kalaf, a participação não se dá apenas governando, decidindo o futuro da nação no sentido de gerir as questões de orçamento e de política pública, mas também no sentido da educação, do pensamento, do civismo e respeito pelas individualidades e diferenças.

Esperança

Ouvir o áudio 03:11

Kalaf Epalanga: "Não estava à espera de grandes milagres após eleições em Angola"

Kalaf Epalanga faz parte do amplo movimento da sociedade civil que deu a cara pela mudança no país. Foi dos que saiu à rua em defesa dos direitos humanos em Angola. É com esperança que olha o futuro, igualmente preocupado com o bem-estar das próximas gerações.

"Temos a esperança de que o caminho que se adotou agora, com essas exonerações e com essas mudanças no paradigma governativo, se materialize também noutras esferas da sociedade".

Entretanto, diz que não espera ações apenas do Governo, mas de todos os cidadãos. "Ou seja, é uma oportunidade que nós temos de rever e pensar o que é que queremos daquele país, o que é que queremos daquela sociedade", disse.

"Eu não quero que os meus filhos nasçam numa sociedade onde a moral ou o bom senso já não existam", desabafa. E defende o respeito pelas diferenças políticas, religiosas, de género, entre outras, assim como a liberdade de manifestação.

"Tudo isso tem que ser abraçado. Não podemos permitir por exemplo [a repressão registada] na recente marcha das mulheres contra a violência. Todos nós temos responsabilidades. Então, nós homens temos uma responsabilidade acrescida, porque não somos só os perpetuadores dessa ação como também podemos corrigir, educando outros homens a pensar diferente, a agir diferente".

No entanto, ressalva, ainda é cedo para se garantir, com todas as letras, que "a música e a dança serão outra" a partir de agora. "Estou à espera que seja algo que nunca vi até agora, mas também não quero que Angola se descaraterize", salientou.

 "Também os Brancos Sabem Dançar"

Buchcover Kalaf Epalanga

Capa do livro de Kalaf Epalanga

A DW África entrevistou Kalaf Epalanga horas antes da apresentação, nesta quarta-feira (06.12), no Teatro São Luiz, do seu primeiro romance "Também os Brancos Sabem Dançar".

O autor explicou que o romance nasceu de um encontro, no Rio de Janeiro (Brasil), com o seu conterrâneo José Eduardo Agualusa. Este escritor convidou-o para falar do kuduro diante de uma plateia etnicamente diversa e interessada em saber mais sobre a génese deste género musical e de dança de Angola, que se espalhou pelo mundo.

Epalanga, nascido em Benguela, fez uma pausa como músico e decidiu trocar Lisboa por Berlim para escrever. Tem em mãos mais dois projetos literários, um dos quais será um romance político.

Kalaf Epalanganasceu em Benguela, Angola, em 1978. Publicou os livros de crónicas, O Angolano Que Comprou Lisboa (Por Metade do Preço) e Estórias de Amor para Meninos de Cor. É cronista de várias publicações em língua portuguesa e  membro da banda Buraka Som Sistema. Atualmente vive e trabalha entre Lisboa e Berlim.

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