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Moçambique

HRW pede investigação ao caso dos cadáveres encontrados na Gorongosa

Pelo menos 15 cadáveres foram encontrados ao abandono na região da Gorongosa, no centro de Moçambique. A área está a ser vigiada por militares, que impedem o acesso a uma vala denunciada por camponeses na semana passada.

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Zona onde foram encontrados 11 cadáveres, junto a EN1

Quatro cadáveres foram localizados numa pequena savana, a cerca de 200 metros do cruzamento de Macossa para o interior. Os outros foram deixados debaixo de uma ponte junto à Estrada Nacional 1 (EN1), a principal estrada do país, constataram jornalistas da DW África e da agência de notícias Lusa no local.

"É verdade, vimos os corpos", disse um camponês, que não se quis identificar. Estavam "a deitar na cova, nós chegámos lá e vimos [os cadáveres] serem comidos pelos passarinhos". Os corpos, em diferentes estados de decomposição, não foram identificados; alguns deles não tinham roupas.

A área está a ser vigiada por gente não identificada, mas a reportagem da DW África testemunhou a circulação na via de viaturas de tropas governamentais que complicam o acesso a uma vala denunciada por camponeses na região.

Segundo contaram os nossos entrevistados, que praticavam a agricultura e garimpo artesanal naquela zona, os corpos teriam sido depositados naquela localidade desde os finais de dezembro de 2015, mas também há corpos que foram ali colocados recentemente.

Autoridades negam vala, MDM pede investigação

É a segunda vez no espaço de uma semana que são encontrados corpos abandonados na região. Na quarta-feira (27.04), camponeses disseram ter descoberto uma vala comum com uma centena de cadáveres localizada na zona 76, entre Muare e Tropa, no posto administrativo de Canda, distrito da Gorongosa, numa área que foi utilizada para a extração de areia para a reabilitação da EN1. Estaria ainda próxima de uma mina de extração ilegal de ouro, entretanto abandonada devido aos confrontos na região entre as Forças de Defesa e Segurança e o braço armado da Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), o principal partido da oposição.

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HRW pede investigação ao caso dos cadáveres encontrados na Gorongosa

O administrador da Gorongosa, Manuel Jamaca, negou, na sexta-feira, a existência da vala. Apesar do desmentido, a Comissão de Direitos Humanos de Moçambique instou o Ministério Público a averiguar os relatos.

O líder do Movimento Democrático de Moçambique (MDM), terceiro maior partido do país, disse estar chocado com as imagens dos corpos abandonados a que teve acesso e exige também uma investigação. Daviz Simango afirmou que uma equipa do MDM seguiu para a Gorongosa, mas não conseguiu chegar ao local da vala comum, "porque está tudo cercado por militares e é preciso muita coragem para circular ali".

A polícia da província de Sofala

prometeu iniciar uma investigação

para apurar a veracidade das denúncias.

HRW pede investigação ao caso dos cadáveres encontrados na Gorongosa

A organização Human Rights Watch (HRW) apelou esta segunda-feira (02.05.) às autoridades moçambicanas para que se desloquem ao local onde foram encontrados cadáveres e investiguem o caso, lembrando-lhes que "semeiam dúvidas" quando desmentir é a sua primeira reação.

Os responsáveis "semeiam dúvidas quando a primeira reação deles é desmentir a existência de um problema. A impressão que nós temos, como observadores externos, é que se desmentem estão a esconder alguma coisa", disse em entrevista telefónica à Lusa Zenaida Machado, investigadora da Human Rights Watch para Moçambique.

Mosambik Zenaida Machado

Zenaida Machado

Machado deixou um apelo às autoridades moçambicanas: "Que deixassem de falar a partir das capitais distritais para a imprensa e se deslocassem ao local e fizessem uma investigação independente, profissional sobre a origem daqueles corpos na mata".

HRW está a companhar o caso

A organização de defesa dos direitos humanos está a acompanhar o caso, seguindo relatos no terreno, mas Zenaida Machado prefere não se referir à alegada existência de uma vala comum, por não haver jornalistas ou investigadores que a tenham visto.

Já sobre a notícia de corpos espalhados na mata, considerou-a "preocupante, muito preocupante mesmo" e apelou às autoridades para que investiguem de quem são os corpos, porque é que estão na mata espalhados e quem é que os deixou ali.

"Nós sabemos que as autoridades ficaram de ir ao local, mas até agora, pela informação que recebemos, ainda não chegou lá nenhuma das autoridades que prometeu chegar, o que é preocupante", lamentou ainda Zenaida Machado, para quem o Estado Moçambicano "tem de dar uma resposta" perante casos destes.

"Não se pode ter um Estado que fica mudo perante estas situações ou que se limita a desmentir quando ainda não se fez ao local", sublinhou a investigadora, recordando que apenas dois dias depois da alegada descoberta de uma vala comum com mais de cem corpos houve uma posição oficial das autoridades a desmentir o caso.

Investigação deve ser muito clara

Para Zenaida Machado, o Governo de Moçambique deve admitir que o país tem um território vasto e complicado e que, quando surgem relatos como estes, o objetivo não é "necessariamente estragar ou atacar a imagem do Estado, mas sim alertar para alguns problemas que estão a acontecer em locais a que eles [governantes] não têm acesso".

Insistiu por isso na necessidade de a Procuradoria, as autoridades moçambicanas e o governo local realizarem "uma investigação muito clara do que é que se passou e porque é que aqueles corpos estão na mata".

Admitindo que a origem das mortes possa ser o garimpo ilegal, já que os corpos foram descobertos perto de uma mina de extração ilegal de ouro, Zenaida Machado afirmou que pode também significar que o conflito entre o Governo e a ala militar do principal partido da oposição, a Resistência Nacional Moçambicana (Renamo), "já passou há muito tempo de um conflito entre as forças armadas e os homens da Renamo como parte de uma operação de desarmamento".

Caso se confirme que os corpos encontrados são de pessoas mortas no âmbito da crise militar, trata-se de "um conflito que está a atingir civis, está a matar civis está a deixar civis espalhados pelo mato", alertou a investigadora da HRW.

Entretanto, na cidade da Beira a situação esta calma nesta segunda-feira (02.05.) embora com registo de confrontos militares na Gorongosa, Cheringoma e Chemba, depois do ataque nesta última localidade no sábado (30.04.) contra uma viatura civil. No ataque que foi atribuído a homens armados da RENAMO, uma pessoa foi atingida mortalmente e sete outras ficaramferidas.

Um dia sepois, no domingo (01.05.), homens armados também tentaram, sem sucesso, ocupar os serviços policiais e administrativos em Chemba. No local morreram cinco civis.

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