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Guiné-Bissau

Guiné-Bissau: Uma semana após ultimato da CEDEAO, o silêncio

Para Dautarin Costa, os problemas do país "só podem ser resolvidos pelos guineenses". O sociólogo critica a atuação da CEDEAO, as declarações de Sissoco e alerta para a situação limite em que vive a população.

Dautarin Costa (Privat)

Dautarin Costa

Numa altura em que completou uma semana após o termo do ultimato da Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) à Guiné-Bissau e cuja situação de crise política e institucional tende a perdurar, um grupo de sete partidos políticos guineenses enviou à presidência da CEDEAO uma carta a solicitar "medidas claras de impacto imediato” para acabar com a crise na Guiné-Bissau.

Na carta divulgada, esta quarta feira (31.05), à imprensa em Bissau, os sete partidos políticos dizem que acreditam que, "perante os riscos e ameaças que impendem sobre a Guiné-Bissau, os chefes de Estado e de Governo da CEDEAO, que estarão reunidos no próximo domingo (03.06) em Monróvia, capital da Libéria, deverão tomar "medidas claras de impacto imediato” para evitar que a sub-região tenha outro "foco de crise de consequências imprevisíveis”.

Dautarin Costa, sociólogo guineense, entrevistado pela DW África, afirma que tem algumas expetativas sobre o que poderá sair desta cimeira porque a CEDEAO chegou a um ponto de não retorno. "Qualquer coisa que saia de lá, vai jogar com a credibilidade da própria CEDEAO. E aquilo que exigimos é que os governos sejam muito concretos, muito explícitos com o ultimato que não foi cumprido", afirma o sociólogo, mostrando ter algumas dúvidas quanto ao desfecho da situação. "Creio que existe esta sensibilidade, mas fico com um pé atrás porque com a CEDEAO nunca se sabe. Eu estou numa lógica de ver para crer se a CEDEAO vai finalmente assumir-se como uma potência organizacional a nível da sub-região que, de facto, promove a paz, a democracia e condições de governabilidade e estabilidade".

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Guiné-Bissau: Uma semana após ultimato da CEDEAO, o silêncio

Comunidade internacional "descredibilizada"

Segundo Costa, a comunidade internacional está, neste momento, "completamente descredibilizada na Guiné-Bissau". O povo, afirma o sociólogo, "acredita que os problemas do país só podem ser resolvidos pelos guineenses e que a comunidade internacional está aqui numa lógica de quase turismo diplomático ou de jogo de xadrez muito dúbio, o que não resolve os problemas".

Em relação ao ultimato da CEDEAO, cujo prazo expirou há uma semana (25 .05.), e até agora a situação continua na mesma, o sociólogo guineense afirma que a comunidade internacional teve sempre uma postura diferente em relação à Guiné-Bissau quando comparada com situações semelhantes em outras paragens africanas. Dautarin Costa lembra o caso da Gâmbia, onde o problema foi resolvido rapidamente. "Aqui na Guiné há sempre posições dúbias no que diz respeito à intervenção da comunidade internacional e a situação atual não dá espaço para intervenções dúbias", assevera o sociólogo, acrescentando que o "que está em causa é a credibilidade, não só da CEDEAO, mas de toda a comunidade internacional que tem intervido nesta crise". "Não falamos só da CEDEAO, temos aqui as Nações Unidas, a União Africana, a CPLP, uma espécie de consórcio da comunidade internacional que joga aqui uma cartada fundamental em termos da sua credibilidade", afirma.

Para o sociólogo, importa ressalvar que estamos perante "um momento histórico" que "a comunidade internacional poderia aproveitar como um espaço de verdadeira concentração democrática".

Guinea-Bissau Jose Mario Vaz (Getty Images/AFP/S. Kambou)

José Mário Vaz, Presidente da Guiné-Bissau

Dautarin Costa acrescenta ainda que toda esta situação de crise e instabilidade que se vive no seu país, é, em grande parte, da responsabilidade do Presidente José Mário Vaz. A seu ver, a sua presidência "é falhada", uma vez que este tinha "um mandato muito simples e não conseguiu cumprir". "Devia promover a união dos guineenses e o reforço das instituições, garantir que a constituição era cumprida e  a estabilidade governativa. Não só não criou a estabilidade governativa, como criou todas as condições com precedentes perigosos para o nosso futuro enquanto nação e desestabilização que vai ultrapassar claramente o mandato dele", afirma.

População "no limite"

Embora não seja uma novidade, Dautarin  Costa diz que, como sociólogo,  tem seguido com muita atenção e preocupação a situação de impasse em que se encontra a população guineense. "É um filme que já vimos antes e as pessoas estão a temer o pior. Não se fala noutra coisa, há um clima de grande crispação entre as pessoas, portanto há uma grande expetativa com o que vai acontecer nos próximos dias, porque estamos numa situação claramente de limite", conta.

Guinea-Bissau Umaro Sissoco (DW/B. Darame)

Umaro Sissoco, primeiro-ministro da Guiné-Bissau

Críticas a Sissoco

Já no fim da entrevista, Dautarin da Costa considerou preocupantes as declarações feitas na quarta-feira(31.05) pelo primeiro-ministro guineense, Umaro Sissoco Embaló, que exortou a polícia a usar "qualquer método, que achar conveniente” para restaurar a dignidade do Estado e não permitir a anarquia no país. Segundo Costa, "a dignidade do Estado existe em função de um Estado que promove condições de desenvolvimento humano para o seu povo. Então um Estado nunca pode ser digno se agride o seu povo quando este tenta exercer o seu direito constitucional de se manifestar", dá conta o sociólogo.

Dautarin Da Costa relembra que esta é uma "situação extremamente grave" e que as pessoas já vivem em crise há cerca de dois anos. "As pessoas não têm horizonte e têm o direito de exigir ao Estado que crie as condições fundamentais  para que a existência delas melhore. E quando um primeiro-ministro, que se diz representante de um país, se apresenta desta forma dizendo que a credibilidade do Estado é exercida através da violéncia não só revela infantilismo político mas revela total desconhecimento do que é um Estado realmente construtor e promotor do desenvolvimento. Isso mostra-nos que não temos gente à altura dos desafios que temos aqui", conclui.

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