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Portugal

Guerra colonial acelerou fim da ditadura portuguesa, diz historiadora

“História da Oposição à Ditadura 1926-1974” é o novo livro da investigadora Irene Pimentel. A obra é publicada no conjunto de acontecimentos que assinalam os 40 anos da Revolução dos Cravos em Portugal.

A historiadora Irene Pimentel fala de vários períodos que marcaram a ditadura e o Estado Novo até o derradeiro ano de 1974, de transição para a democracia. Segundo a investigadora, a guerra do Ultramar, entre 1961 e 1974, foi um dos elementos determinantes para o desgaste da ditadura em Portugal. Os capitães responsáveis pela revolução que conduziu ao 25 de abril de 1974 aperceberam-se de que a guerra não seria resolvida pela via militar e que a solução teria de ser política. Mas o regime de Salazar persistia em manter tropas em África, afirma Irene Pimentel.

"Justamente quando Salazar tem aquele acidente e é substituído por Marcelo Caetano, em 1968, pensa-se que pode haver uma transição gradual para a democracia, naquela primeira fase de liberalização 'caetanista'. Só que, imediatamente a seguir, veio um reforço da ditadura porque a questão principal para o Marcelo Caetano também é manter a guerra nas colónias", explica a historiadora, concluindo que "a manutenção da guerra das colónias não podia ser feita se desaparecesse a ditadura. Ou seja: para democratizar, tinha de se descolonizar. Não descolonizando, não se poderia democratizar".

Marcelo Caetano Programm in RTP

Marcelo Caetano, primeiro-ministro de Portugal de 1968 a 1974

A guerra de África era uma espécie de "oxigénio para o regime", adianta, referindo que ela acabou por "desgastar ainda mais a ditadura" . Em meados dos anos 60, começa-se a ter a noção do cansaço, que viria a contribuir para tal desgaste. "No ano de 1966", aponta a historiadora, "começa a haver a noção de que praticamente todo o dinheiro vai para a guerra colonial".

A importância do papel dos jovens

Irene Pimentel aponta ainda "um processo muito importante", que se junta à fuga da guerra colonial por parte juventude (os refratários e desertores): o movimento de emigração. "Os jovens, e sobretudo homens, vão-se embora do país e, a partir de 1966/67, o movimento estudantil e o movimento laboral divergem claramente da continuação da guerra colonial", acrescenta.

Irene Pimentel assinala ainda que franjas importantes de católicos deixaram de apoiar o regime também por causa da guerra colonial. A historiadora fala num contraste entre a chamada “brigada do reumático” e os jovens capitães que fizeram a revolução.

"Nós aqui não temos um golpe de Estado militar dirigido pelas altas patentes", frisa, explicando que "as altas patentes mantêm-se quase todas ao lado do regime, fazendo o 'beija-mão' e uma prova de obediência junto de Marcelo Caetano". Por outro lado, "há os jovens oficiais, aqueles que estão operacionais e que fazem realmente a guerra, que estão cansados e começam-se a aperceber que, não tendo uma solução militar e só uma solução política, as próprias Forças Armadas ainda iam ser responsabilizadas por uma derrota no terreno de guerra africano", diz a historiadora.

O porquê de uma ditadura tão longa

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Guerra colonial acelerou fim da ditadura portuguesa, diz historiadora

Todo este relato faz parte do novo livro da historiadora portuguesa com o título “História da Oposição à Ditadura 1926-1974”. Na obra publicada pela editora Figueirinhas, a investigadora do Instituto de História Contemporânea da Universidade de Lisboa procura responder à questão: por que razão a ditadura portuguesa durou muito tempo e porque é que terminou. Segundo a autora, a Igreja e as Forças Armadas ajudaram a manter o regime.

Quando Portugal dá um grande salto e se aproxima do 25 de abril de 1974, de certa forma, a história repete-se. O regime é desmantelado através de um golpe de Estado militar, encabeçado por oficiais intermédios das Forças Armadas, cansados da guerra colonial, contrariamente ao que aconteceu em 1926, com o 28 de maio, quando o Exército, através dos seus generais, desmantelou a I República.

O livro, já nas livrarias, é lançado no final deste mês e, em maio próximo, Irene Pimental estará em Berlim, onde vai falar da história contemporânea portuguesa a diplomatas alemães.

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