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Internacional

Família dá lição de luta por igualdade racial e solidariedade na África do Sul

Após 20 anos do fim do Apartheid, a desigualdade social e racial que persiste no país estimula uma família branca a buscar integrar-se à comunidade negra. Joanesburgo ainda tem traços fortes de desigualdade racial.

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Joanesburgo - África do Sul

Até 1994, negros e bancos sul-africanos viviam estritamente separados. Cada grupo tinha a sua entrada específica em prédios, usava transporte público diferente e vivia em regiões distintas. Tudo obedecia à segregação racial do Apartheid.

Quando o regime racista terminou, há 20 anos, todos receberam o mesmo status legal, independente da cor da pele. Entretanto, a realidade hoje é que brancos e negros ainda continuam vivendo separados na África do Sul – em mundos distintos.
Uma família branca, no entanto, está trabalhando para mudar esta realidade.

Os Brankens deixaram a sua imensa casa com piscina e jardim para viver em Hillbrow, um bairro de lata na região urbana de Joanesburgo. A área é conhecida pela elevada freqüência de crimes. Trata-se da única família branca a morar na região.

A Fortaleza

Kaptein Street está na região central de Joanesburgo. Pilhas de lixo, esgoto à céu aberto e ratos a cruzarem a rua. Vendedores ambulantes oferecem relógios, óculos escuros e capas de telefones móveis à equipe de reportagem da DW, que estava a caminho da casa dos Brankens.

O problema é que eles também poderiam ser assaltantes armados. A vida vale pouco na África do Sul. Uma pessoa pode ser morta por um telefone em uma rua de Hillbrow. É por causa disso que a mãe Trish Branken e a filha Rachel geralmente buscam seus visitantes nas proximidades do seu apartamente e invariavelmente, as pessoas já estão bastante ansiosas ao encontrá-las.

Familie Branken Johannesburg Südafrika

Família Branken no edifício onde mora

"Você sabe que eu costumava ficar bem nervosa. Eu acho que é porque eu não conhecia a área. Mas eu acredito que, uma vez que você conhece as ruas, você começa a ficar cuidadosa com algumas coisas e eu, na verdade, não tenho qualquer preocupação hoje”, diz Trish, de 42 anos.

Ela caminha confiante pelas ruas do bairro. Seus cabelos longos e loiros escorrem sobre os ombros. Ela conduz a reportagem cuidadosamente para dois portões de metal que dão acesso a um prédio alto e acinzentado.

No local, mora a família Branken. Ela informa para o segurança sobre a visita e pede para que o portão seja aberto.

Apenas inquilinos registrados tem entrada permitida. Dois homens fazem a segurança da entrada do edifício. As portas de metal abrem quando as digitais da pessoa são reconhecidas. É um dos poucos prédios em Hillbrow, que são considerados relativamente seguros. Há abastecimento de água e eletricidade. O lugar é bastante limpo.

Nova atmosfera

Rachel tem 11 anos e surge na escada do apartamento no terceiro andar. "Gosto daqui porque eu tenho muitos amigos. As pessoas simplesmente aparecem e você nao precisa marcar encontros“, explica a pré-adolescente.

O lugar é bem diferente de onde viviam no passado - uma casa com seis quartos, um imenso jardim em um próspero suburbio branco no norte de Joanesbrugo. Na nova casa, o cheiro de comida e o som das crianças brincando está na atmosfera. Uma estreita passagem leva até outro portão de metal – a entrada da residencia da família Branken.

Trish diz que a campainha sempre é roubada. Agora, eles tem que se fazer ouvir de alguma forma, geralmente fazendo algum barulho ou batendo a porta. O seu marido Nigel abre a porta. Nigel é um homem muito alto. Ele se enconsta no sofa enquanto o seu filho mais novo brinca no chão. Próximo a porta, Rachel e Daniel pulam na cama.

A mãe pega dois de seus seis filhos e sai de novo de casa para ir ao médico. Por dois anos, os Brankens vivem aqui e os filhos dividem um quarto. Mas Nigel diz que todos gostam de compartilhar.

Familie Branken Johannesburg Südafrika

Os Branken são bem-vindos na comunidade negra

"Há muitos benefícios em viver em uma comunidade como esta. Nós começamos um periodo de simplificar as nossas vidas há cinco ou seis anos e agora nós vivemos com menos de um quarto do que vivíamos", explica o pai de família.

Para ele, viver nesta nova região, gastando menos dinheiro, já lhe eu uma lição de vida. "Honestamente acredito que se você lida com pouco você acha que você tem ainda mais. Você acaba descobrindo o que é mais importante. A coisa mais importante de se fazer na vida com as melhores coisas que se tem é compartilhá-las."

Uma vez por semana a família prepara pilhas de sanduíches de pasta de amendoim e cozinha litros de sopa para distribuir nas esquinas do bairro com os vizinhos.

Nigel explica que esta é uma forma de fazer com que as crianças aprendam a ser solidárias e a agir com responsabilidade. Mesmo assim, ele acrescenta que seus filhos se adaptaram naturalmente ao ambiente em que vivem. O melhor amigo do seu filho de nove anos, Jordan, vem de uma família com muitos problemas.

Sonhos e mais sonhos

O pai deles deu a todos veneno de rato e também ingeriu. Tentou matar a todos. Existe uma medida judicial que o impede de aparecer na vizinhança. A mãe é profissional do sexo – trabalha às noites e dorme durante o dia. Assim, as crianças não podem circular pelo apartamento durante o dia e ficam sozinnhos à noite.

"Era óbvio que o menino não teria uma festa de aniversário e não ganharia nenhum presente. Jordan é um dos seus melhores amigos. Então ele decidiu que vai guardar dinheiro e um dia eles irão fazer uma festa para este menino. Como pai, a gente só diz vai: é pra isto que nós estamos a viver", diz Nagel, admirado com a iniciativa do filho.

Mais de 80 por cento da população não tem seguro saúde e depende das institutições públicas para ser atendidas. No entanto, a maioria dos brancos paga por assistência médica, o que lhes dá acesso a medicos e clínicas privadas. Para viver como a maioria, os Brankers cancelaram seus benefícios medicos.

Familie Branken Johannesburg Südafrika

Trish Branken (centro) coordena projeto educacional na comunidade

"Nós queremos nos identificar com a realidade e o estilo de vida das pessoas que estão a nossa volta. Assim, eu acho que nós temos aprendido mais. Até mesmo hoje, sentando com pessoas normais, passando pelas mesmas coisas. Você constrói suas relações com as pessoas desta forma", explica Trish.

Ela costuma fazer amigos nas filas das clínicas públicas. "No final das duas ou três horas de espera, você já fez 10 amigos e sente que você consegue entender melhor as pessoas porque você vive o que todos vivem", constata. Legalmente, negros e brancos são iguais na África do Sul, mas econmicamente, não. Conforme dados do Governo, 36 por cento da popualção vive abaixo da linha da pobreza - 1 por cento deste grupo é branco.

Centro de aprendizagem

Trish está a caminho do que a família chama centro de apredizagem - em um apartamento no andar térreo. "É um apartamento que usamos como ambiente educacional seguro para as crianças da área. Temos muitos livros, brinquedos, quebra-cabeças, jogos eletrônicos. Alguns equipamentos artísticos e convencionais", descreve.

As aulas de música de Trish para as crianças da região são muito populares. Ela descreve o ambiente como seguro e saudável. Para a mãe da família Branken, ás vezes, na região, as crianças estão expostas a situações que não são bem apropriadas a idade que têm. Ou às vezes elas são vítimas mesmo de abusos.

"Então esperamos que ao virem até aqui, elas tenham contato com coisas positivas que façam elas se sentirem crianças normais. E que, no final disto tudo, elas sejam capazes de escapar de algumas situações que vivem em casa, que não são muito agradáveis", esclarece Trish.

Trish e seu marido ainda ajudam adultos a montarem negócios economicamente viáveis. Com o apoio de amigos, eles estão desenvolvendo um sistema de microcrédito. Como a maioria das pessoas em Hillbrow são desempregadas, não podem ter acesso a crédito normal.

Assim, a ideia dos Brankens acaba ajudando. Geralmente as pessoas param em frente ao prédio para falar com eles. Hoje uma jovem está esperando do lado de fora. Ela foi buscar as suas duas meninas que estão no centro de aprendizagem.

Familie Branken Johannesburg Südafrika

A visão de Hillbrow do prédio onde vivem os Braken

Maureen é mãe solteira. Ela percebe que as coisas estão melhorando desde que a família Branken se mudou para o bairro. "É muito bom conviver com eles aqui. Eles estão ajudando as crianças com atividades extras e mantendo-nas seguras a maior parte do tempo."

Um dos seguranças do edifício juntou-se a Maureen e acrescentou que a primeira impressão que teve logo que a família chegou, é que ela iria se isolar da comunidade. "Mas quando eu vi eles virem para este lado, eu pensei: uau, parece que está começando a haver um bom relacionamento entre brancos e negros aqui."

Ele deseja que mais pessoas brancas mudem para Hillbrow porque isto poderia ser benéfico na luta contra o preconceito. "Porque no final nós temos que pensar que somos todos seres humanos, usamos o mesmo oxigênio. Nós somos iguais, mas é somente com a cor da pele. No final, nós somos todos seres humanos."

Diferenças sociais

Três andares acima, Nigel está na sacada cheia de plantas e roupas sujas. Olhando para os prédios em volta, ele percebe janelas quebradas, ausência de iluminação pública e sujeira.

A média salarial das famílias na África do Sul chega a 300 euros. Nigel, que estudou serviço social e presta consultoria na universidade, ganha algo em torno de oito vezes a média salarial sul-africana.
Apesar do fato de sua família estar muito envolvida na comunidade, a diferença salarial é problemática em uma área como Hillbrow.

"Havia alguns jovens que tentaram me roubar. Havia um homem no portão de segurança quando eu estava colocando o meu carro dentro da garage e outro veio até o carro com uma arma. Manteve-me sob à mira, pedindo meu telefone móvel", lembra.

Estas experiências ruins, mas não impedem que Nigel e sua família continuem com o seu objetivo. Pelo contrário: parece que isso dá mais força e energia para que os Brankens continuem dedicados a lutar pelo que acreditam.

Ouvir o áudio 11:25

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